Resenha de Sidney Summer originalmente publicado na Edição nº 2 da Revista Foro Literário, em setembro de 2026
Se o sertão, como ensinou Guimarães Rosa, “é dentro da gente”, Rosana Carvalho Paiva o escava até encontrar as camadas mais toscas e tóxicas, do afeto ao poder. Em Fugas (Urutau, 2025), a autora soteropolitana radicada na Catalunha não localiza o sertão no mapa, mas na aspereza das relações humanas quando o que resta é o puro instinto de escapar. O título opera em duas vias: a fuga de algo (da violência, da humilhação, da rejeição) e a fuga para algo (para o delírio, para a mentira, para um novo eu). A coletânea de contos, assim, performa o que Deleuze e Guattari chamariam de um devir-menor da literatura brasileira: desterritorializando a linguagem para expor as linhas de força que aprisionam o corpo e o desejo no cotidiano de um país que insiste em normalizar o insuportável.
A geografia ficcional de Rosana Paiva é um Sertão filosófico povoado por olhos que vigiam (“de serpente, de raposa ou de doninha”), por pastores que berram expulsando demônios em redes sociais e por professores que urinam em cestos de papel enquanto dão aula. É o que Michel Foucault, em Vigiar e Punir, descreveria como uma microfísica do poder: as violências não vêm apenas do Estado ou da grande propriedade, mas do colega que ignora seu cumprimento (“A Rejeição primordial”), da amiga que entoa um cântico de inveja (“Justiça para Melina Rufina”) ou do homem com dupla personalidade que espreita debaixo da cama (“Esboço de um passado”). Não há grandes tiranos em Fugas, mas pequenos carrascos cotidianos, e isso é muito mais assustador.
A grande contribuição do livro para a interpretação do sertão contemporâneo está em sua aposta no corpo como último território. Em “Sabañones”, o diagnóstico médico (“Isto são sabañones”) e a gargalhada que se segue à paciente brasileira não são um mero preconceito, são um ato de interdição epistêmica, uma violência que nega a experiência da mulher e a reduz a um caso folclórico. A cena ecoa a crítica de Judith Butler sobre a precariedade dos corpos. Quem tem autoridade para nomear a dor? Quem é ouvido quando fala de seu próprio sofrimento? A mão inchada da protagonista é a mão do trabalhador invisível, da imigrante, da mulher, uma mão que a medicina e o riso colonial recusam tocar. Em um país onde o corpo do pobre, da mulher e do nordestino é historicamente tratado como descartável, Paiva devolve a esses corpos uma voz que range, coça, sangra e, acima de tudo, recusa-se a desaparecer em silêncio.

Em “Educação Física”, texto que me chama bastante atenção, a narrativa em primeira pessoa (um dos raros momentos de voz infantil) aborda o abuso com uma potência extraordinariamente contida. A “neblina marrom” que cobre a memória da menina é o que a psicanálise chama de trauma, um buraco no tecido da experiência. A saída para a personagem não é a denúncia heroica (o professor simplesmente some), mas uma fuga menor, quase insignificante: ser a “Indiana Jones de saia”. A obra parece dialogar com D. W. Winnicott, para quem a criatividade e o brincar são as únicas defesas contra um ambiente que não acolhe. O Sertão de Paiva é um ambiente falho, e a fuga, mesmo que seja para o delírio compartilhado de um filho-rato ou para uma votação absurda sobre com quem ficar, é uma estratégia de sobrevivência do si-mesmo diante da aniquilação. Não se foge por covardia, foge-se porque o chão sob os pés é armadilha.
O conto que ecoa como manifesto, “A Amazônia é uma mentira”, serve de abertura e chave de leitura. A mentira, aqui, não é falsidade moral, mas aquilo que permite seguir. A narradora que se deita na rede e ouve os rituais de expulsão do diabo escolhe uma fuga ativa: a recusa em se deixar capturar pela histeria alheia. É uma atitude estoica, mas também uma resposta direta ao autoritarismo social que exige performance, produtividade e adesão incondicional a um modo de vida. A mentira não é o oposto da verdade, é a condição para suportá-la.
Li Fugas, feliz a cada linha, por descobrir o desconforto que o livro me causava. Fugas é um livro para ser gostado? Talvez não, mas com toda certeza é um livro para ser lido e, porventura, suportado. E é exatamente aqui que reside sua grandeza. Rosana Carvalho faz algo precioso para a literatura brasileira contemporânea, ela escreve sobre violência sem estetizá-la, sem torná-la espetáculo, mas também sem alívio catártico. Não há redenção no final dos contos. O professor abusador não é preso, a mulher humilhada na clínica não tem sua dor validada, a rejeição não se transforma em vingança gloriosa. Há apenas a fuga, e a fuga, nos contos de Paiva, nunca é triunfante, é sempre teimosa. Ela é o ato mínimo de quem se recusa a aplaudir o próprio cárcere. E isso, neste momento histórico, é um ato político de primeira grandeza. O livro me pareceu, ao final, menos uma coleção de histórias do que um gesto, fruto das reminiscências de uma autora que olha para o sertão que carregamos dentro, feito de humilhações pequenas e grandes dores, e diz: “não precisa doer sempre do mesmo jeito”. Mas dói. Seja apenas uma neblina marrom, um filho-rato ou uma vitória patética como ser a Indiana Jones de saia.
Livro disponível para compra em: https://editoraurutau.com/titulo/fugas
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Sidney Summers é correspondente literário Metropolitano de Salvador; professor em Salvador (BA), autor de Lodo, Escombro, Seriam os vermes em meu cérebro e Manual prático de geomancia. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais.

