Ensaio de Marília Martins, originalmente publicado na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026, com o subtítulo: Entre movimentos de mulheres e festas literárias
NOS ÚLTIMOS ANOS a marcante presença feminina na esfera da escrita literária tem se destacado no Território Identidade Costa do Descobrimento. Ressalta-se que o mundo literário, em especial das Academias de Letras na Terra Brasilis, tem sido predominantemente ocupado pela presença masculina branca, ao longo de anos, o que não se difere no interior do país. Porém, recentemente, o impacto da eleição e empossamento da escritora mineira Ana Maria Gonçalves em novembro de 2025, como a mais nova “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando o lugar de um homem na cadeira nº 33, trouxe ainda maior inspiração às mulheres e meninas brasileiras que escrevem. Ela se tornou a primeira mulher negra a integrar a instituição, sendo a 13ª mulher eleita na história da ABL.
E nesta inspiração, pensando na sábia frase da escritora, filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, que diz “Eu não aceito as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que eu não posso aceitar.”, as mulheres da Costa do Descobrimento tem se movimentado no sentido de imprimir mudanças no cenário literário local, e mesmo valorizando as Academias de Letras locais, não se mantêm atadas às formalidades tradicionais para desenvolverem suas escritas. Mulheres diversas, seja na raça, geração ou pertença, tem protagonizado a linha de frente das escritas em diferentes perspectivas.

Neste cenário, destaca-se no Território Identidade o movimento social e coletivo de mulheres Sociedade de Escritoras da Costa do Descobrimento (SECD)1, que hoje conta com aproximadamente trezentas mulheres inscritas nas mais diversas modalidades de escrita, englobando a escrita literária, poética, científica, composição musical, escrita jornalística, dentre outras, que se organizam tanto em comissões, como em grupos gestores nos oito municípios do território: Eunápolis, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Guaratinga, Belmonte, Itabela, Itagimirim, Itapebi. A cidade de Teixeira de Freitas também integra o circuito de escritoras da SECD, dentre outras localidades que tocam o extremo-sul baiano. A SECD possui também publicações que alcançam autoras de diferentes estados brasileiros.
O referido movimento de escrita de mulheres, que envolve mulheres diversas, remete a outras reflexões de Angela Davis em territórios baianos, em julho de 2017, durante o encontro internacional sobre feminismo negro e decolonial em Cachoeira, Bahia, a autora e militante afirmou que “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”3 , reforçando a afirmação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), durante o evento “Julho das Pretas”. Angela destacou a antropóloga e ativista baiana Lélia Gonzalez, apontando que o movimento das mulheres negras é a força mais importante no Brasil na busca por liberdade, em que os elos entre negros e indígenas pela luta por direitos são relevantes nas conquistas interseccionais, o que, segundo a autora, remete à reflexão sobre as crianças e o futuro.
Pensando nesta perspectiva de fortalecer novas gerações de mulheres que escrevem ou desejam se tornar escritoras, a Sociedade de Escritoras da Costa do Descobrimento lançou sua primeira Antologia infanto-juvenil, denominada “Meninas que escrevem – Brincando com as palavras na tecitura do viver”, que inclui meninas de diversas etnias, pela Editora Mondrongo (2024). De distribuição gratuita e disponível em PDF no “Acervo digital Memórias do Sul da Bahia” 4, a obra foi financiada por Edital Interno da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e consta de poemas, textos e crônicas desenvolvidas por meninas de onze a dezoito anos do Território. O protagonismo das meninas mostrou-se fortalecedor de suas identidades, durante o lançamento do livro na biblioteca da UNEB, em Eunápolis, impulsionando a escrita de outras meninas da região.
Fortalecendo este sentido, em outubro de 2025 foram realizadas duas Feiras Literárias no território, ambas protagonizadas por mulheres escritoras que integram a SECD. Em Arraial D’Ajuda, ocorreu a primeira Feira Literária Infantojuvenil – FLIJU5, coordenada pela escritora Tatiana Brasileiro e parcerias, com o tema “Mais livros, menos telas”. O evento também financiado pela Lei Aldir Blanc, foi gratuito e aberto ao público, dedicado à valorização da leitura e da imaginação de crianças e jovens. Contou com lançamento de livros de autoras locais, contação de histórias, rodas de leitura, oficina de ilustração, oficina de escrita e atividades culturais que estimularam a criatividade, a importância de ler e o gosto pelos livros, em contraponto aos tempos de excesso de estímulos visuais e imediatismo, aproximando a comunidade do universo literário, promovendo cultura e ao aprendizado.

E sob a coordenação da escritora e professora indígena Fernanda Gonçalves e parceria, aconteceu em Trancoso a primeira Feira Literária de Trancoso (FLIT)6, também financiada pela Lei Aldir Blanc, firmando-se como um espaço de escuta, celebração e resistência, na qual refletiu-se sobre os caminhos e perspectivas da literatura afropindorâmica, que entrelaça saberes ancestrais, memórias coletivas e vozes potentes da diáspora africana em solo brasileiro. O evento reconheceu ser tempo de valorizar e de amplificar narrativas negras e indígenas que (re)constroem a identidade do distrito e país através da arte da literatura, sendo permeado por apresentações das Escolas públicas e privadas do distrito de Trancoso, do Teatro Trancoso, mesa redonda com pesquisadores e nativos, lançamento de livros, contação de histórias, entre outros.
Pelo visto, o destaque do protagonismo literário feminino no Território Identidade Costa do Descobrimento promete trazer e inspirar novidades para os próximos tempos, envolvendo coletivos e outras iniciativas de escritoras incentivadas pelas Leis culturais que tem reforçado a importância da valorização de projetos que promovam a escrita e a leitura na região, que vem enfrentando retrocessos nos últimos anos, a exemplo de alguns municípios, como Eunápolis, que tiveram fechadas suas bibliotecas públicas. Mulheres avante, na geração de vida cultural, na “terra ventre”, dos povos originários do Brasil baiano!
Confira os demais texto da Edição nº 1 em: Download
Notas
1 Instagram: @s.escritorascostadescobrimento
3 Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/27/politica/1501114503_610956.html
4 Fonte: https://memoriasulbahia.com.br/repositorio-digital-memorias-do-sul-da-bahia/?perpage=12&view_mode=records&paged=1&order=DESC&orderby=date&fetch_only=thumbnail&fetch_only_meta=41634%2C72754%2C28523%2C28621&metaquery%5B0%5D%5Bkey%5D=28523&metaquery%5B0%5D%5Bvalue%5D=Meninas%20que%20escrevem
5 Fonte: https://www.instagram.com/p/DN80rO1kWvi/
6 Fonte: https://www.instagram.com/flit.trancoso/

Marilia Martins de Araújo Reis é psicóloga, professora e pesquisadora. Doutora e mestra em Estado e Sociedade (UFSB), atua na UFBA. Pós-graduada em Cultura (UNEB) e Saúde Coletiva (UFSB), vê na escrita um caminho de protagonismo social e saúde mental, articulando ensino, pesquisa e coletivos.

