Resenha feita por Lucas Novaes, originalmente publicada na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026
É DIFÍCIL ESCREVER POESIA. Não me refiro à escolha pelo metro ou à construção dos pés, à habilidade em escandir, versificar ou rimar nem à preferência por sonetos, odes ou elegias, mas ao entendimento de que poesia não se cria sem a compreensão primeira de acordo com a qual há um universo em que estamos inseridos que precisa ser reinventado e há uma linguagem, utilizada por todos nós diariamente, que precisa ser distorcida, quebrada, violada, para, então, ser igualmente reinventada – o resultado é e não é a nossa língua.
Isso é, em parte, verdade, dada a transformação que, no Brasil, sofreu a poesia desde a Revolução Romântica e, mais ainda, após o Modernismo. Essa transformação ditou a variação estética e modificou para sempre a compreensão sobre a produção poética, porque passou a ser incorporada a noção de que poesia é verso branco ou livre; é (também) prosaísmo e originalidade; é simplicidade e informalidade etc.

É a partir desses traços que incide o nosso breve comentário, ao modo de resenha, sobre Café das três (2025, Editora Libertinagem, p. 98), de Ybeane Moreira, embora seja igualmente difícil escrever sobre poesia, afinal é difícil resumir as intenções – ou pretensões poéticas – à adequação à forma, dadas as possibilidades, como já ficou dito, que a poesia moderna e contemporânea (séculos XX e XXI) deu com relação, por exemplo, às escolhas formais de elaboração dos poemas.
Por essa razão a resposta a essas questões se encontre, talvez, na própria produção contida em Café das três: a criação poética também pode ser simples a fim de afirmar o que reside, precisamente, na simplicidade da vida. A “pedra” que Drummond, por exemplo, encontra no caminho é a “pedra” cotidiana do “acordar”, do “levantar-se”, do “escovar os dentes”, do “ir ao mundo” etc. A repetição do poema de Drummond – “No meio do caminho tinha uma pedra” – faz-nos perceber (ou acatar) a(s) “chatice(s)” da vida, inclusive o incômodo que provoca o próprio verso, sem levar em conta que o poeta afirma sobre essa previsibilidade: “Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Essa percepção é similar à antítese contida na epígrafe de Café das três: “Às vezes […] percebo / Que Primeira vez pode ser a última vez” (p. 13). – o que é banal pode assumir contornos daquilo que, como é sugerido, continuará a residir ou a persistir na memória. Como anunciado, essa obra “caldosa” (p. 11) é construída a partir de “palavras suaves e firmes” que forma “frases, como um doce amargo” (p. 11).
Afinal, como em Passarinho urbano (p. 35), os poetas cantam “sobre o caos da vida”, porque têm voz que “mistura-se ao buzinaço” – uma vez mais, há o reconhecimento de que a beleza “reside em todo instante”. O tema é repetido em A beleza é sutil (p. 15), introduzido por belo verso:
Estamos morrendo desde que chegamos […]
Sem parar para ver
A beleza sutil a nos envolver […]
Mesmo enquanto estamos morrendo
Há tanto para viver
Há, se soubéssemos

Estão presentes, igualmente, os temas e os argumentos que afirmam e reafirmam uma subjetividade tanto universal quanto feminina frente às contingências e às vicissitudes da vida, como em Sem máscaras (“Na vastidão do ser, sou o meu próprio céu”, p. 15); Memórias (“A menina que fui ainda vive em mim / Guardando na alma cada riso, cada fim”, p. 50); Rio (“O rio da vida tem que correr, e ele feminino”, p. 53); Dia de folga (“Em um dia de folga, a mulher se despiu […] / Das obrigações do mundo”, p. 58); Filha do tempo (“Barulho e silêncio dançam em meu ser […] / Sou o som da cidade, o murmúrio do vento […] / Em mil faces me vejo, sou riso e tristeza”, p. 59); Em todas as mulheres (“Em todas as mulheres, quando se vão / Elas levam consigo um pouco de chão”, p. 64); ou mesmo nos títulos Coragem de pertencer a si mesmo (p. 62) e Eu moro em mim (p. 78), nos quais há uma consciência da condição inescapável de todo ser humano: o encontro com o próprio eu; o encontro consigo mesmo – “Não posso transferir […] / O meu sentir” (Sentir, p. 87).
O tempo – e sua passagem? – é preocupação semelhante, especialmente em uma obra que parece, em verdade, um compromisso com hora marcada – “as três”. Na sociedade do “tempo é dinheiro”, a confissão de Tempo de ócio (p. 63) soa como uma heresia:
Queria escrever sobre os dias livres,
Sobre o ócio […]
Mas o tempo, esse ladrão de sorrisos,
Escraviza em correntes, tão insistente.
[…]
Ah, como é doce o sabor do tempo solto.
Há, ainda, a afirmação do tempo enquanto promessa, que lembra aquelas resoluções de fim de ano: “Guardo os sonhos do ano / Para que eles não se percam / E se realizem em breve” (Desejos, p. 90). O melhor de Café das três, no entanto, está no lirismo das belas imagens evocadas pelos poemas e da concisão do verso fluido e solto, como em Relógio, reproduzido aqui integralmente:
Sem saber,
A hora.
Na correria,
sem pausa.
O relógio gira,
Sem rumo.
A vida passa,
Sem encontro.
O tempo voa, sem abraço.
E eu, com tempo,
Vivendo,
Sem tempo.
“[…] tudo tem seu fim” (Dias sim, dias não, p. 75), inclusive uma resenha. Para encerrar o texto que que ora se apresenta, uma nota pessoal. Este, que resenha, é pai; aquela, cuja obra é resenhada – e, aliás, é “feita de sentidos” (Ver, p. 73) –, é mãe. Em Madrugada (p. 56), há prosaísmo que lembra Adélia Prado e que recorda, como em letra de Zeca Veloso, que “todo homem precisa de uma mãe”:
[…] Na cozinha, o cheiro de arroz cozido,
Tem tempo de ser mãe,
Mesmo sem horas,
Entre panelas e sonhos que vão se perdendo,
No olhar cansado,
Esperança aflora,
No peito, o amor desmedido
Com a luz da lua amarga como única amiga,
Cada lágrima é um grito de afeto,
Enquanto o filho no berço se abriga,
A mãe se transforma em um forte secreto.
Confira os demais texto da Edição nº 1 em: Download
Bibliografia
MOREIRA, Ybeane Campos. Café das três. São Paulo, Libertinagem, 2025.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 36.
VELOSO, Zeca. Todo homem. In: Ofertório. Intérpretes: Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso. Rio de Janeiro: Uns Produções e Filmes, 2018. 1 faixa digital. Disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/7txd9YF5xnGCLOOXx894EZ. Acesso em: 3 fev. 2026.

Lucas Novaes é correspondente literário do Sudoeste Baiano. Professor de Língua Portuguesa formado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Tem contos e crônicas publicados em coletâneas. Seu primeiro livro, “O hoje não existe: crônicas sobre o ontem e o amanhã” (2024), foi publicado pela Caravana Grupo Editorial. Em 2025, a mesma editora publicou seu primeiro romance, “O diálogo dos sussurros“.

