© Renato Parada

Em entrevista à Cristian Sales para a Revista Foro Literário, Calila das Mercês revisita os caminhos de seu romance de estreia e afirma uma escrita em que memória e alegria recusam a dor como único destino.

A literatura de Calila das Mercês nasce do encontro entre territórios que frequentemente são pensados como separados: o Recôncavo e o sertão, a pesquisa e a criação literária, a memória e a invenção. Em vez de estabelecer fronteiras entre esses espaços, sua escrita faz deles lugares de passagem. É justamente essa recusa das divisões rígidas que atravessa o romance Nódoa e a conversa que segue. Ponto a ponto, sua escrita se constrói na confluência profunda entre a poesia e a prosa, entre as histórias registradas oficialmente e aquelas que sobreviveram apenas na memória, na oralidade e nos gestos cotidianos. A grande marca desse projeto estético é, justamente, a capacidade de fazer com que os saberes e os afetos operem de modo implícito no tecido narrativo, transformando a linguagem literária em alta voltagem poética e ficcional. É a partir desse amálgama que seu romance nasce, guiado por um encontro sensível e interessado em compreender como as vidas são atravessadas pela história, tentando manter essas dimensões em diálogo, “sem desconsiderar a beleza da linguagem e o compromisso pessoal com o sonho, a alegria e a liberdade”.

Para compreender essa articulação, cabe notar que Calila é doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e realizou estágio de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) — sob a supervisão de Conceição Evaristo —, consolidando um percurso no qual a produção crítica e a criação literária caminham lado a lado. Sua tese de doutorado, Movimentos e (re)mapeamentos de mulheres negras na literatura brasileira contemporânea (2021), não se coloca como um registro acadêmico apartado de sua arte; ao contrário, funciona como uma cartografia mesclando múltiplas referências de autoria feminina que alimenta diretamente sua ficção. Pesquisa e criação se costuram, portanto, no esforço contínuo de interrogar os modos de narrar a experiência negra, recusando-se a reduzi-la às lógicas da violência ou do soterramento histórico.

Esse processo estimula uma reflexão profunda sobre os próprios instrumentos da escrita — tanto a crítica quanto a literária —, em que o ato de interrogar-se a si mesma se confunde com o próprio gesto criativo. Considerando a abrangência de sua atuação, essa postura intelectual exige manter a agudeza analítica e saber lidar com a transitoriedade, costurando saberes que operam de modo subentendido na malha textual. Por meio desse ferro em brasa, há um aparente distanciamento da obra literária daquilo que seria mera reprodução imediata do cotidiano. Em vez disso, Calila emerge como possuidora de uma voz singular, capaz de ditar direcionamentos entre quebras e rupturas que interferem significativamente nas escolhas e nas preferências do público leitor.

Atualmente, sua produção reúne os livros Notas de um interior circundante e outros afetos (Padê Editorial, 2019), Planta Oração (2022), livro de contos semifinalista do Prêmio Jabuti, e, agora, Nódoa (Companhia das Letras, 2026), seu romance de estreia. Muito antes de iniciar a prosa longa, sua poesia já anunciou os caminhos que a escrita percorreria. Em Notas de um interior circundante e outros afetos, a autora escreve:

“não é só sobre mim, é sobre os meus que nem conheço tanto assim mas que são consanguíneos aqui onde está aterrada sabedoria onde suor e sangue molharam a terra e construíram tudo”.

Esses versos parecem condensar um dos núcleos de Nódoa: escrever nunca é apenas falar de si. É aproximar-se daqueles cujas histórias foram interrompidas, dispersas ou silenciadas; é construir uma memória que ultrapassa os limites da genealogia familiar para alcançar uma comunidade de experiências compartilhadas. Em Calila, a literatura transforma-se e traça rumos. As histórias passam a existir não porque tenham sido registradas em documentos oficiais, mas porque permanecem inscritas na linguagem, nos afetos, nos deslocamentos e nas relações que atravessam gerações. Alicerçado nessa imaginação formuladora de hipóteses, o movimento de escrever e reescrever se estabelece como um verdadeiro jogo de composição de modo bastante singular. A autora utiliza fragmentos, trechos e restos para construir a obra, desmontando e reorganizando a realidade. Expande-se, assim, um certo gosto pela interrupção. Como consequência dessas propostas de criação, tem-se como resultado uma escrita atravessada pelo confronto produtivo dos elementos utilizados, aglutinando profundezas e poéticas diversas. As montagens talvez sirvam para proporcionar modos de compreensão acerca daquilo que está fora, mas também do que se instala dentro de nós costurado por um fio de náilon. Laço a laço!

Nódoa amplia essa poética da memória, salientando a particularidade de uma dimensão memorial elaborada poeticamente em um gênero que tem justamente no lembrado a matéria-prima para a composição estética. Escrito ao longo de viagens por diferentes cidades do Nordeste brasileiro — em ônibus, estradas, aeroportos, embarcações e moradias provisórias —, o romance incorpora o deslocamento não apenas como tema, mas como método de escrita. Sob uma visão sensível e poética, a obra apresenta uma engenhosa estrutura capitular e narrativa que desafia a ideia de uma única versão da história. “A história é sobre o nó que tem no nosso mundo, o nó do ar e do mundo todo”.

No coração do livro, a narrativa é conduzida por duas vozes principais: Regina, que sobrevive a um impressionante quadro de catalepsia e acorda no necrotério graças à lembrança de um nó de ar rente ao nariz, e sua irmã Lurdes Maria (Lurdinha), com quem partilha um complexo e tenso vínculo fraternal. Nesse interior de mundo bastante particular ambientado nos anos 1960, elas fazem parte de uma família unida por laços que extrapolam a consanguinidade, profundamente marcados por afeto, cuidado e tradições.

As várias mulheres que povoam essas páginas estão em constante deslocamento, em travessias que as põem diante do custo das partidas, da expectativa das chegadas e dos mais variados desafios de ser uma mulher migrante. A personificação máxima desse movimento é Dona América, figura misteriosa e mítica, cuja trajetória funciona como o fio que conecta todas as demais personagens — inclusive Eulália Ramos, que surgirá décadas depois como artista plástica em São Paulo.

Nessa ficção inaugural, Calila das Mercês constrói um palimpsesto de histórias femininas que se entrelaçam ao longo de gerações. Em uma prosa que explora a forma e a própria materialidade da escrita, coexistem vozes, tempos e registros distintos, como notícias, lembranças, relatos orais, cartas, fragmentos de caderno e as legendas de uma exposição de arte contemporânea. Por meio desta intrincada trama subterrânea, o livro desperta uma reflexão profunda a respeito de como são feitos os nós que nos unem, nos sustentam e nos mantêm vivos ao longo do tempo.

Como bem define o escritor Mia Couto, “Calila das Mercês vem da poesia. E a poesia nasce dela. Nódoa é feito de pano, de nós, agulhas e linhas que se costuram alfabeticamente, um relato de rendas e remendos para consertar o rasgão sempre mal-acabado entre a vida e a morte”. É um livro de sobrevivências onde, como aponta Geni Núñez, “a trama, tão sensível quanto firme, ata, desata e fabula memórias singulares e coletivas”. Nela, “uma mulher acorda dentro da própria morte. É aí que a vida começa a exigir explicações”, resume Kalaf Epalanga.

Afinal, o arquivo de Nódoa não é cartorial; ele reside no corpo, no cheiro do Umbuzeiro e do mandacaru, nos carimbos que marcam a pele e na saliva usada pelas lavadeiras para umedecer a roupa antes de passar com o ferro de brasa. Essa recuperação histórica, contudo, recusa categoricamente o fetiche do sofrimento. Uma das passagens mais vibrantes da narrativa se dá quando Regina reivindica o seu direito ao desejo, ao delírio estético e à alacridade. Entre o “nó do ar” e a “ressurreição no asfalto”, o ciclo de começos e recomeços se completa não por uma referência mágica, mas pela força subterrânea de uma genealogia de mulheres que aprenderam que “escrever é também construir formas de memória”.

É por isso que, ao longo desta entrevista concedida à Revista Foro Literário, a escritora baiana Calila das Mercês revisita sua formação intelectual, discute os caminhos que a conduziram da poesia ao romance, comenta os bastidores da escrita de Nódoa e reflete sobre os desafios enfrentados por escritoras negras no mercado editorial brasileiro. Mas a conversa vai além do lançamento de um livro. Ela oferece uma reflexão consistente sobre memória, migração, arquivos, relações entre mulheres e liberdade estética, recusando a expectativa de que a literatura produzida por mulheres negras deva permanecer circunscrita à denúncia da violência.

Talvez um dos momentos mais reveladores da entrevista seja quando a autora afirma que gostaria de ser mais perguntada sobre a alegria. A observação desloca uma expectativa recorrente dirigida à literatura negra contemporânea pelos críticos literários mais tradicionais. Sem negar as marcas da história, Calila reivindica o direito ao humor, ao desejo, à ternura, ao amor, à experimentação e à imaginação como dimensões igualmente constitutivas da experiência negra. Trata-se de uma defesa radical da liberdade criativa, da recusa de qualquer enquadramento temático e da afirmação da literatura como espaço de invenção de futuros.

É justamente nessa perspectiva que esta conversa se torna especialmente significativa. Mais do que apresentar Nódoa, ela permite acompanhar a construção de um projeto literário comprometido com a complexidade da existência, com a pluralidade das formas novas e com a convicção de que escrever também é inventar permanências. Como afirma a própria Calila, trata-se de aprender “a saber fazer um nó ou uma nódoa para recomeçar”. Se “só sabe fazer um nó bom quem consegue desatar”, escrever contra o soterramento é usar a escrita como o ferro de brasa que fixa na fibra da linguagem a nódoa viva da memória — resgatando o que veio ao mundo manchado, encardido ou desbotado, para devolvê-lo à história quarado, engomado e refeito.

1. Você transita entre diferentes campos da escrita: poesia, jornalismo, pesquisa acadêmica e agora o romance. Como essas experiências dialogam entre si na sua formação como escritora?

Nunca vivi essas experiências como campos separados, até porque a ideia de campo tem lá suas porosidades. A poesia é o que primeiro chegou e me ensinou a escutar o silêncio e os detalhes, a compreender que aquilo que não é dito também produz sentido, a olhar as pequenezas grandiosas. O jornalismo me ensinou a responsabilidade com a escuta do outro e com a realidade, trouxe a experiência ética de apurar. E a pesquisa acadêmica me ofereceu ferramentas e recursos preciosos para pensar criticamente as estruturas que organizam este mundo e a compreender preciosos fundamentos e tecnologias que não são vistos como norma. A minha escrita, neste caso, o romance nasce desse encontro sensível e interessado em compreender como as vidas são atravessadas pela história. Escrevo tentando manter essas dimensões em diálogo, sem desconsiderar a beleza da linguagem e o compromisso pessoal com o sonho, a alegria e a liberdade.

2. Como a Bahia aparece na sua formação estética e intelectual?

A Bahia não é apenas o lugar onde nasci, é um jeito de perceber o mundo. Cresci no interior, no Recôncavo, região marcada pelas memórias da independência do país e, ao mesmo tempo, pelos plantios, pelas tradições afro-brasileiras, pela oralidade, pela presença de mulheres que sustentavam famílias inteiras sem que seus nomes fossem registrados pela história. O samba de roda, o reggae, o forró, as novenas, as tantas festas religiosas e profanas, as rodas de capoeira, nasci em um lugar que se chamava Vila de Berimbau, onde passam dois rios, duas BRs, e isso tudo está aqui pulsando. Ao mesmo tempo, cresci numa casa onde a corporeidade e a nutrição também é sertaneja. Minha mãe é sertaneja. E é encruzilhada temporal e geográfica que me faço gente.

Minha formação intelectual nasce neste território e também é migrante. Antes da universidade, já existiam bibliotecas vivas feita pelas conversas das mais velhas, pelas rezas, pelas festas populares, pelos modos de contar histórias… Digo que Sertão e Recôncavo são minhas escolas primordiais. As universidades ampliaram o repertório, mas nunca substituíram essas primeiras formas de conhecimento. E migrar é outra longa história.

3. Você se reconhece em uma tradição de escritoras negras brasileiras? Quais autoras considera fundamentais para sua trajetória?

Reconheço-me como parte de uma tradição construída por mulheres negras que escreveram apesar de inúmeras formas de silenciamento e de tentativas de cerceamento dos nossos movimentos. Agora, quando me pergunta, eu penso em Carolina Maria de Jesus, Mãe Stella, Aline França, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Ana Maria Gonçalves, Geni Guimarães, Cidinha da Silva, Rita Santana, Lívia Natália… dos povos originários, tem Graça Graúna, Geni Núñez… E tem muito mais autoras que me inspiram e se tivesse mais tempo poderia ficar horas citando. E também de diferentes partes do mundo que me acompanham, assim como intelectuais e pesquisadoras. O que me aproxima delas não é apenas um tema comum ou a nossa epiderme, mas os seus respectivos e diferentes trabalhos com a linguagem que não abre mão da complexidade das experiências de pessoas negras. Nem sempre concordamos, nem sempre pensamos pelo mesmo prisma, e isso é maravilhoso e me anima a seguir aprendendo e trançando pensamentos.  

4. Você já possui uma trajetória consolidada como poeta. O que a levou a escrever um romance e o que a prosa permitiu dizer que a poesia talvez não permitisse?

Eu tenho pensado que a poesia é onde eu tento ser suficiente para mim. Mas algumas narrativas foram exigindo outra respiração, um espaço em que a materialidade das palavras, das linhas e estrofes têm alguns limites. Daí as vozes foram chegando, personagens que queriam permanecer mais nas páginas, estabelecer relações, construir camadas narrativas mais extensas.

A prosa, em especial o romance, me permitiu acompanhar os deslocamentos dessas pessoas e desses espaços, ao longo dos anos, construir genealogias, explorar o tempo narrativo de uma forma que a poesia, pela própria natureza de condensação, nem sempre permite. Ainda assim, acredito que Nódoa, por exemplo, continua sendo atravessado por uma linguagem poética… 

5. Como nasceu o romance Nódoa?

Nódoa nasceu muito antes de eu escrever a primeira frase. É um livro sobre deslocamentos, escrito em movimento. Grande parte do romance foi escrita durante viagens, em ônibus, estradas, hotéis, aeroportos, voos, beiras e dentro de rios, embarcações e moradias provisórias. A experiência do movimento acabou se tornando não apenas um tema da narrativa, mas uma condição da própria escrita.

Nos últimos anos viajei intensamente por diferentes cidades de oito estados do Nordeste, além de percorrer outros territórios do país e em outros. Muitos desses lugares atravessam o romance como paisagens que convocaram a imaginação. O livro nasceu de uma pesquisa que me acompanha há muitos anos sobre migração, deslocamentos e as transformações produzidas pelos fluxos, mais especificamente dentro do Brasil. Ao longo desse percurso, fui me interessando menos por trajetórias consideradas exemplares e mais pelas existências improváveis, pelos encontros inesperados, “impossíveis”, pelas vidas que poderiam nunca ter se cruzado… 

6. O título Nódoa evoca aquilo que mancha e marca. O que representa essa “nódoa” para você e para as personagens do romance?

A nódoa é uma marca, mas nem toda marca é uma ferida ou uma mancha, embora também possa ser. Nódoa tem uma vastidão de sentidos, porque nela está contida memória, herança, afeto, pertencimento, insistência, mudança. A nódoa é a prova mais latente de que não temos o controle do que fica, do que sai, é um convite a olhar os movimentos próprios e alheios com generosidade. Muitas vezes tentamos apagar determinadas marcas porque fomos ensinadas a considerá-las vergonhosas. O romance pergunta justamente o contrário, o que acontece quando olhamos demoradamente para essas marcas? O que elas contam sobre quem fomos e quem nos tornamos? Como seguiremos com elas? As personagens convivem com nódoas diferentes, algumas íntimas, outras coletivas e de alguma maneira todas aprendem que apagar nem sempre significa curar. 

7. Regina e Lurdes Maria compartilham uma relação profunda, marcada por afeto, cuidado e tensão. Como essas personagens foram sendo construídas e o que essa relação permite pensar sobre os vínculos entre mulheres?

Sempre me interessou escrever relações entre mulheres para além da idealização. Mulheres também discordam, erram, silenciam, reproduzem deslealdades e violências, projetam expectativas umas nas outras. Ainda assim, constroem formas de cuidado, cada uma ao seu próprio modo.

Regina e Lurdes Maria são meio-irmãs, foram se relacionando a partir de premissas. Como disse, não queria personagens super exemplares, que irão vencer, e tenho dito isso, na verdade, acho que a insurgência está bem presente. A natureza, a biointeração me ensina muito sobre insurgência. A relação entre estas irmãs me mostra que o amor também é feito de conflitos, de diferenças geracionais e de tentativas de permanecer, apesar de.

8. As mulheres de Nódoa estão constantemente em travessia, entre partidas, retornos e recomeços. O que a experiência do deslocamento revela sobre as formas de pertencimento e sobrevivência dessas personagens?

O deslocamento é uma experiência central na história brasileira. Muitas vezes migrar não é uma escolha, mas uma estratégia de sobrevivência. Tanta gente que precisou ir de um bairro para outro, da zona rural para a cidade e vice-versa, de uma cidade para a outra, estado, país… E o país traz consigo esta história marcada por acolhimentos e dispersões, e muitas perguntas sobre quem pode se movimentar, afinal? Quem pode escolher se mudar com qualidade de moradia e dignidade? 

As personagens carregam consigo esse movimento. Elas mudam de cidade, de casa, de país, mas descobrem que pertencimento não depende apenas do lugar físico e de raízes consanguíneas. Ele também é construído pelas memórias, pelos afetos, pela língua, pelas pessoas que encontramos, pelos ‘milagres’, desencontros, cadernos, palavras…

9. Podemos pensar Dona América como uma espécie de ancestral que conecta diferentes tempos da narrativa? De que maneira essa personagem lança luz sobre mulheres que permaneceram invisibilizadas pelos registros oficiais da história?

Dona América ocupa um lugar muito especial na narrativa. Ela representa aquelas mulheres que sustentaram famílias, mas não somente financeiramente, sabe, mas mulheres que produziram conhecimento, organizaram comunidades e, ainda assim, permaneceram praticamente ausentes dos arquivos oficiais.

Interessa-me pensar que existem outras formas de arquivo, os objetos, os gestos repetidos entre gerações, as receitas, as histórias contadas oralmente, os cadernos, as cartas. Dona América ajuda a lembrar que nem toda história foi escrita e talvez nem seja, mas isso não significa que ela deixou de existir. 

10. O romance reúne cartas, lembranças, relatos orais, fragmentos de caderno e outros registros. Como surgiu essa arquitetura narrativa e o que essa multiplicidade de vozes permite contar?

Sempre desconfiei da ideia de uma única voz capaz de explicar uma família ou uma história. A memória nunca chega inteira, ela é cheia de quebras, fissuras, versões, esquecimentos. A estrutura de Nódoa tenta respeitar esse funcionamento da memória, com fragmentos. As diferentes formas narrativas produzem aproximações diversas da verdade. Não existe um documento definitivo, existem camadas que se complementam e, às vezes, se contradizem.

11. Seu livro chega ao público em um momento de forte ebulição da literatura negra e feminina no Brasil. Como você enxerga o papel de redes de apoio, coletivos literários e feiras independentes na pavimentação do caminho para que narrativas como a de Nódoa alcancem as grandes editoras?

Nada disso começou agora. Existe uma longa história de mulheres negras construindo seus próprios espaços de circulação muito antes de serem reconhecidas pelo mercado editorial. Coletivos, clubes de leitura, feiras independentes, editoras pequenas, e movimentos culturais e sociais foram fundamentais para formar leitores, criar comunidades e sustentar escritoras quando as portas ainda estavam fechadas. E eu sou prova disso. Sendo uma autora nordestina, e essa marcação também é muito importante, primeiro fui publicada por iniciativas coletivas, como Profundanças, coordenado pela professora baiana e poeta, Daniela Galdino, por exemplo, e participei de saraus, de eventos mais intimistas, depois minha primeira publicação autoral individual é um livro cartoneiro, feito de papelão reaproveitado e papel que eu mesma comprei na fábrica e junto com tatiana nascimento aprendi a confeccionar na sua Padê Editorial, do Distrito Federal.  

O Planta Oração foi fruto de uma premiação do concurso ocorrido na pandemia, em que Marcelino Freire coordenou na altura e que com sua generosidade e parcerias fez acontecer. Então, eu fui encontrando as brechas para aparecer com o meu trabalho. E esta literatura que fazemos nunca deixou de existir e nem deixará, o que mudou foi a visibilidade e parte das condições de circulação.

Esse deslocamento evita reforçar a ideia de que a literatura produzida por mulheres negras é um fenômeno recente e está mais alinhado com sua pesquisa e sua atuação intelectual. O fato de hoje algumas autoras, e autoras negras, chegarem às grandes editoras é resultado desse trabalho coletivo, e não de somente uma concessão do mercado. Porque tem uma série de fatores que não adentram nas discussões públicas sobre a cadeia produtiva do livro, mas que no meu entendimento faz parte de uma compreensão maior. Tem as relações interpessoais, o pacto narcísico operando com seus reflexos de coronelismo, o racismo estrutural, quando você não é prioridade, mesmo você se destacando… e muita conversa.

Já havia um desejo de colegas migrantes e/ou negras que hoje atuam também no mercado editorial de trabalharmos juntas, daí confluímos em um momento muito delicado e importante para todas nós e fizemos acontecer este trabalho conjunto, com muitos corações desejosos para que Nódoa chegue perto de muitos outros.  

12. Que questões considera urgentes para a literatura produzida por mulheres negras hoje?

A principal urgência continua sendo garantir que possamos escrever com liberdade estética. Durante muito tempo esperou-se que mulheres negras escrevessem apenas determinados temas ou ocupassem certos lugares discursivos. Precisamos defender o direito à complexidade, à experimentação, ao humor, ao romance, ao fantástico, à ficção científica, à poesia, ao ensaio, a expressar a partir da inventividade o que quisermos. 

13. O que você espera que permaneça com o leitor depois da leitura de Nódoa?

Espero que permaneçam algumas perguntas em forma de nódoas. Se o romance conseguir fazer o leitor voltar para sua própria história com um olhar diferente, acredito que ele terá cumprido parte do seu caminho.

14. Existe alguma pergunta que ninguém lhe fez sobre o livro e que você gostaria de responder?

Gostaria que me perguntassem sobre a alegria. Alacridade, algo que tenho buscado como direito, como premissa de vida. Embora Nódoa atravesse temas difíceis, ele também é um romance sobre ternura, amizade, desejo, aprendizagem, humor e o campo das artes. Muitas vezes a literatura produzida por pessoas negras é lida apenas pelo prisma da dor, da luta. Eu gostaria que também fosse percebida pela capacidade de imaginar futuros, produzir beleza, afirmar a vida e o desejo. É um livro com cheiros, com cores, olha essa capa! Cinthia Marcelle, uma das mais respeitadas artistas brasileiras contemporâneas, produziu especialmente para este livro. E os carimbos que ela faz, fazem marcas, algumas profundas, outras nem tanto, e estas marcas se misturam, assim como as da vida… 

15. Para encerrarmos: se você pudesse resumir Nódoa em uma única imagem, cena ou lembrança, qual seria e por quê?

A imagem de uma mulher assinando o próprio nome em um papel ou numa obra de arte. Mesmo se um dia a assinatura apagar, aquela marca da caneta, do lápis fica ali, como um carimbo, provando que algumas marcas nunca desaparecerão completamente, mesmo que tentem. E ainda que ela apague e resolva escrever outras coisas, não é para esconder as marcas do que foi escrito antes, mas para que o que decidiu inserir possa fazer parte de outras histórias. Talvez seja isso que Nódoa procura fazer, transformar as marcas que herdamos em mais possibilidades de permanência, de começo, meio, começo. E, de saber fazer um nó ou uma nódoa para recomeçar.

Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.

Crédito imagem: Calila das Merces por Renato Parada


Uma resposta para “Escrever é o nó que amarra o tempo”

  1. […] Escrever é o nó que amarra o tempo. Revista Foro Literário, 21 ago. 2026. Disponível em: https://revistaforoliterario.com/2026/08/21/escrever-e-o-no-que-amarra-o-tempo/. Acesso em: 10 set. […]

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