Ensaio de Lucas Novaes originalmente publicado na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026
A PERGUNTA, talvez (!), soe como uma colocação absurda hoje, um quarto de século após a virada do milênio, embora pesquisas recentes demonstrem uma proporção inferior de escritoras que conseguem publicar seus livros1 em relação a seus pares masculinos. Se isso ocorre no século XXI, em um tempo no qual pululam editoras independentes a cada ano2, mesmo fora do eixo Rio-São Paulo, que pensar acerca do início do século XX, período em que nossa República, ainda incipiente, engatinhava, nossa economia era, sobretudo agrária (quase nada industrial) e nossa intelectualidade era centralizada no que, antes, fora a corte, o Rio de Janeiro, sede do antigo Império?
É nesse ambiente que surgem as expressões literárias (inclusive pelas mãos de mulheres) que, mais tarde, receberam a alcunha de “Romance de 30”, tentativa de expressão tipicamente regional que buscava, a um tempo, entender o país, interpretá-lo enquanto nação (e/ou República nascente) e apresentá-lo a quem não o conhecia. Em O quinze, por exemplo, escrito pela cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) e publicado em 1930, vê-se uma autora muito jovem – com apenas dezenove anos à época – a retratar a seca de 1915 e a descrever uma das maiores catástrofes naturais do Nordeste brasileiro, em que milhares, quando não morriam de fome, buscavam sobreviver em campos de refugiados ou flagelados que funcionavam como verdadeiros “campos de concentração”3, criados, à época, pelos governos para abrigar famílias de retirantes sob a desculpa de evitar saques, invasões e crimes cometidos por famintos e andarilhos4.
O enredo se concentra em alguns núcleos narrativos que envolvem personagens que viveram (e/ou sofreram) as consequências da seca histórica do Nordeste e do estado do Ceará. O principal núcleo descreve o ambiente familiar de Conceição, professora jovem, que convive com a avó, Mãe Inácia, em Quixadá (CE), e inicia um relacionamento de amizade com o vaqueiro Vicente, homem de quem é primo e por quem, inclusive, começa a se interessar amorosamente. Conceição é independente e intelectual, amorosa e idealista, preocupada com o sofrimento em seu entorno, o que lhe faz, junto à avó, auxiliar quem quer que bata a sua porta ou mesmo ir ao campo prestar auxílio aos desamparados e alimentar as vítimas da seca.

Conceição, aliás, parece ser um alter ego da própria autora, também intelectual, independente, jovem, criada em ambiente hostil a suas expectativas e ambições. É nesse entrelaçamento “vida-obra” que, muitas vezes, a ficção propõe que se concentra a discussão de O quinze. Rachel, a autora, lia, na juventude, clássicos portugueses, russos e franceses e, “do alto de seus dezesseis anos de idade”, já produzia e escrevia para a imprensa local, “para expressar suas inquietações mais latentes” (QUEIROZ, 2018, p. 8) além de, mesmo em casa, refugiar-se na produção literária. À noite, “escrevia, a lápis, num caderno escolar, à luz de um lampião”, fugia “à vigilância da mãe” e “esperava que todos estivessem dormindo […] então escapava da área dos quartos e deslizava para a sala”: “parecia-me”, diz Rachel, “que a criação literária só poderia ser feita assim, no mistério noturno, longe do testemunho e dos comentários da casa ruidosa de irmãos” (QUEIROZ, 2018, p. 10).
As primeiras páginas ficcionais de O quinze ecoam, sensivelmente, essa cena biográfica:
[Conceição] Levantou-se, foi novamente ao armário. E voltou com um grosso volume encadernado que tinha na lombada, em letras de ouro, o nome de seu finado avô, livre-pensador, maçom e herói do Paraguai.
Era um tratado francês sobre religiões. Bocejando, começou a folheá-lo. Mas, pouco a pouco, qualquer coisa a interessou. E, deitada, à luz vermelha do farol, que ia enegrecendo o alto da manga com a fumaça preta, na calma da noite sertaneja […], ia se embebendo nas descrições de ritos e na descritiva mística […]. Até que dona Inácia […] resmungou de lá:
— Apaga a luz, menina! Já é meia-noite! (QUEIROZ, 2018, p. 19).
Já a Rachel, a mulher real, quando da publicação de O quinze, acolhia a recepção positiva de seu romance de estreia ainda que, em meio a críticas elogiosas, estivessem, com frequência, opiniões que questionassem a habilidade (talvez, até mesmo a possibilidade) de uma jovem… escrever! É o que comprova, por exemplo, a apreciação de Graciliano Ramos:
O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça:
– Não há ninguém com este nome. É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado. (RAMOS apud ENCICLOPÉDIA, 2026).
Tão raras deveriam ser as mulheres que conseguiam alcançar alguma notoriedade literária ou intelectual no tempo de Graciliano que isso é motivo para o autor questionar a possibilidade de ser uma mulher a autora de O quinze. Mas isso não seria o suficiente para justificar sua dúvida (ou, talvez, eximir o célebre romancista de ser – por ausência de um termo mais exato – “cancelado” nos dias de hoje). Parecia, ao contrário, pertencer ao “espírito do tempo” – e dos homens – a crença de que, como afirma o jesuíta francês Antoine-Dalmace Sertillanges, em sua obra acerca da vida intelectual, a mulher,
Sem precisar de ser intelectual, menos ainda mulher de letras, pode produzir muito ajudando o marido a produzir, obrigando-o a velar sobre si, a dar o máximo de trabalho, levantando-o nas horas inevitáveis das quedas, animando-o nos dissabores sem lhos acentuar com demasiada insistência, acalmando-lhe as penas, sendo a sua recompensa após o trabalho (SERTILLANGES, 2019, p. 40)
Em resumo, a mulher “deve desposar a carreira do marido”: “A vida comum tem aqui por centro um cimo; a mulher deve instalar-se nele, em vez de procurar distrair dele o pensamento do homem”. (SERTILLANGES, 2019, p. 40). Essa crença parece ignorar a história humana e, no caso especial de Sertillanges, a própria história da Igreja Católica, que teve exemplos de intelectuais na Idade Média, a exemplo da polímata Hildergarda von Bingen (1098-1179) e da erudita abadessa Heloísa (1090-1164). As “mulheres de letras” estiveram presentes, também, no Renascimento ou na Modernidade, períodos em que passaram a ocupar até mesmo cátedras universitárias mesmo antes do século XIX5.
Não há, portanto, nada na história humana nem na fisiologia feminina que desabone a busca pela vida intelectual por parte das mulheres, o que prova que, se houve movimentos diferentes nas sociedades, eles se deram, obviamente, devido a motivos e/ou discursos políticos, ideológicos, religiosos ou de qualquer outra natureza. Para voltar a Rachel de Queiroz, O quinze parece ser não somente um testemunho de como a mulher pode reagir diante da adversidade da seca, que traz consigo a fome, a desolação, a desesperança e a morte de indivíduos, comunidades e populações inteiras, mas também uma afirmação do caráter feminino que busca a autonomia e a autodeterminação diante de um mundo que desrespeita ou impede esse percurso.
A afirmação “de si” – repita-se aqui: de um “si”, a um tempo, universal e feminino – é encontrada nas páginas do romance de Rachel de Queiroz, quando, em cena de diálogo entre avó e neta, Conceição é questionada, uma vez mais, por Dona Inácia sobre sua inclinação intelectual: “Esses livros prestam para moça ler, Conceição? No meu tempo, moça só lia romance que o padre mandava…”. Conceição ri: “Isso não é romance […]. É um livro sério, de estudo…”. Dona Inácia continua: “De que trata?”. O diálogo segue, com a consolidação de uma vocação nascente (dentro do romance, de Conceição; fora dele, de Rachel de Queiroz):
— Trata da questão feminina, da situação da mulher na sociedade, dos direitos maternais, do problema…
Dona Inácia juntou as mãos, aflita:
— E minha filha, para que uma moça precisa saber disso? Você quererá ser doutora, dar para escrever livros?
Novamente o riso da moça soou:
— Qual o quê, Mãe Nácia! Leio para aprender, para me documentar…
— E só para isso, você vive queimando os olhos, emagrecendo… Lendo essas tolices…
— Mãe Nácia, quando a gente renuncia a certas obrigações, casa filhos, família, tem que arranjar outras coisas com que se preocupe… Senão a vida fica vazia demais…
— E para que você torceu sua natureza? Por que nunca se casa? […]
— Nunca ache quem valesse a pena… […]
Conceição reabriu o livro — pô-lo sobre os joelhos. (QUEIROZ, 2018, p. 132-133).
A escolha de palavras de cada uma é reveladora da antítese que Rachel de Queiroz pretende propor na ficção: de um lado, a vida intelectual é “aflição” (“aflita”), “tolices”, adoecimento (“emagrecendo”, “queimando os olhos”), perda de tempo e aquisição de conhecimento inútil (“para que uma moça precisa saber disso?”); de outro, há a “questão feminina”, o conhecimento especulativo e teórico (“para aprender”) e o sentido ou o encontro de um propósito (“Senão a vida fica vazia demais…”).
O diálogo se encerra. Após ele, Rachel de Queiroz insere, no romance, novo pensamento de Conceição, dessa vez, não vocalizado nem dirigido a Mãe Nácia, mas guardado consigo, como que para pronunciar para si a profissão de certo “credo intelectual”:
“A gente [isto é, as pessoas] precisa criar seu ambiente, para evitar o excessivo desamparo… Suas ideias, suas reformas, seu apostolado… Embora nunca os realize… nem sequer os tente… mas ao menos os projete, e mentalmente os edifique…”. (QUEIROZ, 2018, p. 133).
REFERÊNCIAS
BOEHM, Camila. Editoras independentes transformam mercado e aproximam público. Agência Brasil, Brasília, 11 jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-01/editoras-independentes-transformam-mercado-e-aproximam-publico. Acesso em: 24 fev. 2026.
DE PLEIJT, Alexandra; VAN ZANDEN, Jan Luiten. Women in European academia before 1800 — religion, marriage, and human capital. European Review of Economic History, [s. l.], v. 27, n. 4, p. 506–532, nov. 2023. DOI: https://doi.org/10.1093/ereh/heac023. Disponível em: academic.oup.com. Acesso em: 24 fev. 2026.
MUTA, Juliana. Mulheres buscam maior representatividade na literatura. Folha de Pernambuco, 11 fev. 2022. Disponível em: https://www.folhape.com.br/cultura/mulheres-buscam-maior-representatividade-na-literatura/216267/. Acesso em: 24 fev. 2026.
O Quinze. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/116520-o-quinze>. Acesso em: 18 de fevereiro de 2026. Verbete da Enciclopédia.
QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 1ª ed. Rio de Janeiro: Cameron, 2018.
ROSSI, Marina. Quando a seca criou os ‘campos de concentração’ no sertão do Ceará. El País, 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/08/politica/1546980554_464677.html. Acesso em: 24 fev. 2026.
SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A vida intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos. Tradução de Roberto Malê. São Paulo: Kirion, 2019.
Notas
1 Em pesquisa com recorte temporal entre 2005 e 2014, que selecionou como amostra livros publicados por grandes editoras, a disparidade é relevante: entre os gêneros literários (p. ex., romance), a cada dez livros comercializados, três são publicados por mulheres. In: Mulheres buscam maior representatividade na literatura.Disponível em: <https://www.folhape.com.br/cultura/mulheres-buscam-maior-representatividade-na-literatura/216267/>.
2 Editoras independentes transformam mercado e aproximam público. Disponível em <https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-01/editoras-independentes-transformam-mercado-e-aproximam-publico>.
3 Quando a seca criou os ‘campos de concentração’ no sertão do Ceará. Diponível em <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/08/politica/1546980554_464677.html>.
4 O Quinze. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/116520-o-quinze>.
5 Women in European academia before 1800—religion, marriage, and human capital. Disponível em <https://academic.oup.com/ereh/article/27/4/506/7017742>.

Lucas Novaes é correspondente literário do Sudoeste Baiano. Professor de Língua Portuguesa formado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Tem contos e crônicas publicados em coletâneas. Seu primeiro livro, “O hoje não existe: crônicas sobre o ontem e o amanhã” (2024), foi publicado pela Caravana Grupo Editorial. Em 2025, a mesma editora publicou seu primeiro romance, “O diálogo dos sussurros“.

