Ensaio de Pablo Rios originalmente publicado na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026
QUANDO ESTAVA NO ENSINO MÉDIO aprendi sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, um movimento vanguardista liderado pelo conhecido “Grupo dos Cinco”: Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia, Oswald Andrade e o titã Mário de Andrade. Este evento causou choques anafiláticos nos brios da alta sociedade conservadora e na elite artística de então. Controvérsias, rupturas e quebra de tabus, a Semana de Arte Moderna ecoa até os dias atuais através de seu legado e dos legados de seu legado – com o perdão das repetições. Movimentos e grandes personalidades surgem da onda de choque desse evento, tais como a Lira Paulista (teatro), o Tropicalismo e a Bossa Nova (música) e o cinema de Glauber Rocha. Não tenho cuidado algum em afirmar que a Semana de Arte Moderna de 22 é o embrião inspirador de diversos festivais, congressos, festas e qualquer espécie de reunião para fazer e falar de arte no Brasil.
Essa grandeza me deslumbrou e lá nos três últimos anos do Século XX, que coincidiram com o meu Ensino Médio, eu sonhei em realizar um evento parecido em São José do Jacuípe. Mas a efemeridade das coisas da adolescência fez esse sonho meu e de minha irmã desaparecer no tempo.
Até que comecei a ouvir falar em dois eventos e pesquisar sobre eles: FLIP e FLICA, as festas literárias internacionais de Parati – RJ e Cachoeira – BA. Descobri que o meu desejo havia tomado forma e um novo nome e se chama Festa Literária de São José do Jacuípe, a FLIZÉ, sigla que me foi dada de presente por minha mãe e que faz referência ao apelido de todo José: Zé. Essa revelação surge após minha primeira ida à FLICA no ano de 2016 e o sonho se realizou em novembro de 2019, depois em abril de 2024 e julho de 2025. Atualmente estamos nos preparando para realizar a quarta edição da FLIZÉ, em novembro deste ano.
Entre a primeira e a segunda FLIZÉ haviam cerca de 40 festas literárias catalogadas no Estado da Bahia, atualmente são mais de cem, sendo que 81 foram contempladas pelo Edital Bahia Literária em 2024. O Território de Identidade da Bacia do Jacuípe tem se destacado nesse cenário, com a realização de festas de grande abrangência, pequeno porte e internas em Colégios Estaduais. Além das três edições da FLIZÉ, já aconteceram outras vinte e duas no território, com destaque para Capela do Alto Alegre que promoveu seis edições da FLICAP. No ano de 2025, foram raros os fins de semana em que não estivessem ocorrendo alguma festa literária na Bahia. É uma verdadeira explosão de festas e espalhamento da leitura e literatura que tem mostrado duas situações.

A primeira é que há o atendimento a demandas reprimidas e a leitura tem ganhado protagonismo nas políticas públicas e a população tem desfrutado de momentos de lazer, formação, interação e reconhecimento através de um leque de programações culturais que vão para além do livro e leitura, pois festas literárias são eventos multi-linguagem e democráticos – tal como a Semana de Arte Moderna de 1922. É mais cultura, diversão e arte para o povo, além do típico pão e circo.
A segunda situação é que tem surgido olhares mais interessados da parte de gestores e da iniciativa privada para esses eventos, o que não é ruim pois cultura necessita de financiamento e tudo que se investe nela retorna em forma de arrecadação de impostos, empregos diretos e indiretos e visibilidade. Mas outras questões vêm no bojo dessa mobilização e interesses benevolentes.
Festas Literárias são eventos culturais dinâmicos que visam celebrar a literatura e a leitura, rasurando formatos tradicionais de simples feiras de livros ou congressos acadêmicos. O ato historicamente solitário de ler se transforma em uma experiência coletiva e festiva. Os objetivos de uma festa literária têm muitas faces e buscam impactar tanto o indivíduo quanto a comunidade em que é realizada.
Por meio da democratização e acesso ao livro e seus autores, muitas vezes em espaços públicos a população é provocada a despertar o gosto pela leitura de uma forma prazerosa e lúdica, sendo jovens e crianças o público mais beneficiado. A promoção de diálogo entre escritores, leitores, editores, livreiros e aristas de demais áreas resulta em um intercâmbio multicultural, formador transformador, que valoriza a identidade local ao celebrar autores e produções oriundas da cidade e região em que as festas acontece, fortalecendo laços de pertencimento e aquecendo a economia criativa local.
O foco principal de uma festa literária está na mediação entre o livro e o leitor, seja por meio das conversas com seus autores ou da facilitação da aquisição, por meio de preços promocionais ou do subsídio da compra através da distribuição do vale livro. Assim, a festa literária prioriza a experiência e não o comércio. Todas as demais linguagens artísticas e atividades coadjuvam enquanto a leitura deve protagonizar.

Ramificando novamente esta conversa observemos que não há um modelo fixo para a realização de festas literárias e muitas se confundem com feiras ou mostras. A primeira concentra-se no comércio enquanto as discussões e experiências com autores tomam lugar secundário, que é o que acontece com as bienais e feiras do livro em que o foco está nos livreiros, editoras, livrarias etc., com vendas de ingressos e espaços. Já as mostras consistem na divulgação e exposição de resultados de trabalhos artísticos ou acadêmicos.
Afirmo que está tudo bem haver esta diversidade de formatos pois as realidades são distintas; há municípios que as realizam de iniciativa própria do poder público; em outros casos o evento depende de premiações em editais pois são iniciativas de grupos e há também a proporção, existem festas muito pequenas e as grandiosas, que tem grande apelo comercial e abrangências imensuráveis. Mas há provocações que precisam ser feitas, quando o objetivo central é modificado.
Ainda que não exista, nem deva existir uma forma fixa e estanque de realizar festas literárias, o que deve ser dito quando o protagonismo da leitura e do contato leitor-autor é substituído por uma sequência de stands com exposições de maquetes e artesanatos de escolas? E quando essas exposições claramente se revelam produções sem participação de estudantes e são feitas somente por docentes? O que deve ser pensado quando uma festa literária é apenas o nome utilizado para justificar a arrecadação de taxas de expositores que pagarão um alto valor para expor seus livros em uma mesa de plástico, sem o mínimo de apoio logístico e caso queiram ter alguns minutos de fala deverão desembolsar mais um aditivo?
Mesmo que não haja problema algum em uma festa literária ser realizada no aniversário da emancipação política da cidade, é justo que o protagonismo do evento seja tirado da literatura e leitura e dado aos cantores famosos que lotarão as praças somente nas noites? É justo que a maior fatia do orçamento seja destinada a contratação destes artistas enquanto expositores de livros e autores independentes não recebem nenhuma ajuda de custo ou que não haja nenhuma distribuição de vale livro?
E sobre a democratização do livro? Não dá pra ignorar o fato de que os preços de capa sobem nestes eventos como se fossem arapucas para turistas estrangeiros. Menos ainda que algumas festas literárias se tornaram verdadeiros ativos que podem ser vendidos de uma produtora para outra e gerar lucros para seus proprietários, o que não é errado até o momento em que o lucro se torna o maior dos objetivos, sacrificando o acesso ao livro nos acordos com grandes livrarias que levam 40% das vendas de todos os que se submetem a elas.
O que quero dizer com tudo isso é que não há problema no formato se o intercâmbio entre leitor-obra-autor permanecer no centro e a democratização do acesso ao livro for verdadeira. Mas se temos o uso do nome festa literária como mera desculpa para atrair caravanas de estudantes apenas para o consumo de gastronomia e para assistir discussões sem poder adquirir livros. Ou para divulgar o evento que contará com nomes famosos da música lotando à noite as praças que passaram o dia vazias, creio que seja o momento de os artistas da palavra ressignificarem suas participações e de o poder público criar mecanismos que verifiquem o que de fato é ou não é festa literária.

Pablo Rios é correspondente literário de Bacia do Jacuípe. Escritor e professor. Ativista e agitador cultural. Graduado em Letras e Filosofia, Mestre em Educação e Diversidade. Natural de Jacobina, mas desde sempre reside em São José do Jacuípe.

