Entrevista feita por Fernanda Santos, originalmente publicada na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026

VIVIANE DIAS DOS SANTOS, autora do livro “Na curva da boca” (Editora Pedregulho, 2023), é mulher negra, nordestina, nascida em Salvador, em 1995. Atualmente, mora em Feira de Santana, é graduada em Letras Vernáculas e Mestra em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Em sua escrita, vemos a presença de uma reflexão constante sobre a escrita e de como ela se inter-relaciona com sua identidade. Enquanto mulher negra, Viviane Dias traz suas subjetividades e nos provoca a pensar sobre nossas raízes, sobre nossa experiência de estar no mundo sendo pessoas negras. Dessa forma, o tema da ancestralidade é bastante presente em sua poética, o que dialoga com a Literatura Afro-Brasileira, em que observamos por parte de autoras/es, como Conceição Evaristo, a busca por representar essa temática em seus textos.

Quando surgiu seu interesse pela literatura e quais são suas autoras/es favoritas/os?

Acredito que o meu encantamento com a literatura surgiu com a escuta dela. Lembro de dois professores que tive (Marlon e Emília) que produziram essa admiração. As aulas do professor Marlon eram encerradas com a recitação de um poema ou curto texto literário. Aquilo me envolveu no universo de beleza que somente a literatura é capaz de nos dar. Ali nascia minha curiosidade em torno do poder das letras. Dentre as muitas autoras que tenho como favoritas, quero citar as que conheço de mais perto: Fernanda Santos, Maria Dolores Rodriguez e Vitória Maria Matos. Quero muito que a escrita delas alcance logo o mundo, está breve.

Qual foi o primeiro livro de literatura afro-brasileira que você lembra ter lido?

Sei que irei citar Conceição Evaristo em diversos momentos aqui e farei logo (risos). A Conceição Evaristo tem uma importância marcante na literatura afro-brasileira contemporânea e está na minha memória também nessa inauguração. Provavelmente, eu li alguma outra autoria afro-brasileira, mas a minha memória vívida e marcante dela aconteceu com o conto “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”, do livro “Olhos D’água”, da Evaristo.

Como chegou até você livros de autoras(es) negros?

Esse livro em especial foi uma indicação de minha amiga Fernanda Santos quando eu buscava referências para uma possível pesquisa. Posteriormente, o livro “Olhos D’água” foi meu objeto de estudo no mestrado. As demais leituras vieram por conta da minha pesquisa que teve um recorte racial nas referências, o que trouxe para minha leitura uma bibliografia mais afrocentrada.

Quais temáticas mais lhe interessam na literatura?

Tenho me deparado com um interesse em leituras que olham para as angústias cotidianas (e não simples) da vida. O tema da morte também me interessa bastante, principalmente como cada autora escolhe construir a narrativa ou a poética em torno dela. Além delas, de uma maneira ampla, o amor e suas implicações aparecem nos livros que prendem meu interesse na literatura.

Em 2023, você publicou o livro “Na curva da boca” (Editora Pedregulho). Quais são as suas principais inspirações para essa obra?

A memória está como inspiração para a escrita de “Na curva da boca”. Ora como registro, ora inventada, ela figura como o próprio texto, visto que muitos dos poemas ali presentes foram escritos há bastante tempo. “Na curva da boca” reúne um modo meu de ver as coisas em determinado momento da vida, mas também como recurso lúdico e criativo de olhar a escrita enquanto possibilidade de expressão. Além disso, acredito que a experimentação das palavras como criação de um gesto, de uma imagem, também está presente ali.

Qual livro da literatura afro-brasileira teve um papel importante na sua trajetória e por quê?

Como eu disse, a Conceição Evaristo iria aparecer novamente (risos). A obra de Evaristo marca minha trajetória de duas maneiras diferentes, primeiro por seu olhar atento à realidade brasileira e sua escolha por ficcionalizá-la. Ler suas obras me apresentou a possibilidade de narrativas literárias mais parecidas comigo, a possibilidade de identificação com personagens, em um medo, uma maneira de ser. Isso dá ao leitor uma experiência diferente de leitura. Segundo, por sua biografia; são várias as vezes em que ela pontua a importância do desejo de não apenas ler, mas poder narrar. Essa sua afirmação pareceu tão minha quanto poderia ser, e quando estudo, leio, quero falar sobre mulheres negras, também estou fazendo sobre mim.

No seu livro “Na curva da boca” aparece muito a temática da ancestralidade. Na sua opinião, como o resgate à ancestralidade pode ser recurso para enfrentamento do racismo e, consequentemente, para fortalecimento da identidade?

Não só minha escrita como minha arte inteira tem ganhado notas do passado. Um passado ancestral não tão distante, mas extremamente modificador de mim ao estar sendo reconhecido. Reparar em minha avó, em minha mãe; conhecer histórias da minha bisa (que segundo meu pai, pareço com ela) tem transformado o modo como me vejo e como quero me ver. Resgatar a ancestralidade é um modo insubmisso de existir diante daquilo que é pré-determinado para nós pessoas negras. Talvez, o único modo capaz de construir nossa identidade (individual e coletiva) seja por meio do resgate de nós via nossos antepassados, os de mais perto e, com certeza, dos mais distantes na história.

Confira os demais texto da Edição nº 1 em: Download

Fernanda Santos é Correspondente Literária do Portal do Sertão. Mulher negra, professora, graduada em Letras Vernáculas e mestra em Estudos Literários pela UEFS. Poeta, publicou em 2023 o livro Preciso pôr ordem onde não há ordem, no qual tece reflexões sobre corpo, memória e resistência por meio da palavra poética.


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