Em entrevista à Cristian Sales para a Revista Foro Literário, o poeta fala sobre a trajetória que o levou de Santo Estêvão ao principal prêmio de poesia da ABL, além dos temas, imagens e inquietações que atravessam Noite Obscena.

A conquista do Prêmio Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras por Noite Obscena consagra uma trajetória literária construída com rigor estético, dedicação à linguagem e profundo compromisso com a poesia. Com efeito, o reconhecimento conferido pela principal instituição literária do país projeta nacionalmente uma voz que vem se afirmando como uma das mais expressivas da nova poesia brasileira produzida na Bahia.

Fabrício Oliveira é poeta e licenciado em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Nascido em Santo Estêvão, no interior da Bahia, em 21 de maio de 1996, publicou os livros Gramática das Pedras (2020) e Viração (2022), ambos pela Editora Patuá. Desde então, sua trajetória vem sendo marcada por importantes reconhecimentos nacionais: em 2022, recebeu a 30ª edição do Prêmio Moutonnée de Poesia e, em 2023, foi vencedor do Prêmio Nacional Cidade de Campos do Jordão. Agora, com Noite Obscena, alcança um novo marco em sua carreira ao receber o Prêmio Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras, distinção que reafirma a força de uma obra construída a partir da escuta atenta da linguagem, da memória e da experiência humana.

Vale ressaltar que parte importante desse percurso literário também passa pelo trabalho desenvolvido pela Editora Mondrongo, uma das mais relevantes editoras independentes da Bahia. Desde 2011, a Mondrongo vem construindo um catálogo comprometido com a diversidade da literatura brasileira contemporânea, apostando na publicação de autores e autoras que, muitas vezes, permanecem à margem dos grandes circuitos editoriais. Seu cuidadoso trabalho de edição, curadoria e difusão tem contribuído, por conseguinte, para ampliar a visibilidade de novas vozes da poesia e da ficção brasileiras, consolidando-se como um importante espaço de circulação da produção literária baiana e nacional. Nesse contexto, editoras como a Mondrongo desempenham papel fundamental na formação de leitores e na revelação de escritores como Fabrício Oliveira, cuja obra encontra nesses projetos editoriais independentes as condições necessárias para alcançar novos públicos e fortalecer sua presença no cenário literário brasileiro.

Em paralelo, a literatura de Fabrício Oliveira nasce do encontro entre a paisagem do interior baiano e uma intensa elaboração poética da experiência. Sua escrita transforma a memória rural, os afetos familiares, a observação da natureza e os dramas da existência em imagens de grande potência evocativa. Nas palavras do escritor Itamar Vieira Junior, em seus versos a paisagem camponesa se revela em toda a sua densidade imagética e sonora. Segundo Itamar, a poesia de Fabrício Oliveira brota do trabalho sobre a terra, do cotidiano sertanejo, das vozes ancestrais e das pequenas cenas da vida comum, fazendo surgir um universo povoado por “vivos e mortos, pássaros, plantas, rios, casas e lembranças”. É justamente dessa matéria profundamente enraizada na experiência sertaneja que Fabrício constrói uma poesia capaz de alcançar questões universais, transformando a terra, a chuva, a solidão e o milagre da vida em linguagem poética.

Essa relação entre pertencimento e interioridade permeia também Noite Obscena, livro que levou o autor ao reconhecimento da Academia Brasileira de Letras (ABL). Quarto livro de sua carreira, a obra apresenta ao leitor uma travessia pelas regiões mais íntimas da condição humana. A partir daí, desejo, ausência, memória, solidão, vulnerabilidade e finitude aparecem como temas centrais de uma escrita que transforma a noite em muito mais do que um cenário. Na verdade, ela se converte em estado de espírito, metáfora daquilo que permanece oculto, espaço de revelação e encontro com as zonas mais profundas do existir.

Desse modo, ao longo desta conversa, Fabrício Oliveira revisita seu percurso de formação, reflete sobre o processo de criação do livro premiado, comenta a construção de suas imagens poéticas e discute o lugar da poesia em um tempo marcado pela velocidade, pelo excesso de informações e pela busca incessante por respostas imediatas. Em contraposição a essa lógica, sua obra reivindica a permanência do mistério e da contemplação da palavra.

Uma das reflexões mais instigantes da entrevista surge quando o poeta afirma que “a poesia me interessa porque permite habitar essas perguntas sem reduzi-las a respostas simples”. A declaração sintetiza uma concepção de literatura que não pretende explicar o mundo, mas, sim, aprofundar nossa relação com ele. Afinal, em vez de certezas, o poema oferece experiência; em vez de respostas prontas, abre caminhos para novas formas de percepção.

Essa compreensão da poesia atravessa todo o universo de Noite Obscena. Ao comentar o sentido mais profundo do livro, Fabrício Oliveira oferece ao leitor uma chave preciosa de leitura ao afirmar que sua obra é “uma tentativa de escutar aquilo que permanece oculto sob a superfície das coisas e de encontrar alguma forma de luz no coração da escuridão”. É justamente nessa tensão entre sombra e revelação, entre presença e ausência, entre memória e esquecimento, que sua poesia encontra uma de suas expressões mais eloquentes.

Por conseguinte, mais do que apresentar um escritor premiado, esta entrevista revela um poeta atento aos mistérios da linguagem e da condição humana. Suas reflexões sobre a literatura, a criação artística e a experiência do mundo demonstram que a poesia continua sendo um espaço privilegiado para a escuta, para o pensamento e para o encontro com aquilo que, muitas vezes, permanece invisível no cotidiano.

Como uma flecha lançada sobre a paisagem, a escrita de Fabrício Oliveira articula território, memória e ancestralidade. Entre o Recôncavo Baiano e as águas do Rio Paraguaçu, seus versos constroem uma geografia poética em que a experiência do lugar se desdobra em elaboração estética, convertendo a paisagem em linguagem e a memória em matéria poética.

É a partir de toda essa jornada, simultaneamente íntima e universal, que Fabrício Oliveira convida seus leitores a percorrer a noite — não como ausência de luz, mas como território fértil de descoberta. Entre a sombra e a claridade, consolida-se a força de Noite Obscena e a relevância incontestável de uma voz poética que hoje ocupa lugar de destaque na literatura brasileira contemporânea.

Fabrício Oliveira / arquivo pessoal

1. Você recebeu o Prêmio Manuel Bandeira, da Academia Brasileira de Letras, por Noite Obscena. Como recebeu a notícia e o que esse reconhecimento representa para sua trajetória como poeta e para a circulação de sua obra?

– Recebi a notícia com uma mistura de espanto, alegria e gratidão. O Prêmio Manuel Bandeira, concedido pela Academia Brasileira de Letras a Noite Obscena, chegou para mim como a confirmação de um caminho construído com muito trabalho, leitura e dedicação à poesia. Saber que uma obra escolhida e votada pelos acadêmicos da ABL foi reconhecida dessa forma é uma honra imensa. Esse reconhecimento representa um marco em minha trajetória literária. Como poeta nascido em Santo Estêvão, no interior da Bahia, sinto que o prêmio não celebra apenas um livro, mas também a força da literatura produzida fora dos grandes centros. Espero que essa conquista amplie a circulação de Noite Obscena, alcance novos leitores e fortaleça ainda mais o diálogo da minha poesia com o público brasileiro.

2. Sua história de formação é marcada pela infância e juventude no campo, em Santo Estevão. De que maneira a geografia, o silêncio e a experiência rural continuam presentes em sua escrita e em sua percepção estética?

– A paisagem rural de Santo Estêvão continua sendo uma das matrizes mais profundas da minha escrita. Cresci cercado por rios, árvores, animais, estradas de terra e pelo ritmo próprio da vida no campo. Essa convivência me ensinou a observar os pequenos movimentos do mundo e a perceber que a natureza possui uma linguagem silenciosa, mas extremamente expressiva. O silêncio, em especial, foi uma grande escola. No campo, aprendemos a escutar o vento, a chuva, os pássaros, o crescimento das plantas e até mesmo aquilo que não possui voz. Creio que minha poesia nasce muito dessa escuta. Embora eu escreva sobre temas universais, a memória da paisagem rural continua presente nas imagens, nos símbolos e na forma como percebo a realidade. O campo me deu não apenas temas, mas um modo de olhar o mundo: com atenção, espanto e respeito pelo mistério das coisas.

3. Você costuma mencionar que começou a estudar para escapar do trabalho na roça e acabou encontrando na linguagem um caminho de vida. Em que momento a escrita deixou de ser um refúgio ou um exercício e passou a se tornar uma vocação inevitável?

– A escrita começou, de fato, como uma forma de ampliar meus horizontes. Eu estudava porque via na educação uma possibilidade de escapar das limitações impostas pela vida na roça. Mas, em algum momento, os livros deixaram de ser apenas uma porta de saída e passaram a ser uma forma de habitar o mundo.

A vocação surgiu quando percebi que a linguagem não servia apenas para comunicar, mas também para revelar. Havia experiências, memórias e inquietações que eu só conseguia compreender plenamente ao escrevê-las. Aos poucos, a literatura deixou de ser um exercício e passou a se tornar uma necessidade. Eu podia me afastar da escrita por alguns dias, mas ela nunca se afastava de mim. Hoje entendo que não escolhi inteiramente a literatura; em certa medida, ela também me escolheu. A escrita tornou-se o lugar onde consigo transformar a experiência vivida em significado onde a memória encontra forma e onde as perguntas mais profundas da existência podem permanecer abertas, respirando dentro das palavras.

4. Noite Obscena é seu quarto livro de poesia. Como você avalia o percurso e o amadurecimento técnico entre as suas primeiras publicações e este livro premiado pela ABL?

– Vejo Noite Obscena como o resultado de um processo de aprendizado que começou muito antes da sua escrita. Cada livro representou uma etapa importante da minha formação. Nos primeiros trabalhos, havia uma busca intensa por voz, por identidade e por domínio dos recursos da linguagem. Com o tempo, fui compreendendo melhor as possibilidades do poema, aprendendo a confiar mais na imagem, no silêncio e na força de sugestão das palavras. Do ponto de vista técnico, acredito que houve um amadurecimento na construção das imagens, no rigor da linguagem e na organização do livro como uma obra orgânica, em que os poemas dialogam entre si. Também me tornei mais consciente da importância da concisão e da precisão, buscando dizer mais com menos. Ao mesmo tempo, procuro preservar algo que estava presente desde os meus primeiros versos: o espanto diante do mundo. Se houve amadurecimento, ele não significou abandonar essa capacidade de assombro, mas encontrar formas mais consistentes e elaboradas de transformá-la em poesia. Receber o Prêmio Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras por Noite Obscena é uma alegria porque sinaliza que esse percurso de dedicação à literatura encontrou ressonância entre leitores e críticos.

5. O título do livro chama atenção pela força e pelo contraste de suas imagens. O que significa, afinal, a “noite obscena” que atravessa as páginas da obra?

– A “noite obscena” não se refere apenas à escuridão física, mas a uma dimensão mais profunda da experiência humana. É o território onde se revelam nossas fragilidades, nossos desejos, nossos medos e tudo aquilo que normalmente permanece escondido sob a superfície da vida cotidiana. O adjetivo “obscena” aparece justamente porque essa noite expõe o que muitas vezes preferimos não ver. No livro, a noite é também um espaço de revelação. É quando as máscaras caem, quando a memória ganha força e quando a solidão nos obriga a encarar perguntas essenciais sobre o tempo, a morte, o amor e a própria existência. Paradoxalmente, é nessa escuridão que surgem algumas das imagens mais luminosas da obra. Por isso, a “noite obscena” pode ser entendida como uma metáfora da condição humana: um lugar de sombra e mistério, mas também de descoberta. Ela representa aquilo que há de mais vulnerável e verdadeiro em nós, aquilo que, ao ser revelado, nos inquieta, mas também nos transforma.

6. Em sua apresentação, você afirma que a noite aparece não apenas como cenário, mas como um estado de espírito. Como essa atmosfera noturna e íntima foi sendo arquitetada durante o processo de escrita?

– A atmosfera de Noite Obscena não foi planejada de forma rígida desde o início. Ela surgiu gradualmente, à medida que os poemas iam revelando afinidades temáticas e emocionais. Percebi que muitas das imagens que me perseguiam estavam ligadas à noite, ao sonho, à memória, à solidão e àquilo que existe nas regiões menos iluminadas da experiência humana. A noite me interessa porque ela modifica nosso modo de perceber o mundo. Durante o dia, as coisas parecem mais definidas; à noite, elas ganham mistério, ambiguidade e profundidade. Esse estado de suspensão acabou se tornando um princípio de composição do livro. Procurei construir poemas em que a sombra não fosse apenas ausência de luz, mas um espaço de revelação. Ao longo do processo, fui organizando os textos de modo que dialogassem entre si, criando uma espécie de paisagem interior. Mais do que um cenário recorrente, a noite tornou-se uma sensibilidade, uma maneira de olhar. Ela representa o momento em que a memória fala mais alto, em que os fantasmas pessoais retornam e em que o ser humano se vê diante das perguntas que não podem ser respondidas de forma simples. Creio que é dessa tensão entre sombra e revelação que nasce a unidade do livro. Nesse percurso, foram fundamentais as leituras, os diálogos e o incentivo de pessoas que contribuíram decisivamente para minha formação literária. O poeta Roberval Pereyr teve uma importância singular ao me apresentar novas possibilidades da linguagem poética e ao demonstrar, por sua própria obra, o rigor e a seriedade que a literatura exige. Da mesma forma, o professor Gabriel Evangelista exerceu um papel importante em minha formação intelectual, estimulando a leitura crítica, a reflexão sobre a literatura e a busca constante por aperfeiçoamento. Ambos contribuíram, cada um à sua maneira, para ampliar minha compreensão da poesia e fortalecer minha caminhada como escritor.

7. Em sua apresentação, você afirma que o obsceno, no livro, não se refere apenas àquilo que provoca ou desafia convenções, mas à exposição sincera dos sentimentos, dos medos e das contradições humanas. Poderia desenvolver essa ideia e explicar como a poesia consegue dar forma a esse processo de desnudamento?

– Quando falo do obsceno em Noite Obscena, não estou me referindo apenas àquilo que transgrede normas sociais ou provoca escândalo. A palavra me interessa em um sentido mais profundo: como aquilo que é retirado do ocultamento e colocado diante dos nossos olhos. Nesse sentido, o obsceno é aquilo que se revela sem proteção, sem máscaras e sem os mecanismos que normalmente utilizamos para nos esconder de nós mesmos. A poesia possui uma capacidade singular de realizar esse desnudamento porque trabalha justamente com aquilo que muitas vezes escapa à linguagem cotidiana. Há medos, desejos, perdas e contradições que não conseguimos explicar racionalmente, mas que podem ser sugeridos por uma imagem, um ritmo ou uma metáfora. O poema não oferece respostas prontas; ele cria um espaço de encontro entre aquilo que somos e aquilo que tentamos ocultar. Em Noite Obscena, procurei explorar essa região de vulnerabilidade. Muitos poemas nascem do confronto com a memória, com a solidão, com a passagem do tempo e com a consciência da morte. São temas universais, mas que se manifestam de maneira profundamente íntima. A poesia me permitiu transformar essas experiências pessoais em algo compartilhável, capaz de encontrar eco na experiência de outros leitores. Talvez seja por isso que eu associe o obsceno à verdade humana. Não uma verdade absoluta ou definitiva, mas aquela que surge quando abandonamos as aparências e nos dispomos a encarar nossas fragilidades. A poesia é uma das formas mais belas de realizar esse gesto, porque não desnuda apenas o autor: ela também convida o leitor a reconhecer, em si mesmo, aquilo que permanece oculto.

8. A crítica de Antonio Carlos Secchin destaca um “vigoroso e original campo metafórico” em seus poemas. Como você trabalha a construção da imagem poética e qual o papel da metáfora na sua busca por dizer o indizível?

– Fiquei muito honrado com a leitura de Antonio Carlos Secchin. A observação sobre o campo metafórico toca justamente um aspecto central da minha concepção de poesia. Sempre acreditei que o poema não deve apenas descrever o mundo, mas recriá-lo. A imagem poética é uma forma de revelar relações invisíveis entre as coisas, aproximando realidades aparentemente distantes para produzir um novo modo de percepção. Meu processo de construção das imagens nasce, em grande parte, da observação. A infância no campo me ensinou a olhar demoradamente para as coisas: os rios, as árvores, os animais, as mudanças da luz, os ciclos da natureza. Com o tempo, percebi que cada elemento do mundo carrega uma dimensão simbólica capaz de ultrapassar sua existência concreta. É desse encontro entre experiência sensível e imaginação que surgem muitas das minhas metáforas. A metáfora me interessa porque ela permite dizer aquilo que não pode ser dito de maneira direta. Certas experiências humanas — o amor, a perda, a memória, a morte, o mistério da existência — resistem às explicações racionais. A imagem poética não resolve esse mistério, mas o torna visível. Quando digo, por exemplo, que “a lua é um fruto amadurecendo para a fome dos mortos”, não estou tentando explicar a lua ou a morte, mas criar um campo de significados capaz de aproximar o leitor de uma experiência que a linguagem comum dificilmente alcançaria. Creio que a poesia nasce justamente dessa tentativa de dar forma ao indizível. A metáfora funciona como uma ponte entre o visível e o invisível, entre aquilo que conhecemos e aquilo que apenas intuímos. Talvez por isso ela seja um dos instrumentos mais poderosos da poesia: não para encerrar sentidos, mas para abrir novas possibilidades de compreensão e espanto diante do mundo.

9. Em Noite Obscena, aparecem temas universais como o desejo, a ausência, a memória, a solidão e a vulnerabilidade do ser. O que mais lhe interessava investigar sobre a condição humana por meio desses eixos?

– Mais do que investigar temas isolados, o que me interessava em Noite Obscena era compreender como o ser humano convive com suas faltas, seus desejos e seus limites. O desejo, a ausência, a memória, a solidão e a vulnerabilidade são experiências universais porque, de alguma forma, todos nós somos atravessados por elas. Elas nos lembram que somos seres incompletos, em permanente busca de algo que muitas vezes não sabemos nomear. A memória, por exemplo, me interessa não apenas como recordação do passado, mas como uma força que continua moldando quem somos. A ausência também não aparece apenas como perda; muitas vezes ela se transforma em presença, habitando nossos gestos, nossas escolhas e nossa maneira de olhar o mundo. Da mesma forma, a solidão não é tratada apenas como isolamento, mas como um espaço de autoconhecimento, onde somos obrigados a confrontar aquilo que existe de mais essencial em nós. Talvez a questão central do livro seja justamente a fragilidade da condição humana. Vivemos entre o desejo e a impossibilidade de realizá-lo plenamente, entre a memória e o esquecimento, entre a vontade de permanência e a consciência da finitude. Esses conflitos não são problemas a serem resolvidos, mas aspectos constitutivos da nossa existência. A poesia me interessa porque permite habitar essas perguntas sem reduzi-las a respostas simples. Em Noite Obscena, procurei transformar essas experiências íntimas em imagens capazes de dialogar com a experiência coletiva. Afinal, quanto mais profundamente mergulhamos em nossa própria humanidade, mais nos aproximamos da humanidade dos outros.

10. Sua obra tem recebido elogios de nomes importantes da crítica e da literatura brasileira. Como você lida com essa recepção e quais diálogos literários — clássicos ou contemporâneos — considera fundamentais para a sua formação?

– Recebo esses elogios com profunda gratidão, mas também com senso de responsabilidade. Quando escritores e críticos que admiro dedicam atenção ao meu trabalho, vejo isso menos como um ponto de chegada e mais como um estímulo para continuar estudando, lendo e buscando um maior rigor artístico. A literatura me ensinou que cada livro é apenas uma etapa de um aprendizado que nunca se encerra. Ao longo da minha formação, fui marcado por diálogos muito diversos. Entre os autores brasileiros, tiveram grande importância nomes como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e, de modo muito especial, Cruz e Sousa, cuja força imagética e musicalidade sempre me impressionaram. Também foram importantes as leituras de autores contemporâneos que me ajudaram a compreender novas possibilidades da poesia brasileira, tais como Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho, Alexei Bueno, Antonio Brasileiro, Salgado Maranhão, Rita Santana. Entre os escritores estrangeiros, encontrei referências fundamentais em autores como Rainer Maria Rilke, Emily Dickinson, T. S. Eliot e Federico García Lorca. Cada um deles, à sua maneira, ampliou minha compreensão da linguagem poética e da capacidade que a poesia possui de transformar a experiência humana em arte. Além dos livros, devo muito aos mestres, professores, críticos e amigos que encontrei ao longo do caminho. Destaco a importância do poeta Roberval Pereyr e do professor Gabriel Evangelista, cujas leituras, orientações e conversas contribuíram significativamente para minha formação intelectual e literária. No fim das contas, acredito que todo escritor é resultado de uma grande conversa atravessando séculos. Cada poema que escrevemos carrega, de alguma forma, ecos das vozes que nos antecederam. Meu trabalho procura dialogar com essa tradição, mas também encontrar uma voz própria, enraizada na paisagem, na memória e na experiência do interior da Bahia.

11. Além do Prêmio Manuel Bandeira, você conquistou outros importantes reconhecimentos nacionais e integrou recentemente a antologia Brasil-Alemanha. Como você avalia o momento atual da poesia produzida na Bahia e os desafios de sua circulação no Brasil e no exterior?

– Acredito que a poesia produzida na Bahia vive um momento de grande vitalidade. Há uma diversidade de vozes, estéticas e projetos literários que demonstram a força da nossa tradição poética e, ao mesmo tempo, sua capacidade de renovação. A Bahia sempre foi um território fértil para a literatura, de Gregório de Matos a Castro Alves, de Sosígenes Costa a Ruy Espinheira Filho, Roberval Pereyr e Myriam Fraga, e as novas gerações continuam ampliando esse legado com propostas muito singulares. Ao mesmo tempo, os desafios de circulação ainda são significativos. Muitos escritores produzem obras de alta qualidade, mas encontram dificuldades para alcançar leitores, espaços de divulgação e inserção nos grandes circuitos editoriais do país. Isso se torna ainda mais evidente para quem escreve longe dos grandes centros culturais. Por isso, cada prêmio, antologia, tradução ou participação em eventos literários possui uma importância que ultrapassa a trajetória individual do autor. Minha participação na antologia Hoje sou um horizonte, publicada na Alemanha, reforçou essa percepção. Ver poemas atravessando fronteiras linguísticas e culturais mostra que a literatura é capaz de criar pontes entre experiências humanas muito diferentes. No entanto, a circulação internacional da poesia brasileira ainda depende de investimentos em tradução, intercâmbio cultural e políticas de difusão que permitam que mais autores sejam lidos fora do país. Tenho a alegria de viver um momento especial da minha trajetória, marcado pelo Prêmio Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras e por outros reconhecimentos que meu trabalho recebeu nos últimos anos. Mas procuro enxergar essas conquistas não apenas como realizações pessoais. Vejo-as também como uma oportunidade de chamar atenção para a riqueza da poesia produzida na Bahia, especialmente por autores do interior, que muitas vezes desenvolvem trabalhos de grande qualidade longe dos holofotes. Se minha obra puder contribuir para ampliar a visibilidade dessa produção, sentirei que esses reconhecimentos terão alcançado um significado ainda maior.

12. Em um cenário frequentemente marcado pela predominância da prosa no mercado editorial e nas vitrines, qual você acredita ser o lugar de resistência e a força da poesia hoje?

– A poesia sempre ocupou um lugar singular na literatura. Embora a prosa costume alcançar maior visibilidade no mercado editorial, a poesia continua exercendo uma função essencial: a de preservar a complexidade da experiência humana em um mundo cada vez mais acelerado e utilitário. Se a lógica contemporânea frequentemente nos empurra para a rapidez, para o consumo imediato e para respostas prontas, a poesia resiste ao exigir atenção, escuta e contemplação. Creio que sua força está justamente nessa capacidade de desaceleração. Um poema nos convida a habitar as palavras de outra maneira, a enxergar o que normalmente passa despercebido e a restabelecer nossa relação com o mistério. Em um tempo marcado pelo excesso de informação, a poesia continua sendo um espaço privilegiado de significado. Também vejo a poesia como uma forma de resistência da linguagem. Ela desafia clichês, amplia os limites da expressão e nos lembra que a realidade é sempre maior do que nossas definições sobre ela. Ao criar novas imagens e novas relações entre as coisas, o poema renova nossa percepção do mundo e de nós mesmos. Além disso, a poesia possui uma extraordinária capacidade de permanência. Muitas vezes ela circula por caminhos mais discretos do que a prosa, mas sua força não depende do número de exemplares vendidos. Os versos que realmente nos tocam permanecem na memória, acompanham gerações e atravessam épocas. Talvez porque lidem com aquilo que há de mais fundamental na condição humana: o amor, a morte, a passagem do tempo, a solidão, o desejo, a esperança. Por isso, acredito que a poesia continua necessária. Ela resiste não apenas porque existe, mas porque continua oferecendo algo que nenhuma outra forma de linguagem consegue oferecer plenamente: a possibilidade de transformar o indizível em experiência compartilhada e de devolver profundidade ao nosso olhar sobre o mundo.

13. O que você espera que os leitores encontrem — ou descubram sobre as próprias sombras e claridades — ao percorrer as páginas de Noite Obscena?

– Mais do que transmitir uma mensagem específica, espero que Noite Obscena ofereça ao leitor uma experiência de encontro consigo mesmo. Acredito que a literatura alcança sua maior potência quando deixa de ser apenas a expressão de uma subjetividade individual e passa a dialogar com algo que pertence a todos nós. Nesse sentido, desejo que cada leitor encontre no livro não apenas as minhas inquietações, mas também ecos das suas próprias perguntas, memórias e silêncios. As sombras presentes em Noite Obscena não são apenas imagens da dor, da perda ou da fragilidade. Elas representam também as regiões menos conhecidas de nós mesmos, aquilo que muitas vezes evitamos encarar por medo, vergonha ou incompreensão. Já as claridades não aparecem como respostas definitivas, mas como pequenos instantes de revelação, lampejos capazes de iluminar nossa travessia humana. Se o livro possui alguma ambição, é a de mostrar que sombra e luz não são forças opostas, mas dimensões complementares da existência. Somos feitos de ambas. Nossas feridas convivem com nossas esperanças; nossas ausências, com nossos afetos; nossa consciência da finitude, com o desejo profundo de permanência. Espero, portanto, que o leitor termine a leitura não com certezas maiores, mas com uma percepção mais profunda de si mesmo e do mundo. E que descubra que, mesmo nas noites mais densas, existe sempre alguma forma de luz — ainda que discreta — esperando para ser encontrada.

14. Existe algum poema que você considere particularmente representativo do conjunto de Noite Obscena? Por quê?

– Sim. Se tivesse de escolher um poema que considero especialmente representativo de Noite Obscena, escolheria “Fábula do Destino”.

Um novelo de luz / entrelaça as mãos de Oxóssi / e desperta mil atabaques. // (Há mãos risonhas e beijos antigos / acariciados pelo ritmo / do coração dos pássaros). // Há mãos risonhas e beijos antigos / emoldurando o silêncio das árvores / às margens do Rio Paraguaçu / que aprende, lentamente, / o sotaque dos meus passos. // Minha voz alarga as margens do tempo. // Enquanto minha mãe chora / torcendo nossas roupas, / seu coração se abre em catedrais / para acolher minha ausência.

Não necessariamente porque o considero o melhor poema do livro, mas porque nele convergem muitos dos temas, imagens e tensões que atravessam toda a obra. O poema reúne elementos profundamente ligados à minha formação afetiva e simbólica: a presença de Oxóssi, a memória familiar, a paisagem do Recôncavo Baiano, o Rio Paraguaçu, a infância e a figura materna. Ao mesmo tempo, procura transformar essas experiências particulares em algo mais amplo, capaz de dialogar com questões universais como pertencimento, ausência, destino e memória. Há também, nesse texto, uma dimensão que considero central em minha poesia: a tentativa de aproximar o concreto e o transcendente. O rio, as árvores, os pássaros, as mãos, as roupas torcidas por minha mãe são imagens profundamente enraizadas na realidade. No entanto, elas apontam para algo que as ultrapassa, para uma dimensão simbólica e espiritual da existência. É justamente nessa passagem entre o visível e o invisível que a poesia mais me interessa. Além disso, o poema sintetiza uma das questões fundamentais de Noite Obscena: a relação entre presença e ausência. Enquanto o eu lírico busca compreender seu próprio percurso, a figura da mãe surge como símbolo do amor que permanece mesmo diante da distância, do tempo e das transformações da vida. O verso final — “seu coração se abre em catedrais / para acolher minha ausência” — talvez seja uma das imagens que melhor expressam a atmosfera do livro, onde a perda e o afeto, a sombra e a luz, caminham lado a lado. Por tudo isso, acredito que “Fábula do Destino” funciona como uma espécie de núcleo simbólico de Noite Obscena, reunindo muitas das inquietações, memórias e buscas que deram origem ao livro.

15. Para encerrarmos: se pudesse definir Noite Obscena em uma única imagem visual, qual seria essa imagem e o que ela revela sobre o universo do livro?

– Se tivesse de definir Noite Obscena por uma única imagem, seria a de uma mulher à margem do Rio Paraguaçu, durante a noite, torcendo roupas enquanto a lua se reflete lentamente na água escura. Ao seu redor, tudo parece silencioso, mas há uma intensa vida invisível acontecendo: a correnteza, os peixes, os pássaros adormecidos, as lembranças e os afetos que atravessam o tempo. Essa imagem reúne elementos que atravessam todo o livro: a noite, a memória, a ausência, a paisagem do interior, a figura materna e a convivência entre sombra e claridade. Ela revela um universo em que o cotidiano e o mistério caminham juntos, onde as coisas mais simples carregam dimensões simbólicas profundas. Talvez Noite Obscena seja justamente isso: uma tentativa de escutar aquilo que permanece oculto sob a superfície das coisas e de encontrar alguma forma de luz no coração da escuridão.

Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.


Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Revista Foro Literário

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo