Tudo certo, nada combinado. Nem eu te ligo, nem você me telefona. Quem chegar primeiro vai embora

Crônica de Tiago D. Oliveira originalmente publicado na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026

As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade

ÀS VEZES, uma frase pode guardar meses de terapia. A cada ano que se soma, notícias no jornal, reencontro com conhecidos, não tenho tido muita vontade de vibrar com a novidade do mundo. Será que sou eu sozinho enfrentando esse movimento crescente de cada vez mais abstrair e me afastar? A alegria do verão da Bahia, por vezes, é pesada.

Desde ontem venho tentando escrever sobre o corriqueiro, mantendo o brejeiro de ser e não ser. Mas o que me invade tem nome do que viveu, aparece quando a ponta da caneta lembra de tudo que é seu. Ontem foi o décimo primeiro do primeiro mês, dia em que se renova mais um ciclo para mim. Dediquei-o inteiro a criar memórias com a família e sorrir sem medir. Depois, sentei-me diante de alguns pensamentos, como faço agora, mas o texto não saiu. E passei algum tempo lembrando dos versos de Drummond em “Poesia”:

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto, ele está cá dentro,
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

O que inunda a vida inteira surge de repente e, quando menos espero, ganha o desconhecido. Como agora, quando olho para painho subindo a escada para tirar as luzes de Natal penduradas pelo quintal, vejo um filme passar diante de mim. Quando foi mesmo que o tempo chegou e eu não vi? Seus passos lentos e esse olhar para o vento. Talvez fosse apenas uma metáfora, mas não estamos tão somente no campo das palavras. Há um segredo que começa a se desvendar diante da vida quando volto a pensar em como nos parecemos com os nossos a cada veia suspensa na batata da perna ou na mania mais nova, que na verdade é tão familiar quanto terna. A finitude é logo ali. Tudo tão manso das coisas que ficam e desenham, no ventre de nossa memória, o que talvez não possa ser escrito.

Meu pai insiste em fazer todo o trabalho sozinho. Guardar as luzes para o ano seguinte é, para ele, um ritual. E entre um degrau e outro, veio-me Elzinho inundando tudo.

A Sereia do Dique

Suas águas já não são as mesmas. Há a dureza do asfalto por onde correm gotas e lágrimas. Chuva que lava e leva. Tal como um filho que, no desassossego, retorna para o colo da mãe, suas águas são como o sangue a cobrar aos seus. Tantos em trapos sensíveis, insensíveis; carne que se perfuma, mas logo volta a exalar carne. Somos pobres, somos ricos e ainda se consegue, em raros momentos, ver o brilho de sua cauda.

Ladainha de Loló

Dizem que a Sereia do Dique não mais encontra essência na terra que lhe toque o coração. Isso fez com que perdesse o interesse pelo ar. Ela, que um dia fora como nós, cansou da imagem do sangue derramado e se exilou no fundo do Dique do Tororó. Sua pureza era única em toda a cidade. As entidades espirituais a encontraram, deram-lhe vida sob as águas: o canto e a beleza conhecida de rainha.

Elzinho

Jorge Silva Souza era como sua mãe o chamava, mas já havia tanto tempo que ele não ouvia mais a sua voz. “Cruel” era como o chamavam agora. Magro, de dentes alvos, Cruel ainda tinha o jeitinho do menino que um dia fora. Manoel, o padeiro, toda manhã lhe dava uma média de leite com pão e brincava: “Cruelzinho”. Pelo tamanho infantil, Maria da esquina passou a chamá-lo de Elzinho, pois um menino tão bom não merecia um nome tão cruel.

As semanas trocavam de lugar. A vida nas ruas era para quem tinha imaginação: gerir as dores e as necessidades, quase todas humanas. Talvez Elzinho se sentisse como um personagem. Aqueles que lhe lançavam olhares fictícios se portavam com uma maldade real. Elzinho, que andava nas ruas sob a pele de Cruel, não se orgulhava, mas o medo e o desespero moviam o umbral que havia dentro da noite.

Piedade

Na praça da Piedade, no final da missa, pedia perdão enquanto olhava os carros passarem. Antes da Ave-Maria, estava de volta: varria as calçadas, recolhia o lixo, dava recados, lavava carros. O suor encontrava Elzinho e, no final da noite, o menino comia, bebia e dormia na relva, contando estrelas.

A chuva caiu

Quando a noite chegou, continuava. Nestas horas, cada um procura o abrigo do seu teto para esquecer-se do mundo. Eram dias que antecedem o Carnaval. O lixo solto era levado pela correnteza. Elzinho fizera um casebre sobre a árvore, mas abrigou-se sob a marquise da padaria. Sentia frio e fome ao perceber as luzes do giroflex se aproximarem, intermitentes.

A manhã seguinte

Surgiu como num filme a exibir imagens intocáveis: o Dique estava lindo. Seu Manuel cantando antigas marchinhas. Pessoas coloridas, animadas com aquele movimento na padaria, homens e mulheres de vários lugares do mundo. Na esquina, Maria não estava; viajara para brincar o Carnaval do Rio. Nesta época, a cidade é regida pelos confetes. A vida gira em torno dos pequenos papéis coloridos. As senhoras, das janelas, colocam-se concentradas em suas máquinas, costurando os abadás customizados. Os bares, vestidos de cartazes de cervejas, estão sempre lotados. Os ônibus ganham novas direções devido à confusão no trânsito. Toda dor é esquecida, toda fome é suprimida, todo morador é turista, ou seria todo turista um morador?

Dia de fevereiro

Um corpo boiando nas águas. A multidão se acumulou, tentando ver melhor o cadáver. Por alguns instantes, a festa se deu ali. Enquanto as autoridades responsáveis não chegavam para dar um fim ao espetáculo, ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. Crianças corriam, outros dançavam. O sentido da vida era elástico. Quando o socorro chegou, o povo, envolto em uma atmosfera de carpe diem, dificultou a passagem.

Minutos depois, quando os confetes cessaram, o foco voltou a ser o corpo que boiava nas águas do Dique. As dezenas de olhares não conseguiram mais encontrá-lo. O corpo havia sumido. Com o silêncio que se estabeleceu, ouvia-se apenas um canto distante que se misturava ao som do vento: beleza e poesia.

Quarta-feira de Cinzas

Elzinho nunca mais foi visto. Lembro dele cantando as músicas que já não tocam mais, feliz, depois de ganhar algumas moedas. Fecho os olhos e vejo tudo escurecer.

Tiago D. Oliveira é correspondente literário Metropolitano de Salvador. Poeta, escritor, professor e pesquisador, formado em Letras pela UFBA e UNL (Portugal). Finalista do Prêmio Oceanos 2020 com As solas dos pés de meu avô e vencedor do Selo João Ubaldo Ribeiro com Soprando o vento. Autor de Caramelo quer ver o mar (2024).


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