Entrevista feita por Cristian Sales, originalmente publicada na Edição nº 1 da Revista Foro Literário, em março de 2026
A reedição de Tramela marca um momento decisivo na trajetória de Rita Santana. Publicada originalmente em 2004, a coletânea vencedora do Prêmio Braskem de Cultura e Arte projetou a escritora ilheense no cenário literário baiano ao revelar uma prosa atenta aos riscos da linguagem e marcada pela tensão entre autoafirmação, interioridade, crítica social e subversão. A partir daí, entretanto, sua trajetória se constituiria de títulos inteiramente voltados à poesia: Tratado das veias (2006), Alforrias (2012), Cortesanias (2019) e Borrasca (2024), fato que a tornou conhecida dentro e fora do Brasil fundamentalmente como poeta.
Nesse contexto, esta segunda edição de Tramela — já há muito esgotado e item raro em sebos — reaparece pela Editora Villa Olívia, rigorosamente revista e acrescida de quatro contos inéditos. Vale ressaltar que, além de escritora, Rita é atriz e professora. Na apresentação do volume, a estudiosa Rosana Ribeiro Patrício define as narrativas como “dádivas para leitores ávidos por desvendar escritas e destinos”, ao passo que ressalta como a obra problematiza não apenas experiências individuais, mas também condições históricas ligadas à negritude, autoafirmação e ancestralidade — tudo devidamente mediado por uma linguagem sensorial e visceralmente poética.
Já em entrevista concedida à Revista Foro Literário, a escritora reconhece a inquietante contemporaneidade de suas tramas diante da permanência da violência misógina no Brasil. Nesse sentido, ela identifica uma “impressão digital” que une os contos antigos aos recentes, revelando uma maturidade que aprofunda o gesto inaugural sem rompê-lo. Esse retorno à prosa é, portanto, descrito como uma tarefa de soberania da subjetividade um diálogo profundo entre a poeta e a prosadora: “a criação é o lugar onde posso ser a protagonista da cena”, afirma Rita, encontrando ali liberdade frente às pressões sociais, raciais e de gênero, somando-se de todas as significações políticas.
Além disso, a nova edição reafirma um projeto estético que verticaliza a criação literária em labor estético e intelectual. Dessa forma, mais do que simples inspiração, a obra evidencia o trabalho contínuo da autora — feito de disciplina e reescrita ‘cirúrgica’ — ao reatar fios e testar a resistência da linguagem — efetivada a partir da incorporação desviante da tradição e de sua inerente natureza performativa.
Afinal, como ela mesma sustenta, uma mulher-escritora precisa resguardar-se; para continuar sendo novelo, melhor que seja embaraçado, cheio de nós, senão vira nada, vira pó. Diante disso, “urge o arremesso do desbravamento” e o amansar da aspereza contida nos dicionários frente aos naufrágios cotidianos. Entre a visceralidade dos contos e a poesia que transmuta — sem suavizar — a fúria das palavras, sua escrita feminina sustenta que criar é o arremesso necessário da própria dicção ficcional, tão cheia de sonhos, desejos, frustrações e complexidades.
Com isso, Rita Santana desloca expectativas e reposiciona a prosa baiana contemporânea ao materializar a insurgência de mulheres que se arriscaram nas artes da escrita para afirmar seu pertencimento ao mundo das letras. São autoras tecelãs da vida e acrobatas do tempo que, em busca de autorrealização, improvisam existências conturbadas no confronto com violências de toda ordem, as quais insistem em ferir corpos femininos e negar direitos. Ela integra, assim, uma linhagem literária de vozes negras que, em diferentes ritmos e “escrevivências”, tornam visível a complexa e plural experiência das mulheres-escritoras em seus múltiplos papéis — políticos, sociais e históricos. (Evaristo, 2020).
Na entrevista, Rita Santana articula espaços e tempos em uma “literatura feita para reencantar o mundo”. (Sales, 2020). A partir dos segredos do verbo, ela reconstrói seu itinerário de escrita onde, enfim, afirma-se dona das próprias asas. Por fim, aos leitores da Revista Foro Literário, fica o convite: nas linhas a seguir, a autora compartilha os bastidores desta reedição — em parceria com o coeditor da Villa Olívia, Lima Trindade — além de suas reflexões sobre o fazer literário e as veredas que a conduzem novamente à prosa.

Enquanto escritora, como tem sido revisitar um livro que marcou de maneira decisiva a sua trajetória literária e que agora retorna ao público em edição ampliada, com novos contos? O que esse movimento de retorno — simultaneamente afetivo e crítico — revela sobre a sua própria transformação como autora ao longo do tempo?
Diante do número aterrador de feminicídios no Brasil e da violência misógina cada vez mais acentuada em nosso cotidiano, inclusive com ataques normalizados por pseudo-intelectuais que pertencem ao nosso círculo de atuação, foi um reencontro precioso. Ao reler Tramela e constatar a sua contemporaneidade, a atualidade das denúncias e das reflexões contidas naquelas páginas, percebi que as tramas permanecem atuais em sua abordagem e suas denúncias. Artisticamente, percebo também uma permanência estética nas experimentações, no trabalho com a linguagem, quando vejo os contos mais recentes ao lado dos anteriores, sinto a sensação de que mantêm uma identidade comum, uma impressão digital que os une. A maturidade apenas acentuou ou moldou tendências que já estavam presentes na primeira edição.
Ao fazer inúmeras leituras, em diálogo com o co-editor da Villa Olívia, Lima Trindade, foi possível perceber o caráter atemporal dos contos e como as tramas ainda traçam um percurso dialógico com a contemporaneidade, o que me tranquilizou bastante quanto à necessidade ou não de uma reedição. Sou a autora do livro, portanto o meu olhar não traz neutralidade, mas tento ser justa em meus julgamentos e em minhas decisões e acredito que é um livro atual e que pode ser lido por pessoas de quaisquer gerações.
Foi um trabalho cuidadoso em que repensamos juntos a estrutura do livro, a inserção dos contos que foram escritos posteriormente, quase todos por encomenda e que, juntos, entremeados, mantêm uma unidade e uma organicidade com as narrativas anteriores. Sinto que é um livro que ainda precisa ser lido nas universidades, por leitores instrumentalizados e também por leitores comuns, mas iniciados, como diria Clarice. De preferência, lido por toda a gente em sua diversidade. Nesses anos todos, foi a primeira vez em que me dispus a reler inteiramente Tramela e ainda numa nova configuração com os demais contos que se uniram à obra. Fui invadida por muitas reflexões sobre o processo de seleção e premiação de uma obra, a fidelidade ou não ao que estava impresso e terminado, quais as mínimas, possíveis e imprescindíveis interferências, aderir ou não a cortes sutis, ser mais generosa ou não em situações muito específicas, trocar alguma palavra, ou seja, cirurgicamente, adequar o livro ao olhar de hoje, de uma escritora que se aproxima paulatinamente dos sessenta anos, ao lado de um editor-escritor primoroso, um amigo. Foi um trabalho intenso para ambos.
Você menciona que, após 21 anos, retoma um projeto exclusivamente em prosa. O que se transformou, nesse intervalo, na sua relação com a narrativa? Houve deslocamentos no modo de construir personagens, organizar o tempo ou tensionar a linguagem que diferenciem essa escrita da experiência anterior?
Durante o tempo em que estive casada e muito tempo após a separação, aconteceu um bloqueio com a prosa; iniciava projetos, contos, mas não conseguia trabalhar, mergulhar em nada daquilo, por isso muitos projetos ficaram arquivados, correndo o risco de desaparecerem com os velhos computadores e as caixas pretas, hds, em que estavam armazenados. Somente muito recentemente, percebi que algo havia destravado dentro de mim para assumir novamente um projeto inteiro dedicado à prosa, especificamente ao conto, o gênero em que inicio a escrita profissional, ainda na universidade.
Talvez o processo traumático da prosa já estivesse suficientemente elaborado e eu finalmente estivesse pronta para novamente encarar um livro de contos. 2025 foi um ano dedicado a continuar a divulgação de Borrasca, publicado em 2024 pela Villa Olívia e o novo livro já estava planejado para ser trabalhado desde o início do ano, em minhas planilhas de trabalho. Esperava que estaria pronto até o final do ano, mas sou muito lenta e a vida cotidiana nos exige tempo. Preciso de muito tempo para a elaboração de uma narrativa, pois muitas etapas se intercalam e outras tantas se justapõem durante o labor. Preciso sentir que o trabalho está finalmente realizado e que esteticamente consegui um resultado que me satisfaz.
Sinto novamente o desejo e, principalmente, a disposição e a coragem para enfrentar novamente o trabalho em prosa, que exige de mim um aprofundamento e um mergulho em universos obscuros, em vidas sobre as quais preciso extrair revelações e emprestar sentimentos que não são necessariamente os meus. Além disso, o próprio processo de criação é permeado por pesquisas, tentativas e explorações.
O processo de escrita da prosa é muito simbólico e o inconsciente é um território difícil que requer atenção, é uma incógnita e as descobertas muitas vezes são desconcertantes e misteriosas. Sondar e criar uma vida psíquica para as nossas personagens também é um processo de reencontro, de investigação pessoal e do outro. Um processo que nos aproxima das alteridades. A escrita de narrativas curtas requer uma dedicação e uma entrega absolutamente cheia de sacrifícios e de doação. A investigação da linguagem de cada conto, o destino das personagens e a preocupação de que tenham alguma complexidade, alguma vida palpável, ao mesmo tempo em que a linguagem exige o seu protagonismo e o seu espaço. Me cerco de pesquisas das mais variadas, deixo a escrivaninha abarrotada de livros, dicionários.
Hoje, sinto que estou mais segura para enfrentar o processo de escrita. Talvez as publicações anteriores e o lugar que ocupo hoje na Literatura me tragam alguma tranquilidade quanto ao resultado do que escreverei. O esforço e a responsabilidade são ainda maiores, o grau de exigência e a segurança também são maiores. O próprio exercício com a Poesia durante todos esses anos colabora com a determinação de que estou diante de um desafio, mas que tenho as ferramentas e estou instrumentalizada para enfrentar a Criação, pois estive o tempo inteiro desafiando e investigando a linguagem. Os livros Cortesanias e Borrasca exigiram uma aprendizagem com a forma e com a linguagem e me proporcionaram um domínio maior da escrita. Tom Correia, contista dos melhores, outro dia me disse que ao ler Borrasca percebe uma proximidade muito grande com o romance. São sensações que sentimos e não são óbvias. A leitura de contistas que precederam o início da escrita e, até mesmo agora, a leitura de romances, o contato com outros autores e outras autoras solidificam a feitura do que será a nova obra. Amadureci o bastante para ter paciência com o processo, com o tempo necessário à construção de cada conto, mas também amadureci o suficiente para saber que sou uma escritora e que tenho em minhas mãos arquivos que precisam do meu trabalho, sonhos que precisam ganhar forma, narrativas que precisam de mim e que eu também preciso transformá-las em corpos narrativos para existir enquanto artista.
Considerando que Tramela retorna ao público no dia 07 de março em nova edição, seu processo criativo é frequentemente atravessado por pausas, interrupções, leituras críticas, pesquisas e investigações internas. Como esse ritmo fragmentado — feito de suspensões e retomadas — incide sobre a arquitetura dos seus contos? De que maneira ele molda a construção das personagens, a tessitura da linguagem e a forma final das narrativas?

Acredito que positivamente porque através das mudanças, das crises, dos ataques que sofro, enquanto mulher negra, algo se transforma e amadurece em mim. Meu pensamento está em constante processo crítico, de análise na tentativa de entender as estruturas sociais e como elas me atingem. Agora mesmo, a América Latina está em risco iminente com a invasão terrorista trumpista à Venezuela. Logo, a minha consciência é atingida brutalmente e a minha escrita em alguma medida refletirá esse momento. Há também micropolíticas em meu cotidiano que transformam a minha percepção do mundo e dos homens. Olho com mais nitidez o racismo e a misoginia instalados na sociedade brasileira que não concebem uma mulher negra que conteste ou questione alguns mecanismos ou que use um tom mais elevado para se expressar. Sou atingida por agressões e desqualificações que jamais seriam direcionadas a mulheres brancas, pertencentes à elite ou a homens brancos. São circunstâncias sempre atualizadas que me transformam e transformam a minha escrita. O processo é perene e a fragmentação é parte do meu processo criativo.
Na nova edição de Tramela, a evocação do “Anjo do Lar”, tal como problematizado por Virginia Woolf, reinscreve as tensões históricas que atravessam a escrita das mulheres. De que modo essas forças — entre contenção e liberdade, entre as exigências do cotidiano e o impulso criador — atravessam o seu processo de escrita? Como elas tensionam, deslocam ou reinventam o seu exercício de expressão livre?
O Anjo do Lar é um conceito bem amplo formulado por Virginia Woolf. O anjo é uma mulher que não opina, segue as ideias dos outros, a docilidade e a gentileza são sua marca. Logo, foi preciso esganar aquela mulher para escrever com honestidade, com liberdade. Sinto que também esganei aquela mulher para escrever e para viver. Espera-se de uma mulher negra uma educação e uma subserviência que nos aniquilam, caso não nos rebelemos contra essa postura. Estamos em 2025 e a sociedade ainda nos quer obedientes e dóceis, domesticadas, principalmente se você é negra. Adiciono a isso o cuidado com a Casa. É preciso um longo processo decolonial para encarar a relação com profissionais que cuidam do lar, diarista e empregadas domésticas, quase sempre negras como eu. Precisamos nos reeducar para não perpetuamos violências e a obtusa relação de poder e imposição coloniais. Agora mesmo, algum tempo depois de iniciar as respostas à entrevista, após resolver contratar um pintor para trabalhar aqui, decidi também passar a ter uma diarista a fim de ter mais tempo de dedicação ao trabalho intelectual, em 2006. Sei que a vigilância e o cuidado nessa relação de alteridade deve ser permanente. O exercício da liberdade na escrita é constante e a vigília para exorcizar aquele anjo parece eterna porque são condicionamentos históricos que precisamos implodir. Somente assim, teremos mais autenticidade na vida e na escrita. Precisamos conviver muito bem com a solidão, afinal, a sociedade misógina e machista não aprendeu a lidar com nossas escolhas e com nossos discursos e, por isso, precisamos enfrentar o isolamento e o estado insular na sociedade.
Nesta retomada da escrita de contos em Tramela, sua trajetória evidencia um trânsito intenso entre poesia e prosa. De que maneira a poeta incide sobre a contista — na construção do ritmo, da imagem, da densidade verbal — e, em contrapartida, como a experiência com a narrativa curta reorganiza ou tensiona sua escrita poética?
A atriz exerce muita influência no que escrevo. Atualmente, resolvi retomar a leitura de Lavoura Arcaica com mais disciplina, anotações, portanto, com mais responsabilidade e consciência de escritora para a estrutura daquela narrativa. Decidi essa retomada porque Raduan fez aniversário e o livro completou 50 anos. Mas quando iniciei o projeto do novo livro e resolvi retomar a prosa, já havia lido muitos contos, muitas autoras, principalmente, e evitei pensar ou ler Poesia. Agora, o primeiro conto que comporá o livro já está praticamente finalizado e eu me sinto mais livre para, em paralelo ao processo de escrita, ler outros gêneros sem receio, o que é libertador para a voracidade da leitora. Mas gostaria de enfatizar que durante essa leitura de Lavoura, percebo com mais nitidez a minha ligação com a prosa poética. Estou ligada à uma tradição da linguagem literária elaborada com teor poético, Nélida, Clarice, Sônia Coutinho. Percebo que o exercício com a escrita de Borrasca preparou o terreno para o novo livro de contos, que se distingue completamente ou muito da linguagem utilizada em Tramela, mas mantém a dedicação extremada à linguagem. E , nesse intervalo para cuidar da pintura da casa, precisei ler poesia, sem culpa ou medo de me distanciar da prosa. Esse é um novo momento, provavelmente forjado pela maturidade.
Com a circulação renovada de Tramela e sua presença em contextos formativos, a obra tem sido lida e debatida em salas de aula, alcançando também novos públicos leitores. Qual tem sido o impacto emocional e criativo ao perceber que professores estão trabalhando o livro em sala e que outras gerações passam agora a dialogar com sua escrita? De que modo essa recepção reverbera no seu fazer literário?
O escritor e editor Jorge Augusto me deu notícias de que uma aluna sua pesquisa Tramela. Fiquei surpresa e feliz. Principalmente por estar nesse momento de recriação do livro para uma segunda edição. Em outros momentos, chegam notícias de que Lívia Nathália trabalhou alguns contos do livro. Marcus Vinicius Rodrigues me convidou para uma conversa com sua turma de Direito. Uma amiga, Simone Marluce, mantém um clube de Leitura, onde também fui convidada para uma conversa, ou seja, o livro permanece, graças ao empenho de alguns professores. Uma leitora procurou o livro, já esgotado, e encontrou vários contos no meu velho blog, Barcaças. Sinto que estão descobrindo as possibilidades daquelas narrativas e isso muito me alegra porque sei do potencial imagético e de denúncia daqueles contos. Há contos dos quais me orgulho muito de ter escrito.
Você afirma que, talvez agora, Tramela venha a ser lido com mais atenção e escuta. O que significa, para você, esse novo horizonte de recepção da obra? Trata-se de uma mudança no tempo crítico, no amadurecimento do público leitor ou na própria reorganização do campo literário em torno de outras vozes e outras sensibilidades?
Agora, eu considero que tenho um público leitor, tenho pesquisadoras e pesquisadores que se voltam para o que escrevo, o que não havia no período da publicação do livro, pois era o nascedouro da escritora, logo, a nova edição poderá despertar um interesse que não havia à época. Consegui com as publicações até aqui, posteriores a Tramela, um respeito no meio literário, entre os pares e os leitores, e sou dedicada ao ofício, divulgo com afinco o meu trabalho. Esporadicamente, escrevo por encomenda alguns contos esparsos que constam da nova edição e trazem um estilo mais próximo do que sou hoje e talvez mais próximo do público, mas preservo a dedicação à elaboração da linguagem. A temática do livro permanece atual. O amor romântico e suas armadilhas e desconstrução, a masculinidade tóxica e suas consequências na vida das mulheres, a luta da mulher por liberdade, o desejo, enfim. Realmente vislumbro uma identificação do público contemporâneo com as tramas de Tramela. Torço para que ele seja lido com a profundidade que merece. Há muita beleza naquelas construções. Há a presença de Salvador e o olhar de uma mulher grapiúna diante daquela cidade, envolta em encantamento e crítica.
Ao mencionar Borrasca, você sugere a existência de um diálogo entre obras produzidas em momentos distintos da sua escrita.O que Borrasca representa no seu percurso autoral e crítico? Em que medida essa obra conversa com Tramela, seja por continuidade, deslocamento ou ruptura nos modos de narrar e pensar o mundo?
Sim. Borrasca é um livro em que proponho um diálogo com algumas das minhas referências na Arte. Acredito que esse processo dialógico será retomado no próximo livro de poemas porque sinto a necessidade de conversar com ou criar a partir de. Harold Bloom no Mapa da Desleitura desvenda o que considero um processo muito semelhante ao que tento estabelecer ali, pois converso com a tradição. Borrasca foi um processo exaustivo e talvez não esteja concluído, pois ainda sinto que a relação com a palavra , estabelecida ali, ainda possa ser intensificada, aperfeiçoada. Também a forma de construção de cada poema revelou-se mais nítida, mas o processo vem de livros anteriores, principalmente de Cortesanias, que considero um livro muito especial, muito imagético, onde consigo em alguns poemas uma estrutura , uma forma que me interessa aprofundar e o fiz, certamente, em Borrasca com mais eficácia. Não persigo fórmulas, apenas um aprofundamento no tratamento do verbo. Borrasca me deixou mais consciente sobre a arquitetura da escrita, do poema, da construção de um poema e também das frustrações que temos diante do que desejaríamos e malogramos.
O novo projeto reúne contos escritos ao longo de diferentes etapas da sua vida e do seu percurso literário. Como você tem articulado esses tempos heterogêneos em uma mesma arquitetura narrativa? Que critérios — estéticos, temáticos ou afetivos — orientam a costura entre textos produzidos em momentos tão distintos da sua escrita?
Estou no início do processo de escrita e tenho consciência de que talvez seja necessária uma seleção para o livro atual e outra para futuros livros, se houver tempo, afinal, somos mortais, perecíveis e precários. Comecei por um argumento muito recente e desconfio que esta será a tônica do novo livro. Ideias que me provocam mais desejo de elaboração porque me perturbam agora e que são mais desafiadoras. Sinto desejo de que tomem forma, encontrem sua existência. Talvez os mais antigos, que são preciosos para minha necessidade de criação, fiquem reunidos noutro livro. Ainda não sei se encontrarei unidade em narrativas tão distantes no tempo. Somente o trabalho e a elaboração exaustiva podem fornecer as respostas. Gosto muito da maneira que escrevi o primeiro conto, até aqui. Ainda pretendo voltar a ele, é uma escultura inacabada, uma narrativa que ainda requer atenção e cuidado. Penso que a bagagem de hoje, as recentes experiências com a prosa, principalmente a elaboração do conto A Mulher e o Tigre que está no livro Eros sobre os Abismos, e a poesia propiciam a técnica para esse amálgama de uma escrita e uma reescrita que se envolvam mutuamente em uma unidade , em um estilo comum. Será uma costura, uma aprendizagem valiosa. O exercício me excita. É um belo desafio. Estou muito disposta ao risco e quero tempo para o exercício da criação; serei sovina em relação ao meu tempo.
Você afirma que a criação é seu “lugar preferido no mundo”, ainda que reconheça o quanto esse processo pode ser exaustivo. O que há nesse gesto criador — entre entrega, risco e persistência — que a mantém tão intensamente vinculada à literatura? Trata-se de uma necessidade ética, de um impulso vital ou de uma forma particular de habitar o mundo pela linguagem?
Quando você percebe que é alvo de um olhar colonial e colonizador, você se rebela, desobedece a ordem e não se permite ser objeto manipulável de ninguém, você se aparta do mundo, dos amigos, dos amores, dos pares. E o mundo se torna cada vez mais inóspito. Eu não domino e não quero dominar os códigos de adaptação e pertencimento porque eles são regidos pelo anjo do lar e eu, mulher negra, sinto a sua presença e volto a esganar seu fantasma, como Virginia nos sinaliza. A Criação é o lugar onde posso ser a protagonista da cena, criar novos mundos, conviver com personagens e moldar suas personalidades, seus destinos. E o solilóquio é o que resta diante da ausência de interlocutores dispostos ou preparados para minhas subjetividades, meus interesses. Posso revelar ao papel reflexões sem que pessoas obtusas se afetem, se inflamem. A Criação é o espaço da liberdade, onde sou demiurga, criadora de universos e, principalmente, aquela que lida com a linguagem que tem intimidade com ela. Elaborar a linguagem é recriar a gramática, é a feitiçaria de Otávio Paz em seu Arco e a Lira. É , por isso, o reencontro com poderes mágicos, saberes do inconsciente, ancestrais, primitivos. É a possibilidade de encontrar revelações perdidas ou esquecidas da humanidade. É uma reconciliação com a intuição, o silêncio, o útero materno, os sonhos. Além de ser um tempo ofertado a pesquisas, leituras, buscas. É um lugar de acolhimento. Criar é a minha oferenda ao Tempo. E é na leitura que encontro abrigo, acolhimento. Ler é voltar ao silêncio e aos sons do útero materno.
Diante das “novas Tramelas” que agora se apresentam ao público, o que os leitores podem esperar dessa etapa da sua escrita? Há temas, atmosferas ou tensões que você considera estruturantes nesta nova configuração da obra? Em que medida essas narrativas aprofundam — ou deslocam — os eixos que já atravessavam sua produção anterior?
Eu e Lima Trindade, co-editor da Villa Olívia, aparamos arestas, polimos o livro para que as narrativas brilhassem, sem que nada abalasse a estrutura original, apenas um olhar mais minucioso. Portanto, os leitores e leitoras encontrarão um livro revisto, polido e repensado. Encontrarão a linguagem original que traz o meu estilo e minhas marcas, minhas influências, minha formação. Encontrarão conflitos atuais sobre relacionamentos amorosos, como traição, incomunicabilidade, desejo, separação e retomada da existência. Encontrarão um diálogo mais denso com o teatro, mas principalmente terão a oportunidade de desvelamento da minha prosa. Será uma oportunidade de que, após 21 anos, os textos sejam finalmente lidos e relidos como um projeto de escrita primordial e que se consolidou durante esse tempo. O trabalho com a editora, Villa Olívia, promete um objeto cuidado, prazeroso e bonito, o que me deixa segura e esperançosa de que sejamos felizes com a segunda edição do livro, o que é em si, já é um luxo, dentro da nossa realidade de publicação, um privilégio e um reconhecimento. Sinto-me grata por viver esse momento.
Ao longo da construção deste novo livro de contos, quais têm sido suas principais fontes de leitura, pesquisa e inspiração? Há autoras, autores, campos de investigação ou experiências específicas que atravessam essa escrita e ajudam a configurar o horizonte estético e crítico da obra?
Para a feitura do livro e para revestir o caminho que levará a sua escrita, li muitos livros de contos e esse processo é longo. Sem dúvida, Katherine Mansfield foi a grande revelação e deslumbramento que tive, estou completamente apaixonada por ela, por sua escrita. A edição da Autofágica de Êxtase realmente me deixou atordoada, diante de tanta beleza e a sua escrita é uma lição para a eternidade, um grande prazer, ela é imensa. Grada Kilomba e bell hooks, Fanon, Ângela Davis estão por perto para darem e ampliarem a visão. Mas Gaston Bachelard em A Água e os Sonhos e Carl Jung com o Homem e seus Símbolos, além das Cartas de Tarô, adquiridas recentemente para o exercício com os símbolos, são o suporte permanente porque trabalho com alguns sonhos na construção das narrativas. Algumas leituras antecederam o processo de escrita como Hamlet de Shakespeare, Entre Quatro Paredes de Sartre, Esperando Godot de Beckett . Ainda estou muito marcada com a retomada de Camus, O Estrangeiro e A Queda. Espero que algumas dessas leituras reverberem de alguma forma no novo livro. Mas há muito mais que não consigo atinar agora de forma palpável, são preparações intangíveis como filmes, imagens, pinturas, músicas, tudo que busco é forma de preparação e afinação do instrumento. Sou moldada por essa busca que se revela inclusive nas cores da casa, na seleção dos móveis, das roupas. Vivo em busca de afinação do instrumento.
Ao habitar novamente o território da prosa, que desafios se impuseram com maior intensidade nesse retorno? E, ao mesmo tempo, que descobertas — formais, temáticas ou subjetivas — emergiram desse reencontro com a narrativa, especialmente após sua trajetória também consolidada na poesia?
Leio os livros de forma mais técnica, atenta aos processos de invenção, sem perder o prazer da leitora, que é o mais importante. Estou mais atenta à riqueza das anotações cotidianas que dão suporte à escrita futura. Ter os cadernos sempre por perto e recorrer a eles e aos arquivos de criação com mais disciplina e cuidado; após a leitura de Laços de família, que foi um impacto, senti a necessidade de uma consciência do livro como um projeto, uma unidade, além de uma responsabilidade maior com o conjunto de narrativas que se unem para o que será um livro. É um livro imensurável de Clarice e que me deu uma responsabilidade maior diante do projeto e de seu efeito sobre os leitores. Esta consciência também me foi dada pelos Doze Contos Peregrinos de Gabriel Garcia Marquez, magistral. Além do poder do tempo, da espera, da retomada das narrativas que se perdem, da reescrita que se dá de tantas formas; terei que voltar a ambos os livros, definitivamente, porque a escrita é aprendizagem constante. Hoje sinto uma segurança maior para a escrita de um conto, mas acredito que a leitura ensina, aperfeiçoa e dá segurança para seguir um caminho que é só seu, e que só você poderá construir. Estou imune ao medo das influências, acredito que aprendemos com nossos e nossas mestras, mas temos um percurso, uma trajetória no exercício que é o amálgama do que somos; temos o nosso próprio jeito de contar, nosso estilo. Hoje tenho mais liberdade em imprimir o olhar da ensaísta nos textos e mais consciência em desprezar e cortar o desnecessário. Ter lido o Clube dos Niilistas de Tom Correia também provocou uma responsabilidade estética ainda maior com o objeto que entregaremos ao mundo. Sinto que hoje, na retomada, estou mais corajosa para experimentar e mais confiante nos caminhos que escolho percorrer, como método de escrita. Sinto que tenho mais honestidade diante do que deixarei impresso e tal confiança só o tempo pode nos fornecer e o trabalho contínuo com a linguagem, o contato contínuo com a arte. Não ter pressa e ser paciente com o processo. Outra coisa, amar o prazer da escrita, sentir o prazer da aprendizagem e ser feliz com o trabalho que muitas vezes nos leva até a exaustão.
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Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.

