Em entrevista ao Luvas Novaes para a Revista Foro Literário, Ester Figueiredo aborda o trabalho do Studio Palma na inserção de autores baianos em circuitos editoriais de maior alcance.
Em um cenário editorial marcado por desafios de circulação das obras e ampliação da visibilidade dos autores, iniciativas de curadoria literária têm se tornado fundamentais para aproximar escritores, leitores e mercado. É nesse contexto que o Studio Palma se consolida como uma das experiências mais relevantes da literatura baiana contemporânea, atuando como agência literária e editora, além de desenvolver projetos voltados à gestão de carreiras, à formação de catálogos e à inserção de autores em feiras, bienais e outros espaços de projeção nacional, a exemplo de sua presença de destaque na Bienal do Livro Bahia 2026, que reforçou o protagonismo da literatura produzida no interior da Bahia.
À frente do Studio, Ester Figueiredo reúne uma longa trajetória ligada ao livro, à leitura e ao ensino, hoje dedicada ao trabalho de curadoria e agenciamento literário. Em entrevista concedida a Lucas Novaes para a revista Foro Literário, Ester Figueiredo discute a importância das agências para a profissionalização do segmento, o fortalecimento da produção regional — especialmente da escrita feminina —, os desafios do mercado editorial e as estratégias adotadas para ampliar a presença da literatura do interior da Bahia no panorama cultural brasileiro.
Ester, antes de começarmos, poderia responder a uma pergunta, a um tempo, simples e complexa: Quem é Ester Figueiredo?
Sou Ester Figueiredo, nome herdado de família, de avó e tia. Sou professora, bibliotecária e agente literária. Exerci a docência universitária nos cursos de Letras e Pedagogia por mais de 30 anos, na graduação e na pós-graduação. Hoje, atuo no mercado editorial com essas experiências profissionais, como escritora, editora, curadora e agente literária. Serei, sempre, uma leitora em formação.
Conte-nos um pouco sobre sua relação pessoal com o mundo literário. Como sua trajetória individual culminou na criação do Studio Palma e qual é a alma por trás dessa iniciativa?
O “mundo literário” chega “de ouvido”, ainda nas infâncias do sertão da Bahia, nas contações de histórias e “causos”. Não posso deixar de reconhecer que livro, nas décadas de 70 e 80, era objeto raro nas cidadezinhas do interior e, por isso, as primeiras leituras foram os livros escolares, que chegavam em formatos de antologias de clássicos brasileiros e universais. A família, sempre zelosa, buscava diversificar os objetos de leitura e, vez ou outra, um novo livro chegava como presente de uma viagem ou em datas especiais. Na juventude, já morando em uma cidade com livrarias e biblioteca pública, ampliaram-se as práticas de leitura, e continuei, com a experiência profissional docente, no final dos anos 80, a desenvolver projetos de formação leitora e produção escrita acadêmica e literária. No início dos anos 2000, como gestora pública na educação municipal, criamos uma editora municipal que, infelizmente, não teve continuidade. Finda essa trajetória na docência e na gestão pública, iniciei a transição de carreira, não como algo novo, mas como um continuum dessa experiência. Nos anos 2020, foi criado o Studio Palma, como saldo dessas experiências.
O Studio Palma foi criado para atuar no mercado editorial baiano, como editora e agência literária. Com cinco anos de atuação, já apresenta o saldo de ter inaugurado o agenciamento literário na Bahia e em outros estados do Brasil, sendo reconhecido no campo da curadoria literária e, mais recentemente, como catálogo editorial, por meio das Edições Palma. Temos o compromisso de abrir frentes para a inserção da obra e do autor.
Qual é o propósito central do Studio Palma? Como você define a missão do Studio dentro do ecossistema criativo de Vitória da Conquista?
Vitória da Conquista ainda possui uma publicação endógena, mesmo com qualificada produção literária. A publicação independente é a prática adotada, o que compromete o registro e a circulação da obra no mercado editorial. Como atuamos, também, na região Sudoeste da Bahia, o Studio Palma já promoveu gestão de carreira literária, festas e feiras literárias, além de consultoria editorial. Nosso princípio é o de profissionalizar esse segmento, para direcionar a relação escritor/livro/mercado como uma tríade de geração de sustentabilidade da economia do livro e da carreira do escritor.

Qual a importância de iniciativas como o Studio Palma para o fortalecimento da literatura local e regional? Especialmente no que diz respeito à escrita feminina e à produção baiana, como o Studio atua para romper as barreiras sociais e/ou geográficas (do eixo Sul-Sudeste)?
As atividades do Studio Palma, tanto para participação em feiras e bienais do livro nacionais quanto de natureza regional e local, oportunizam a presença do autor com bonificação de cotas, especialmente para a produção de literatura escrita por mulheres. Além dessa política de bonificação, atuamos na curadoria literária, destacando essa presença na programação de eventos e indicando o protagonismo de gêneros literários diversos. Uma de nossas estratégias é consorciar a produção mais regionalizada e local com editoras de outros eixos e estados, para ampliar a circulação e a divulgação do trabalho e da obra.
Na sua visão, o que a escrita produzida hoje no interior da Bahia traz de mais singular e urgente para o cenário nacional?
Além da atualidade e da ampliação da produção de escrita por mulheres, há obras que foram finalistas dos principais prêmios literários, como o Jabuti, na produção de Nélio Silzantov. Há também a produção de romances publicados por editoras reconhecidas do mercado editorial, como a Caravana e a Patuá, e a reedição de obras como Auto da Gamela, publicado pela Livraria José Olympio Editora, em 1980, de autoria de Carlos Jehovah e Esechias Araújo Lima. A obra tornou-se um marco na literatura regional, recebendo elogios de nomes consagrados como Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Destacamos ainda escritoras como Amélia Rodrigues, que fez o primeiro inventário da gastronomia conquistense, e Heleusa Câmara, com toda a sua produção de literatura feminina e prisional, além de sua mobilização pelo direito ao livro. Infelizmente, são escritoras póstumas que merecem a reedição de suas obras. Soma-se a isso a nova configuração das academias de letras de Vitória da Conquista e até mesmo da Brasileira, com a inserção de escritoras, poetas, romancistas e contistas.
Há um movimento de publicação colaborativa, por meio de antologias, e destacam-se também produções de neoescritores, jovens estudantes que apresentam um estilo com profunda marca de oralidade e expressões musicais.
As singularidades de um lugar, em seu tempo, valorizam a produção nacional. Ela não se restringe ao tempo e ao espaço local.
Por que a Bienal do Livro Bahia foi escolhida como o palco para o lançamento dos novos autores do Studio? O que representa para um autor independente ou de uma editora regional ocupar um espaço de tamanha visibilidade?
O Studio Palma já esteve presente em outras bienais: Rio, São Paulo e Recife, além da Bahia. Na Bienal Bahia, já participamos de duas edições, depois de sua retomada: a de 2024 e a de 2026. A Bienal é um mercado do livro; só para entrar e participar da sua programação, há um investimento de ingresso em torno de 30 reais por dia. É um evento projetado para os grandes grupos editoriais, e as editoras e escritores independentes precisam de iniciativas como a do Studio Palma para inserir a sua obra. A presença do autor envolve planejamento anterior ao evento e durante ele, pois as oportunidades de encontro se acumulam, uma vez que as bienais e outros eventos de grande porte agregam diferentes profissionais do setor: editoras, editores, agentes, designers, distribuidores e livreiros, em diferentes formatos e gêneros literários.



Pode nos adiantar um pouco sobre o perfil dos autores e obras que o Studio Palma apresentou nesta edição da Bienal (2026)?
Nosso trabalho na Bienal Bahia envolveu participação individual, coletiva e institucional. Tivemos uma programação de mais de 60 horas ininterruptas de lançamentos, exposição e bate-papos pontuais do escritor com o público e com profissionais do mercado. Academias de Letras e coletivos literários participaram; instituições, como secretarias de Educação e Cultura, também adquiriram cota de participação. Essa diversidade de perfis acolheu a literatura nos gêneros poesia, romance, contos, crônicas e infantojuvenil, bem como produções técnico-científicas das áreas de Letras e Educação.
As pessoas ainda leem? Como é sua visão (ou sua expectativa) acerca do interesse do brasileiro pela leitura?
Sim, mudam-se as formas e os gestos de leitura, mas sempre há o leitor e seu livro, quer em ato solitário, como em uma pintura de leitura [a exemplo da pintura de] Almeida Júnior, [de] 1892, quer em clubes e coletivos do livro, quer na tela, quer no impresso.
Entre 2022 e 2024, os livros chegaram a registrar crescimento de dois dígitos (14,4% em alguns levantamentos, superando a inflação geral), alta que foi seguida por uma desaceleração em 2025. Que consequências tem esse aumento de custos no processo editorial e no trabalho do Studio e, consequentemente, no alcance das obras e a formação de novos leitores?
Nosso radar, enquanto profissionais do mercado editorial, é acompanhar tendências, perspectivas e cenários. Essa oscilação do mercado relaciona-se a outras linguagens de criação e divulgação do livro. Uma obra que se roteiriza para a linguagem audiovisual é mais “vendável”, entre aspas. Os comportamentos de introspecção, assimilados por contextos culturais e sociais, tendem a promover livros verbovisuais, ilustrados… Enfim, podemos acreditar em um boom, nos anos anteriores, dependendo de como consolidamos políticas de acesso ao livro e à leitura já existentes, ou podemos estagnar o que já temos. Cenário é movimento!
O que podemos esperar do Studio Palma após a Bienal? Quais são os próximos passos para consolidar ainda mais a presença da literatura conquistense no mapa da Bahia e do Brasil?
Projetamos dar continuidade à participação em eventos, mas não apostamos apenas nesse formato.
O Studio cria ou desenvolve projetos específicos para a recepção de originais? De que maneira o Studio coordena e conduz projetos voltados para linhas editoriais específicas (autorias, temas, gêneros literários etc.)?
Sim, temos um braço do Studio, as Edições Palma, que acolhe originais para avaliação.
Uma palavra que define o Studio Palma:
Curadoria literária
O livro que mudou sua forma de ver a Bahia:
O Arroz de Palma [do escritor e romancista Francisco Azevedo]. Inclusive, o nome da empresa remete a essa obra: Palma, nome feminino; palma, vegetação resistente; e palma da mão, como gesto de aplauso para a obra e sua criação.

Escrever é…:
Expor limites de criação da escrita e da linguagem.
Publicar no interior é…:
Revelar talentos e desafiar estruturas do mercado editorial.
Um(a) autor(a) baiano(a) indispensável:
Um póstumo, nascido na Bahia, Castro Alves, pela diversidade de gêneros da escrita, pela vida breve e vasta produção e pela atualidade da obra.
A primeira lembrança de impacto com a literatura:
As coleções de clássicos infantis
Papel ou digital?
Papel
O maior desafio de ser editora hoje:
A circulação do livro. Profissionais qualificados já são encontrados no mercado.
O que não pode faltar na mesa de trabalho de um autor do Studio?
Mais do que objetos da escrita, confiança e dedicação não podem faltar.
Um clássico que merece uma nova edição com o olhar de vocês:
Na Bahia, Auto da Gamela.
A Bienal do Livro em uma frase:
O maior mercado de livros do Nordeste.
Quem é a Ester leitora fora do Studio?
A leitora, mesmo, nas circunstâncias e demandas da vida privada.
O futuro da literatura em Vitória da Conquista é…
Extrair o diálogo com outras culturas da região, do local e do escrever.

Lucas Novaes é correspondente literário do Sudoeste Baiano. Professor de Língua Portuguesa formado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Tem contos e crônicas publicados em coletâneas. Seu primeiro livro, “O hoje não existe: crônicas sobre o ontem e o amanhã” (2024), foi publicado pela Caravana Grupo Editorial. Em 2025, a mesma editora publicou seu primeiro romance, “O diálogo dos sussurros“.

