Em entrevista concedida a Cristian Sales, Thaíse Santana fala sobre seu romance de estreia, Inventário do amor
“Inventariar o amor é olhar para o que foi vivido,
reconhecer suas marcas e compreender quais afetos
continuam fazendo parte de quem somos.”
É fundamentado nessa compreensão que o romance desdobra-se, transformando a memória em território de investigação dos vínculos, das perdas e das permanências. Inventariar é, assim, revisitar experiências e afetos para reconhecer aquilo que, mesmo diante do tempo e das rupturas, ainda permanece em nós.
Sob essa mesma chave, a escrita de mulheres negras tem restituído o protagonismo de nossas existências, devolvendo-nos a centralidade de nossas próprias narrativas e reinscrevendo, no espaço literário, experiências historicamente silenciadas. Ao fazer isso, essa escrita restitui a nossa humanidade violada pelas estruturas do racismo, do sexismo e pelos regimes de representação que nos reduziram à dor, à subalternidade e à ausência. Esta literatura não apenas denuncia as marcas da violência, mas abre campo e assenta outras possibilidades de existência, imaginação e bem-viver, deslocando o olhar sobre nós mesmas.
Nesta conversa profunda e generosa, a escritora, poetisa e pesquisadora baiana Thaíse Santana passa em revista as dobras e os bastidores de Inventário do Amor, romance que marca a sua estreia na ficção de fôlego e com o qual concorre ao Prêmio Kindle de Literatura. Doutora em Literatura Comparada (UFF) e com uma trajetória consolidada pela poesia — com obras como Mulher-Palavra (2021) e Dentro da casa o vazio (2024) —, Thaíse articula, nesta nova empreitada, um projeto estético e polifônico. Nele, o lirismo, o gênero epistolar, poemas, canções e vestígios de memória se entrelaçam em uma arquitetura híbrida para dar corpo e voz à protagonista Amara.
Aqui, o próprio ato de inventariar sofre uma torção poética: longe de se reduzir a uma árida checagem de perdas ou a um frio balanço de ausências, o verbo se transmuta em gesto vivo de catalogar desejos, reter o afeto e dar nome ao imensurável. Inventaria-se para não esquecer, mas também para escolher o que fica e o que se desfaz no tempo.
Ao longo da entrevista, a autora problematiza o próprio fazer literário ao refletir sobre como a experiência poética continua operando na prosa e explica as razões estéticas e existenciais de escolher a temporalidade dilatada da escrita epistolar para ancorar a jornada da personagem. A escolha pela forma da carta tensiona o ritmo da comunicação efêmera contemporânea e constitui a narrativa enquanto contra-arquivo afetivo: um gesto no qual a memória e a ficção fabulam saídas para os silenciamentos e as rasuras da história.
O romance contemporâneo de autoria feminina negra opera em torno de uma problemática comum — um fio que cose a narrativa no que se refere ao tempo, ao modo e à voz —, atravessado por temas e demandas políticas incontornáveis do presente. Para além das formas e das disputas do campo literário, Thaíse enfrenta, com rigor ético e delicadeza, as fraturas do nosso tempo. Alinhada às reflexões de uma crítica feminista negra, a autora promove uma radical subversão da gramática da dor ao recusar o enquadramento que reduz a existência de mulheres negras unicamente ao trauma, ao sofrimento ou à violência histórica. Sem negar as marcas do passado, o texto desloca a dor do centro da cena e reivindica para sua protagonista a construção de uma subjetividade inteira e complexa — atravessada por contradições, desejos, estéticas corporais, tensões familiares e raciais.
Inventariar o amor é catalogar nossas próprias dobras, resgatando o afeto do soterramento histórico para assentar a humanidade na centralidade de nossa existência. Ao fazer isso, o romance de Thaíse Santana subtrai a experiência amorosa da mimese do trauma. O afeto emerge, assim, não como mera idealização romântica, mas como práxis política, insurgência e gesto radical de reexistência. O amor que desorganiza a experiência nos lança em uma superfície de experimentação e no desejo de multiplicar-se. A resposta ainda não está na ponta da língua, mas certamente nos tornamos mais leves para procurá-la.
Com uma trajetória marcada pela circulação entre os espaços acadêmicos e os circuitos literários do país — tendo sido publicada nos Cadernos Negros, premiada no Prêmio Carolina Maria de Jesus e com obras investigadas em universidades como USP, UFRJ e UESC —, Thaíse Santana reafirma a vitalidade da literatura escrita por mulheres negras na Bahia, na diáspora e na prosa contemporânea brasileira.
O romance de autoria feminina negra alça-se, assim, como um instrumento narrativo capaz de fissurar a historiografia oficial e iluminar, a partir do arquivo, os fenômenos constitutivos de uma tendência contemporânea: a de restituir aquilo que foi deliberadamente elidido ou tornado inacessível pelos cânones tradicionais, projetando um novo imaginário sobre o passado e suas implicações no presente. A ficção contemporânea de mulheres negras surge, pois, como catalisadora de memórias pouco lembradas ou silenciadas, mas que se revelam cuidadosamente selecionadas e essenciais para a compreensão de nosso tempo. Nesse caleidoscópio de fendas, urdiduras e fios que se emaranham, há sempre uma escolha política e estética sobre o que cada sociedade decide silenciar ou inscrever em sua própria narrativa.
Partindo desse pressuposto, trata-se de um dilema central: compreender em que medida é preciso partir da própria história — e não da sua relativização — para que essa gramática da dor ceda lugar a uma outra forma de encarar o presente, figurando a memória do futuro a partir do desejo pelo bem-viver.
Sob esse aspecto, esta conversa nos convida a pensar a ficção como espaço de preservação da memória e o ato de inventariar o amor como um exercício radical de autoria, autonomia e reencantamento do mundo. Como uma vereda aberta, o amor abarca diversas definições que não ecoam em uníssono, constituindo uma força geradora de narrativas sobre acertos, ilusões e desilusões. Se a literatura canônica nos legou modelos pautados pelo ideal romântico, tais representações têm sido sistematicamente desconstruídas e reconfiguradas pela autoria feminina negra, que desloca esse afeto para o centro do debate político e existencial.
1. Inventário do amor marca sua estreia no romance. Como nasceu esse projeto e em que momento você percebeu que esta história precisava de uma respiração que ultrapassasse os limites da poesia?
Ele nasceu a partir de cartas que escrevi há alguns anos. Desde o início, eu sentia que havia uma história ali que precisava ser contada. Sabia que as experiências daquela personagem, que mais tarde se tornaria Amara, não caberiam em um poema nem em uma prosa poética, gêneros com os quais eu já estava acostumada a trabalhar. Naquela época, escrevi o projeto do livro e alguns capítulos. Dei a ele o título Cartas para o amor que não tive e o deixei guardado por alguns anos. Em 2026, decidi retomar esse material com o objetivo de participar do Prêmio Kindle de Literatura da Amazon. Foi nesse retorno que o manuscrito realmente ganhou forma, inclusive em sua característica híbrida. Reescrevi grande parte do texto e construí a personagem Amara, permitindo que seus afetos, conflitos e desejos conduzissem a narrativa.

2. Sua trajetória literária começou na poesia. Durante o processo de escrita do romance, em quais frestas ou aspectos a Thaise poeta permaneceu mais presente?
A todo o tempo. E isso foi uma escolha consciente. A narrativa de inventário do amor é profundamente atravessada pela minha experiência como poeta. A poesia permanece na linguagem ficcional: na musicalidade da escrita, no ritmo da narrativa, na forma como os afetos são narrados. Embora seja um romance, eu não quis abrir mão da minha escrita poética, muitas vezes marcada pelo lirismo. A Thaíse poeta não ficou para trás. Ela está experimentando outras maneiras de fazer literatura.
3. O romance reúne cartas, poemas, canções e fragmentos de recordações. Como você planejou essa arquitetura narrativa híbrida e o que essa multiplicidade de texturas permite contar?
Essa estrutura do romance nasce da própria memória de Amara. Como ela narra a sua história a partir das lembranças, a linguagem também acompanha esse movimento. As cartas, os poemas, as canções, as trocas de mensagens e os fragmentos que compõem essa memória fazem parte da maneira como ela organiza e revisita a própria experiência. Esse hibridismo revela uma personagem profundamente atravessada pela linguagem e pela memória. A multiplicidade de texturas permite que a narrativa se aproxime da forma como nos lembramos da vida: de maneira afetiva, múltipla e também fragmentada.
4. As cartas ocupam um lugar central na vida e na jornada da protagonista, Amara. Em tempos de comunicação instantânea e efêmera, por que escolher o gênero epistolar para ancorar essa história?
Eu gosto muito de cartas. Tanto as pessoais quanto as literárias. Durante um período da minha vida, tive o hábito de escrever cartas, e foi justamente esse exercício de escrita que, anos depois, possibilitou o nascimento de Inventário do amor. Por isso, o gênero epistolar não foi uma escolha apenas estética. As cartas carregam um tempo diferente. Elas exigem pausa, elaboração e um olhar mais demorado sobre si e sobre o outro. Acho que esse tempo da carta dialoga profundamente com a história de Amara e com a maneira como ela revisita suas memórias.
5. Você já afirmou que sua escrita dialoga de perto com a memória e com as afetividades. De que maneira essas duas dimensões se traduziram na própria estrutura e no ritmo do romance?
A memória e os afetos organizam a narrativa. Amara não conta toda a sua história nem segue uma ordem completamente linear. Ela vai reconstruindo sua trajetória a partir das lembranças e esse movimento faz com que o romance acompanhe o modo como a memória funciona: retomando acontecimentos, estabelecendo relações e atribuindo novos sentidos ao passado. Já os afetos determinam o ritmo da narrativa. Há momentos de pausa, de ruptura e de intensidade, porque o tempo do romance é, antes de tudo, o tempo da experiência afetiva de Amara.
6. O título do livro evoca um gesto de catalogar. O que significa, para você e para a jornada de Amara, propor um “inventário” do amor? O que se guarda e o que se descarta nesse processo?
O livro mapeia e narra acontecimentos que marcam a vida da protagonista. Para isso, utiliza a memória e diferentes formas de escrita, como diário, cartas, poemas, canções e mensagens. O inventário, para Amara, não é apenas uma lista de lembranças, mas uma tentativa de compreender o que viveu e os sentidos que essas experiências assumem ao longo do tempo. Nesse processo, ela guarda afetos, aprendizados e marcas que constituem sua trajetória, mas também descarta aquilo que já não precisa carregar. Inventariar o amor é olhar para o que foi vivido, reconhecer suas marcas e compreender quais afetos continuam fazendo parte de quem somos.
7. A memória nunca recupera o passado de forma íntegra; ela seleciona, esquece, rasura e recria. Como essa compreensão sobre a imperfeição das lembranças orientou a construção psicológica de Amara?
A imperfeição da memória foi fundamental para a construção psicológica de Amara. Eu não queria uma personagem que apenas recuperasse o passado, mas que revisitasse suas experiências a partir do presente, atravessada pelas marcas do tempo, dos afetos e das transformações que viveu. Amara seleciona, reorganiza e atribui novos sentidos aos acontecimentos. Ela não apenas recorda, mas também ficcionaliza a própria memória, criando narrativas sobre si mesma. Um exemplo disso está na origem do seu nome: ela não se lembra da explicação que sua mãe lhe deu, mas guarda a história que construiu sobre ele, relacionada à sua bisavó materna. A lembrança, nesse caso, não é apenas uma recuperação do passado, mas uma elaboração afetiva da narrativa que ela construiu sobre a própria vida. Por isso, a construção da personagem passa também por essas lacunas, silêncios e recriações da memória. É justamente nessa imperfeição que Amara se torna mais humana e complexa.
8. Pensando na escrita como um contra-arquivo pessoal: você acredita que a ficção pode funcionar como uma ferramenta para preservar e salvar aquilo que a história pessoal corre o risco de apagar?
Sim. A ficção pode preservar experiências vividas que poderiam, com o tempo, desaparecer da memória. No entanto, ela também pode transformar, recriar e atribuir novos sentidos àquilo que foi vivido. Em inventário do amor, a escrita é justamente esse espaço em que Amara revisita sua história e organiza aquilo que permaneceu em sua memória. Cartas e outros registros se tornam formas de guardar não apenas acontecimentos, mas também sentimentos, percepções e marcas de uma vida.
9. O livro trata do amor, mas sem se esquivar das tensões familiares, das relações raciais e das dores do abandono. Como foi o desafio de construir essa narrativa evitando cair em uma visão idealizada ou romântica do afeto?
Eu quis construir uma narrativa em que a experiência de viver o amor fosse atravessada pelas relações raciais, pelos conflitos familiares, pelas conquistas, perdas, pelo desejo e por todas as outras experiências que constituem a vida de Amara. Ela vive o amor a partir das suas potencialidades, fragilidades e contradições. As tensões familiares, as relações raciais e as dores do abandono não aparecem como elementos separados da experiência afetiva, mas como parte daquilo que constitui sua forma de amar e de se relacionar com o mundo. Busquei construir uma narrativa em que as experiências de Amara também dialogassem com vivências que atravessam muitas mulheres negras, especialmente no modo como afeto e relações raciais se entrelaçam.
10. De que maneira a experiência de ser uma mulher negra atravessa e molda a construção da subjetividade e dos desejos de Amara?
A minha experiência como mulher negra atravessa a construção de Amara porque escrevo a partir de um lugar de vivência, memória e reflexão sobre o mundo. As questões que atravessam a minha existência também atravessam a forma como construo essa personagem. A subjetividade e os desejos de Amara são moldados pela experiência de ser uma mulher negra em uma sociedade marcada por diversas desigualdades. Ao construí-la, busquei criar uma personagem profundamente humana, com suas contradições, desejos, fragilidades e potências. Nesse sentido, minha experiência como mulher negra contribui para o olhar que lanço sobre Amara: um olhar atento às marcas históricas que atravessam sua vida, mas também a sua humanidade e a sua liberdade de desejar.
11. A literatura contemporânea produzida por mulheres negras tem ampliado radicalmente as formas de representar as afetividades, deslocando narrativas historicamente marcadas apenas pela dor. Como você percebe Inventário do amor dialogando com esse movimento de retomada do afeto?
Acredito que inventário do amor dialoga com esse movimento ao compreender que as experiências de mulheres negras são atravessadas por múltiplas dimensões. Nossas histórias não são constituídas apenas pelas violências e pelas dores que nos marcaram historicamente. Elas também são feitas de desejos, afetos, escolhas, sonhos e possibilidades de construção de si. Ao escrever Amara, tentei criar uma personagem que pudesse viver o amor em sua complexidade: com suas alegrias, contradições, perdas e transformações. O afeto, nesse sentido, aparece como uma dimensão fundamental da existência, como espaço de construção da subjetividade e também de reconhecimento de si. Acho importante que a literatura produzida por mulheres negras possa ampliar esses imaginários, criando narrativas em que nossos corpos, nossas experiências e nossos desejos também sejam lugares de existência, liberdade e criação.
12. Em sua leitura como escritora e pesquisadora, quais são as principais urgências e desafios éticos ao escrever personagens negras cuja existência não seja reduzida ao trauma, mas que também possam viver a delicadeza, a contradição, a esperança e o prazer?
Um dos principais desafios é construir personagens negras em sua complexidade, reconhecendo que nossas experiências são atravessadas por violências, mas não se resumem a elas. O trauma faz parte de muitas trajetórias negras, mas ele não pode ser o único lugar de existência possível na literatura. Ao escrever personagens negras, considero fundamental preservar sua humanidade em toda a sua dimensão: suas contradições, desejos, afetos, sonhos, escolhas e também suas fragilidades. A urgência está em criar narrativas que não neguem as violências, mas que também reconheçam que personagens negras podem existem para além delas. Em inventário do amor, busquei construir Amara como uma mulher inteira: alguém que carrega suas marcas, mas que também deseja, ama, cria vínculos, questiona, se transforma e encontra possibilidades de existir para além das dores que atravessam sua vida.
13. A literatura baiana escrita por mulheres negras vive um momento de extraordinária vitalidade e reconhecimento nacional. Como você enxerga a sua inserção nesse cenário e qual é a importância dessas redes de escrita e escuta para a sobrevivência das nossas histórias?
Quando comecei a publicar minha literatura nos Cadernos Negros, em 2020, eu já estava morando em Minas Gerais, para onde havia ido em 2017 cursar o mestrado na Universidade Federal de Viçosa. Depois, fiz o doutorado no Rio de Janeiro. Durante esse período, minha trajetória como escritora foi construída principalmente fora da Bahia. Publiquei meu primeiro livro, Mulher-Palavra (Patuá, 2021) e, a partir daí, passei a circular por espaços literários em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2024, publiquei Dentro da casa o vazio (Urutau), ampliando minha participação nesses circuitos. Com o meu retorno à Bahia, tenho conseguido me aproximar mais dos espaços literários daqui, conhecer escritoras e escritores da nossa terra e construir novas redes. Minha relação com a Bahia, de modo geral, é marcada por esse movimento de partida e retorno. Inclusive, meu quarto livro, contemplado pelo Edital Bahia que Escreve (PNAB, 2025), nasce também atravessado por essa experiência de deslocamento e pertencimento. Estou ampliando minha inserção nesse cenário, mas minha escrita, atravessada pela experiência de uma mulher negra baiana, sempre fez parte dessa tradição. Por fim, as redes de escrita e escuta são fundamentais, porque a literatura não se constrói de forma isolada. São espaços de troca, reconhecimento e partilha que fortalecem nossas vozes e possibilitam que histórias antes silenciadas encontrem caminhos de circulação.

Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.

