Crônica de Moisés Reis originalmente publicada na Edição nº 2 da Revista Foro Literário, em setembro de 2026

Na música Pequeno Cidadão Comum, de Belchior, narra-se a trajetória de um indivíduo afogado em suas obrigações cotidianas, alguém que “caminha para a morte pensando em vencer na vida”, como diz o próprio compositor.

A canção pode ser interpretada como um lamento — “era como aquela gente honesta, boa e comovida” — marcado por um certo descontentamento diante da morte de alguém que viveu tentando cumprir aquilo que acreditava serem suas obrigações.

Mas a frase que me trouxe essa música à memória aparece justamente ao final da canção, como um arremate capaz de sintetizar o sentimento de dor pela partida de alguém:

“Que a terra lhe seja leve.”

Trata-se de uma daquelas expressões quase autoexplicativas, sobretudo quando se possui a mais elementar percepção do contexto em que ela é empregada. Ela traduz a dor da perda e a síntese de um lamento. A expressão me chamou a atenção desde a primeira vez que a ouvi, na voz do grande Belchior.

Quando, durante minhas pesquisas no acervo de cartas enviadas ao Barão de Jeremoabo, deparei-me com essa frase, percebi que ela não era uma criação do genial compositor cearense e resolvi pesquisar um pouco mais a respeito.

Ao que tudo indica, trata-se de uma antiga expressão funerária romana — Sit tibi terra levis (frequentemente abreviada como S·T·T·L nas lápides da Antiguidade) —, esculpida na pedra para desejar descanso ao morto.” frequentemente escrita em latim nos túmulos como epitáfio. O meu encontro com ela deu-se através de Antero de Cerqueira Galo, amigo íntimo do Barão de Jeremoabo. Antero era genro de Joaquim Borges de Santana (1849–1921), casado com Francisca Dantas dos Reis, irmã do Barão.

Na missiva em questão, datada de 2 de junho de 1899, o pai de Antero, Quintino José Galo (nascido em 1819), faz o mais doloroso dos relatos que um pai poderia fazer. Escreve Quintino ao Barão:

“Com o maior desprazer passo a comunicar-lhe que ontem às 10 horas do dia foi retirado d’este mundo para o outro o nosso Antero, vítima de uma febre que está grassando aqui;”

E, ao final, arremata o enlutado pai:

“Que a terra lhe seja leve!”

Sobre Antero, escreveu o Barão no livro de notas da sua família e amigos:

“Meu dedicado amigo e noivo da minha afilhada, filha de Joaquim Borges. Faleceu em 1° de junho de 1899, muito moço. Era talvez o meu melhor amigo do Tucano. Vitimou-o a febre biliosa.”

Lidar com história, sobretudo no sertão, é conviver constantemente com os rastros deixados por pessoas que há muito partiram. Cartas, inventários, fotografias e relatos preservam fragmentos de existências interrompidas pelo tempo, mas ainda capazes de despertar sentimentos profundamente humanos. Talvez por isso, quem trabalha com memória acabe desenvolvendo uma percepção distinta acerca da morte e da permanência.

Quem sabe Carlos Drummond tivesse razão ao sugerir no poema Os Mortos de Sobrecasaca, que aqueles que partiram nunca desaparecem por completo; como se observassem silenciosamente o mundo dos vivos, eles sempre estarão presentes enquanto houver quem lhes preserve a memória. O historiador encontra essa mesma permanência em suas fontes. Neste sentido, uma carta escrita há mais de um século por um pai enlutado, ainda é capaz de devolver a voz a alguém cujo tempo parecia já ter calado.

Frequentemente me pego refletindo sobre a nossa breve passagem por este mundo e sobre aquilo que deixaremos para a posteridade. Mais cedo ou mais tarde, todos nós deixaremos este plano material e passaremos a existir apenas nas lembranças daqueles que permanecerem.

A carta de Quintino Galo é uma dura demonstração de como a vida pode ser cruel. Nela vemos a inversão da ordem natural das coisas. Um pai não deveria ter que enterrar um filho.

Esses exemplos nos lembram que a memória daqueles que se foram deve ser tratada com respeito. Provavelmente seja justamente essa a razão de preservarmos suas histórias: impedir que o tempo lhes imponha um segundo desaparecimento. E, enquanto forem lembrados, de alguma forma, a terra lhes será leve.

Drummond dizia que “amar o perdido, deixa confundido este coração” talvez este seja o paradigma do historiador que trabalha com documentos antigos como a carta em questão. Nós sabemos que jamais seremos capazes de captar o evento histórico em sua integralidade, tampouco os seus personagens humanos e subjetivos. Resta-nos dessa forma, o papel de interpretar os fragmentos, os silêncios e permitir que a existência dos nossos antepassados que há muito se foram continuem fazendo sentido para o presente.

Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto sustenta que a morte acompanha o sertanejo desde o nascimento: “Somos Muitos Severinos”, lembra. Para ele, a morte pode ser cotidiana, inevitável e, por vezes, até banal, mas ela nunca deixa de ser profundamente humana.

Talvez seja essa uma das mais belas tarefas do historiador: Impedir que o silencio seja definitivo. Nas fontes, aqui representadas por cartas, poemas e similares, permitimos que algumas vozes atravessem o tempo, vozes que seriam sumariamente esquecidas se não fossem objeto de interesse de alguém. Belchior fez uso de uma antiga expressão que tentava suavizar a dor da partida de um ente querido, Drummond mostrou que os mortos permanecem ao passo que são lembrados e Melo Neto nos lembrou que a morte caminha sempre ao lado do sertanejo. Na seara da interpretação, cabe ao historiador a tarefa de juntar esses fragmentos que resistiram ao tempo e apresentá-los ao tempo presente, afinal, enquanto houver um contador de histórias, aqueles que partiram continuarão, de algum modo, entre nós

Confira os demais texto da Edição nº 2 em: DOWNLOAD

Moisés Reis é correspondente Literária do Litoral Norte e Agreste Baiano. Professor da rede municipal de Fátima (BA), historiador e pesquisador do sertão nordestino. Mestre em Ensino de História (UFS), investiga escravidão sertaneja, sociedade do couro, memória e cangaço. Autor de 8 livros, mantém o blog História do Sertão e integra a Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço.


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