Ensaio de Sandra Esteves2 originalmente publicado na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026
“[…] eu remo
em direção ao sonho
à palavra antiga […]”
Trudruá Dorrico, 2023
ECER APROXIMAÇÕES CONCEITUAIS entre o campo da Psicanálise e as literaturas indígenas brasileiras produzidas na contemporaneidade aportou-se como um desafio no início das minhas pesquisas teóricas sobre o sujeito-autor indígena e sua escrita literária. Diante disso, busquei procurar na Universidade Estadual de Santa Cruz onde estou realizando o Mestrado em Linguagens e Representações um grupo de estudos o qual pudesse conhecer mais profundamente as teorias psicanalíticas com o intuito de articulá-la com os textos literários indígenas que já lia há alguns anos.
Nesse percurso acadêmico, no início de julho de 2025, encontrei o Atelier de Leitura coordenado pela professora Ivone Maia de Mello, projeto que é vinculado ao Grupo de Estudos em Psicanálise de Orientação Lacaniana. A partir de então, contatei o grupo e demonstrei meu interesse em participar das reuniões, as quais foram realizadas entre agosto e novembro de 2025. Durante esse período estudamos diversos textos dos precursores da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981), artigos científicos e o famoso conto “A carta roubada” do escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849).
Por conseguinte, escrevo este ensaio cujo objetivo se baliza em entrelaçar um diálogo entre os textos escritos pelos escritores indígenas e os conceitos teóricos psicanalíticos, visto que poucos são os estudos que interseccionam ambas as áreas do saber3. O termo Literatura Indígena Contemporânea Brasileira, é assim definido pois conforme Dorrico (2022, p. 116) “Literatura Indígena Contemporânea” é uma tentativa de nos conectarmos com o movimento continental, em Abya Yala (América). As produções autorais indígenas brasileiras começaram a ser publicadas de forma mais consistente a partir da década de 1990, fortalecendo também o Movimento Indígena Brasileiro.
Para subsidiar o presente ensaio, selecionei três textos poéticos de três escritoras indígenas brasileiras — Trudruá Dorrico, Ellen Lima e Yacunã Tuxá, todas vinculadas a grupos étnicos diferentes. A escolha pelos textos assinados pelas mulheres indígenas justifica-se por empreender o mesmo que fez Freud em seus trabalhos, escutar as mulheres e suas angústias, todavia, interessa-me também compreender com o que sonham as mulheres indígenas? Quais são os seus desejos? Por que o exercício da palavra é importante para elas?
O desencantamento com o mundo moderno mobiliza que as mulheres indígenas escrevam e falem sobre seus sonhos, traumas e desejos por meio da poesia e da prosa, não só em português, mas também em suas línguas, que sobreviveram e hoje continuam se reinventando em narrativas orais e escritas. Ao impor a lógica eurocêntrica, o Ocidente tentou silenciar e apagar os povos indígenas do mapa global, contudo, os pretensos desejos da narcisista sociedade moderna são hoje desvelados no seio das literaturas indígenas.
Sabe-se que na Psicanálise, Freud teorizou a palavra-conceito de unheimliche que se trata de outra distinção de alteridade; “infamiliar, estranho, inquietante, incômodo –, que diz respeito à alteridade interior, tomado na fantasia, no discurso, na angústia, no duplo, no real” (Iubel; Lopes, 2024, p. 3), a partir dessa conceituação teórica, torna-se possível compreender os efeitos de estranhamento no qual determinados grupos da sociedade brasileira ainda persistem em afirmar que desconhecem as literaturas indígenas, inclusive reduzindo-as a “lendas/mitos”, contudo, é uma literatura que ultrapassa tais reduções, trata-se de uma literatura pujantemente familiar e ao mesmo tempo inquietante.
Com vistas em diminuir essa distância entre os indivíduos e as poesias indígenas brasileiras contemporâneas, esses poemas convidam outras alteridades para refletir outros modos de ser e estar no mundo. Desse modo, ao mobilizar suas memórias coletivas e individuais, ainda que submetidas à uma ferida colonial que não cicatriza, retorno a primeira pergunta que levantei anteriormente, de quais maneiras as escritoras indígenas elaboram seus traumas e angústias em suas poesias?
No poema citado na epígrafe desse ensaio, sob o título “Pemonkon”4 a escritora e intelectual macuxi5, Trudruá Dorrico (2023, p. 81) elabora sua ontologia em continuidade com as águas, remando “em direção ao sonho, em busca da palavra antiga” e, especificamente nesse verso, que podemos compreender as possibilidades de uma escrita de um Eu que se realiza não só de curar-se através da palavra, seja escrevendo, remando, mas também sempre em rumo à um sonho, que hoje, para as escritoras indígenas brasileiras, poder sonhar também se traduz em nunca deixar de poder escrever sobre si e seu povo.
Seguindo a confluência do pensamento indígena, é possível também conceber que o significado de “palavra antiga” para o escritor e educador tapuia6, Kaka Werá (2024), trata-se de “um pulsar ancestral que ecoa pelos tempos, um sussurro antigo que nos chama de volta às raízes da existência” (Werá, 2024, p. 13). E, assim, tecendo essa palavra antiga a qual poeticamente escreve Dorrico (2023), entendo que Psicanálise e Literatura aqui se encontram de algum modo, convocando-nos a olhar para dentro, silenciar e retornar sendo melhores indivíduos para conosco e para com o outro.
O segundo poema foi escrito pela escritora e pesquisadora Ellen Lima (2021, p. 25), pertencente ao povo Wassu Cocal7, o título do poema é “Yby”, significa Terra em Tupi. Seguem os versos: Vem a máquina e esmaga / Impõe aos sonhos verdes, o cimento / assassinam frutos com as mãos. Os versos escritos por Ellen captam o “fantasma” que assombra os povos indígenas e outras camadas populacionais brasileiras; a máquina capitalista destruiu e ainda destrói o mundo indígena. Ou seja, o capitalismo constrói, produz e reproduz toda sorte de estrutura nociva que segrega, exclui e empobrece os sujeitos indígenas. Nesse sentido, mais uma vez, a poesia indígena e a psicanálise se coadunam, o discurso capitalista instaura, de fato, o mal-estar nas culturas e na modernidade (Borges, 2015, p. 401).
Os “sonhos verdes” evocam a filosofia do bem-viver, uma filosofia milenar dos povos originários. Novamente, o escritor Kaká Werá (2024) salienta “é muito diferente do viver bem, que para algumas pessoas pressupõe a falsa ilimitada vida consumista e consumidora de si e para outras pessoas, um certo verniz social em que aparência vale mais que a essência (Werá, 2024, p. 21). O bem-viver é um convite para que repensemos nossa conexão com o mundo que habitamos, inclusive com os não-humanos, as árvores, as matas, os rios, os animais, os mares, as pedras, os seres da floresta etc.
O último poema que iremos refletir foi escrito pela escritora do povo Tuxá de Rodelas8, Yacunã Tuxá (2025). Sob o título “A Matéria” seguem os trechos de alguns dos versos, Estou entregue / Me abri na manhã / meu corpo agora é receptáculo das magias do rio. A escrita desejante e carnal de Yacunã deixa escapar a indianidade dos corpos indígenas, principalmente das mulheres. Nos versos de Yacunã, reconhecemos as relações de alteridade com as quais os corpos indígenas fraternamente se envolvem, além dos sujeitos humanos, ou seja, os sujeitos-rios e suas magias, territórios envoltos de mistérios, a casa dos seres encantados. Estabelecer outros modos de se relacionar com os não-humanos também é uma forma de “mitigar os atos de intolerância em que projetamos no outro o que não admitimos em nós” (Castro, 2019, p.92).
Notamos até aqui, que as aproximações entre os conceitos psicanalíticos e a poesia indígena são possíveis de se estabelecer, desde que o estudo seja cuidadoso e sensível. Literatura e Psicanálise implicam-se em um ponto em comum, o exercício da palavra, isto é, a cura através da palavra. Desse modo, a escrita poética, para as mulheres indígenas é um espaço de cura, pertencimento e expressão de sentimentos. Espero, portanto, que este ensaio ofereça não apenas aos psicanalistas um convite para que leiam as escritoras indígenas, mas, também para estimular um cuidado de si e do outro também por meio dessa poesia tão encantada e fundamentalmente espiritual.
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Notas
1 Ensaio crítico elaborado a partir dos estudos teóricos do Grupo de Pesquisa em Psicanálise de Orientação Lacaniana coordenado pela profa Dra Ivone Maia de Mello.
2 Mestranda em Letras: Linguagens e Representações. E-mail: sandraesteves.prof@revistaflsr
3 Não será realizado análise psicanalítica dos textos, o intuito aqui trata-se de mobilizar modos de aproximação entre os conceitos da Psicanálise e a Literatura Indígena Brasileira Contemporânea.
4 Na língua makuxi se diz pemonkon, cuja tradução é genteverdadeira.
5 Os Macuxi, povo de filiação linguística Karíb, habitam a região das Guianas, entre as cabeceiras dos rios Branco e Rupununi, território atualmente partilhado entre o Brasil e a Guiana.
6 Povos pertencentes a diferentes etnias e que falavam línguas distintas, mas, pelo fato de habitarem região de cerrado e das montanhas, foram chamados de Tapuias (Werá, 2024).
7 De acordo Santos (2025) o povo Wassu Cocal é um grupo indígena (ramo Kariri) que habita a Terra Indígena Wassu-Cocal, no município de Joaquim Gomes, região da Mata Alagoana, terras que foram homologadas em 2007.
8 O povo Tuxá vive principalmente na cidade de Rodelas, em uma aldeia urbana de mais de 60 casas. Além da aldeia na cidade, os Tuxá ocupavam diversas ilhas e em especial a Ilha da Viúva, no Rio São Francisco, que constituia seu exíguo território agrícola. A Ilha da Viúva foi submersa pela construção da hidrelétrica de Itaparica.
Referências:
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CASTRO, L. Por uma psicanálise da alteridade em um Brasil de intolerâncias. Reverie: Revista de Psicanálise, v. 1, p. 81-95, 2019.
DORRICO, Trudruá. Tempo de retomada. Cotia: Urutau, 2023.
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INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Tuxá. 2021. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tuxá. Acesso em: 04 dez. 2025.
IUBEL, Aline Fonseca; LOPES, Pedro Magalhães. O olho e/é o outro: Algumas aproximações entre pensamentos indígenas e psicanálise. Contemporânea-Revista de Sociologia da UFSCar, v. 14, 2024.
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SANTOS, Cristina Mielczarski dos. Resenha de” Ixé Ygara voltando pra’Y’kuá: sou canoa voltando pra enseada do rio”, de autoria de Ellen Lima. Organon. Porto Alegre, RS, 2025.
TUXÁ, Yacunã. Da tua boca saem as palavras sementes. Cotia: Urutau, 2025.
WERÁ, Kaká. Tekoá: uma arte milenar indígena para o bem-viver. Best Seller, 2024.

Sandra Esteves é correspondente literária do Litoral Sul. Baiana, poeta, escritora, professora, revisora textual e crítica literária. Mestranda em Letras (PPGL/UESC); pós-graduanda em Linguística Aplicada (IHAC/UFSB); Licenciada em Letras-Português (UESB); Realiza pesquisas sobre as autorias indígenas brasileiras contemporâneas, filosofias e culturas dos povos originários. Atua no movimento Mulherio das Letras Indígenas (MLI). Organizadora da antologia poética “Entre páginas e sonhos”, publicada pela editora baiana, Usina de Textos.

