Crônica de Cleber Teixeira sobre o protagonismo feminino nos canais literários do YouTube e os preconceitos ainda presentes no debate cultural.

Na década de 1990, para além dos ambientes formais de educação, praticamente toda difusão da literatura no Brasil resumia-se à revista Veja, aos jornais impressos e ao programa de televisão Jô Soares Onze e Meia, do SBT. Foi no Jô que ouvi pela primeira vez o nome de Brecht e a voz trovejante de João Ubaldo Ribeiro, foi no talk show também que conheci o escritor Marcelino Freire, a quem tive a honra de entrevistar muitos anos depois. O ator e escritor Jô Soares fora sempre um inquieto disseminador da cultura, e seu programa foi um importante canal pelo qual muitos escritores passaram e se projetaram.

Algum tempo depois, outros meios de comunicação de massa assumiram esse papel. Ainda nessa mesma década, a revista Cult chegou às bancas, trazendo um conteúdo inteiramente dedicado à literatura e com enorme qualidade editorial. Já nos anos 2000, mais produções audiovisuais exibiram programação semelhante, como o GloboNews Literatura, sob o comando do jornalista e escritor Edney Silvestre, e a série documental Mestres da Literatura, produzida pela TV Escola.

No entanto, o acesso a essas mídias na época não era tão massivo como é hoje, já que dificilmente havia bancas de revista nas cidades do interior e nem todo mundo conseguia assistir a esses programas, pois alguns eram transmitidos via TV a cabo ou exigiam antena parabólica. Assim, durante décadas no Brasil, a literatura foi um assunto quase restrito ao contexto educacional e às elites, apenas transpondo essas barreiras quando grandes fenômenos editoriais chegavam ao mainstream, encabeçando a listinha dos mais vendidos da Veja.

Felizmente uma nova forma de produção tem aquecido o debate sobre a arte da palavra nesta década. O fenômeno dos “booktubers”, termo em inglês que designa as pessoas que utilizam a plataforma YouTube para falar de livros, pode ser considerado o maior acontecimento midiático relacionado à literatura dos últimos anos, pois aproxima um número cada vez mais expressivo de leitores, escritores, pesquisadores, reunindo todo universo do que Candido chamou de “sistema literário” em torno do que foi, do que está sendo e do que ainda será produzido. Arrisco a considerar este um dos movimentos mais impactantes pela democratização da literatura deste século até aqui.

Atentando-me para o fato de eu ter usado o artigo masculino ao me referir a booktubers, considero que caberia uma correção, já que segundo meu limitado conhecimento a respeito, essa atividade me parece predominantemente exercida por mulheres, o que não me espanta em nenhum grau, já que diariamente tenho acompanhado a tomada do protagonismo por este gênero nos diversos âmbitos da intelectualidade.

Então, cito aqui algumas dessas produtoras de conteúdo literário das quais sou espectador assíduo e deixarei no fim do texto os endereços desses canais. As primeiras que conheci foram a professora de inglês Tatiana Feltrin e a jornalista Isabella Lubrano. Os canais independentes de cada uma possuem mais de 700 mil inscritos. Posteriormente descobri Livia Piccolo, que apresenta resenhas no canal da editora Antofágica, Thaís Nicolini e Julie Jacyntho, do canal do Clube da Literatura Clássica, e mais recentemente Arieska Meurer, de quem fui presenteado pelo algoritmo. Outra menção que preciso fazer é a Bruna Martiolli, que embora eu ainda não seja “seguidor”, li e gostei muito do seu É tempo de morangos, publicado pela Intrínseca este ano.

Embora elas proponham abordagens diferentes, que variam em relação ao tom, ao repertório e às vezes ao público-alvo, algumas características são comuns a todos esses canais: a clareza na linguagem, que favorece principalmente a acessibilidade, a qualidade técnica na produção audiovisual e um olhar que jamais se quer único para quaisquer obras lidas, mas que sempre abre possibilidades interpretativas e dialógicas, como, aliás, deveriam ser todas as leituras. Essas influenciadoras publicam principalmente resenhas longas – para os padrões digitais vigentes –, literalmente conversam com leitores do Brasil e do mundo sobre suas impressões de leitura, discutem o cânone e os submundos da arte e, sobretudo, contribuem para que mais pessoas sejam estimuladas pelo hábito da leitura. Além disso, esses espaços virtuais naturalmente também contribuem para impulsionar as vendas de livros, divulgar adaptações audiovisuais e outros produtos, o que muitas vezes gera para elas uma renda extra por meio da “monetização”, que, para as produtoras independentes em especial, é mais do que merecida.

Mas nem tudo são flores, ou morangos. A superexposição à qual se submetem traz também alguns obstáculos, que definitivamente não devemos normalizar. Frequentemente mulheres são vítimas de diversos discursos de ódio e não é diferente para essas jovens intelectuais. Seja por parte do público que discorda de algum posicionamento, seja por setores da mídia que tentam inferiorizá-las diante da crítica especializada, sempre há tentativas de silenciamento, pois mesmo depois de tantos avanços, a nossa sociedade ainda se ofende ao ver mulheres sendo bem-sucedidas.

E esse sucesso é crescente e faz com que essas e outras mulheres leitoras não se intimidem e sigam influenciando outros leitores, de todos os gêneros e de todos os grupos sociais. Afinal, aprendemos a ler para ler. Sozinhos ou em grupos. No papel ou nos dispositivos eletrônicos. A leitura é uma das mais incríveis tecnologias que já inventamos, e essas moças têm feito um trabalho muito importante para celebrar toda a potência da literatura. Carece de ter coragem.

CANAIS CITADOS:

http://www.youtube.com/@tatifeltrin – Tatiana Feltrin
http://www.youtube.com/@LerAntesdeMorrer – Isabella Lubrano
https://www.youtube.com/@Antofágica – Livia Piccolo
http://www.youtube.com/@ClubedeLiteraturaClássica – Thaís Nicolini e Julie Jacyntho
http://www.youtube.com/@arieska.meurer – Arieska Meurer
http://www.youtube.com/@BrunaMartiolli – Bruna Martiolli

Cleber Teixeira é correspondente literário de Piemonte do Paraguaçu. Professor de língua portuguesa da rede estadual, especialista em Estudos linguísticos e literários, poeta premiado em concursos literários (2003, 2004), cordelista e editor-chefe da agência de notícias Cemanews.


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