Em entrevista concedida a Ana Luz, a educadora e escritora Suzala Reis reflete sobre o luto perinatal e seu premiado livro de estreia

A morte de um filho antes ou pouco depois do nascimento carrega uma dor que desafia a própria linguagem. Chamado de luto perinatal, esse processo envolve não apenas a perda de um bebê, mas também a interrupção de sonhos, expectativas, planos e, às vezes, da relação afetiva que já se constituía durante a gestação. Por ocorrer em um momento socialmente associado à chegada da vida e à celebração, esse luto é muitas vezes silenciado ou pouco reconhecido na sociedade, fazendo com que pais e mães precisem enfrentar, além da ausência do filho, a incompreensão e a dificuldade de encontrar espaços de escuta para sua dor. É justamente a partir desse lugar de memória e afeto que nasce a escrita de Suzala Reis, ao transformar uma experiência íntima de perda em literatura, construindo uma narrativa que fala, acima de tudo, sobre o amor que permanece, a importância da empatia e a necessidade de acolher aquilo que a sociedade tantas vezes prefere não nomear.

Nascida em Jacobina, no centro-norte da Bahia, na região do Piemonte da Chapada Diamantina, Suzala Moreira Reis Araújo — que assina seus trabalhos literários como Suzala Reis — carrega em sua trajetória a marca da sensibilidade e da busca permanente pelo conhecimento. Mudou-se ainda criança para Vitória da Conquista, cidade onde cresceu, construiu sua vida e consolidou uma carreira de quase duas décadas como professora da rede pública estadual.

Graduada em História (2005) pela UESB, graduada em Psicologia (2022) pela UESB, especialista em Mídias na Educação (2013) pela UESB, especialista em Práticas Assertivas para a Educação Profissional de Jovens e Adultos (2021) pelo IFRN, especialista em Educação Especial/Educação Inclusiva/Altas Habilidades (2025) pela Faculeste e mestra em Ensino de História (2025) pela UESB. Suzala Reis atualmente trabalha com Atendimento Educacional Especializado – AEE no Complexo Integrado de Educação Básica, Profissional e Tecnológica de Vitória da Conquista (CIEB).

Em 14 de dezembro de 2018, Suzala e sua família enfrentaram a perda de sua filha, Maria Flor, às 34 semanas de gestação. A partir da criação do perfil “Para Sempre Maria Flor”, ela passou a se conectar com outras mulheres e famílias que também vivenciaram perdas gestacionais e neonatais. Nesse percurso, percebeu como o luto ainda é muitas vezes invisibilizado pela sociedade, deixando famílias inteiras em silêncio diante da dor. Suzala e seu marido Antônio Gabriel militaram para aprovar a Lei 2780/23 “Maria Flor”, que trata da reserva de leitos nos hospitais e casas de saúde para mães que perdem seus bebês, proporcionando dignidade e acolhimento real às mulheres que passam pela perda gestacional.

A paixão pela leitura veio cedo, impulsionada por bons professores e pelo hábito de ler tudo o que encontrava. Foi na escola pública que iniciou o seu gosto pela leitura, mas a estreia no universo literário propriamente dito veio com a escrita de As Aventuras da Menina Flor, um livro que não foi planejado como obra, mas como necessidade de expressar seus sentimentos e manter vívida a memória de sua filha.

Escrito em 2020, em plena pandemia da Covid-19, o livro nasceu do desejo de habitar um mundo onde Maria Flor estivesse viva. Perdida aos 34 semanas de gestação em 14 de dezembro de 2018, a menina tornou-se presença constante na vida da autora como motor de transformação. “A motivação foi a vontade de contar uma história de um mundo em que eu gostaria de viver, o mundo onde minha filha estivesse viva. Quando a pandemia da Covid chegou e tudo fechou, decidi escrever o livro. Foi um processo leve e ao mesmo tempo eu sentia uma nostalgia de algo que eu não vivi. Demorei cerca de 3 meses para finalizar”.

A obra, voltada para o público infantil, aborda temas como luto, solidão, empatia e amizade — não como conceitos abstratos, mas como experiências vividas. “O Luto e a Tristeza como parte da vida e como a solidão pode agravar a dor da perda. Por outro lado, como a empatia, a solidariedade e a amizade são bases seguras para amparar as pessoas nos momentos em que elas mais precisam”. Sobre as mensagens que o livro transmite, ela complementa: “Que a dor do luto é profunda, mas a gente precisa ter espaço para falar sobre ela. Que a solidão agrava a tristeza, mas a solidariedade e a amizade podem minorar a dor. E que as crianças compreendem, à maneira delas, a finitude e o que ela representa”.

A escolha pelo gênero infantil foi intuitiva. Mesmo sem nunca ter escrito para crianças antes, Suzala sentiu que era a linguagem certa para tocar um público em formação — e, quem sabe, também os adultos que leem junto. “Nunca escrevi nenhum dos meus textos para crianças/adolescentes. Mas esse livro sempre foi pensado assim. Talvez eu quisesse escrever sobre o tema de uma maneira específica, voltada para um público em formação”.

O resultado foi tão potente que, ao submeter o livro ao Prêmio Literário Professora Zélia Saldanha, da UESB, ele foi selecionado entre os vencedores. Foi a primeira vez que enviou um original para um prêmio. “O livro ficou anos no meu computador e em algum momento eu sabia que iria publicá-lo. O Prêmio Zélia Saldanha abriu o edital e decidi submetê-lo. Foi a primeira vez que eu enviei para um prêmio literário e foi sem pretensão, mas que bom que eu ganhei”.

O prêmio, no entanto, é apenas um dos desdobramentos dessa história de amor e memória. A escrita do livro veio acompanhada de uma atuação concreta no mundo real. “Perdemos nossa filha, Maria Flor, às 34 semanas de gestação em 14/12/2018. Por meio do Instagram @parasempremariaflor me conectei com muitas mulheres que passaram pela mesma situação ou perdas neonatais. Percebi que o luto é invisibilizado e que as famílias sofrem muito com a perda. Desde então me dedico aos estudos sobre o luto. Na graduação de Psicologia estudei sobre o luto infantil e por isso a ideia do livro. A escrita dele foi em 2020 em plena pandemia de COVID. Para além disso, juntamente com meu marido, Antônio Gabriel, elaboramos o Projeto de Lei sobre a reserva de leitos nos hospitais e casas de saúde da cidade para as mães que perderam os seus bebês (antes, as mães compartilhavam leitos com outras mulheres que tinham os seus filhos vivos, o que causava imenso sofrimento). Hoje temos a Lei 2780/23 a ‘Lei Maria Flor’ vigente na nossa cidade. No hospital Esaú Matos há a Enfermaria Maria Flor e o Centro Cirúrgico também, que acolhem mulheres em situação de perda gestacional”.

Ao ser questionada sobre o que esse livro representa para ela e quais transformações a escrita dele provocou, Suzala afirma que a obra ocupa um lugar singular em sua trajetória pessoal: “Eu tenho um imenso carinho por esse livro. Me senti gestando ao escrevê-lo. Não há uma única vez que tenha lido sem chorar. Não é um choro triste, é um choro de saudade e de amor. Na verdade, o luto nunca acaba, a gente que cresce em torno dele. Escrever esse livro foi uma forma de manter a memória de minha pequena menina viva. É um livro sobre memória daquilo que não existiu (não sei definir bem isso… afinal, memórias tem a ver com o que já passou). Tudo o que se relaciona à minha filha me mudou para sempre”.

Sua bagagem de leitora foi fundamental para a construção da obra. “Eu sempre fui uma leitora voraz: lia tudo o que aparecia na minha frente. Comecei a ler na escola, aos 12 anos, na biblioteca do CIENB – o antigo Centro Integrado de Educação Navarro de Brito, hoje o CIEB (e coincidentemente, a escola em que trabalho). Li os clássicos da literatura brasileira e o primeiro livro de um autor estrangeiro que li foi O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. À época eu tinha 15 anos. Sempre escrevi muito, em blogs, em diários… mas a experiência de escrever um livro foi diferente de tudo. Foi a primeira vez que escrevi e não quero parar”.

O mosaico de referências literárias vão dos clássicos nacionais às grandes narrativas estrangeiras: “Eu sou muito eclética: gosto de sagas, de romances best-sellers, de thrillers psicológicos, ao mesmo tempo que amo literatura da América Latina, a literatura russa, a africana, a nossa literatura brasileira, tanto a do passado como a atual, são tantos talentos. Recentemente eu reli a trilogia de mulheres (Senhora, Diva e Lucíola) de José de Alencar e não canso de admirar a beleza da narrativa, da construção da história. As minhas influências primeiras, com certeza, foram esses clássicos. Não sei quantas vezes eu li na adolescência O Guarani, também de José de Alencar e o Cortiço, de Aloísio Azevedo. Minhas influências começaram na escola pública, tive excelentes professores de português”.

Ao comentar sobre seu estilo de escrita, Suzala é direta e sincera ao revelar um processo que preza pela entrega emocional honesta diante de temas delicados: “Eu escrevo o que sinto e queria contar uma história para crianças. Usei uma narrativa que gostaria de ler sobre um tema que é sensível, como o luto”. A escrita, segundo ela, sempre esteve presente em sua vida: “Desde menina escrevia diários. Com o surgimento dos blogs eu escrevia muito na internet. Posso dizer que o início de tudo foram os diários”.

Diferentemente de muitos escritores, Suzala não tem rituais ou metas diárias de escrita. “Sinto vontade de escrever, escrevo. Tenho muita coisa por aí, especialmente os textos do @parasempremariaflor, que se espalharam. Mas acho que a obrigação acadêmica (terminei o mestrado no ano passado) me deixou um pouco ressaqueada. Gosto da escrita como lugar de falar sobre o que sinto”.

Enquanto aguardamos o lançamento de As aventuras da Menina Flor, Suzala finaliza a entrevista revelando a gestação de um novo projeto: “Eu tenho uma história sobre o meu avô, que faleceu em dezembro do ano passado. Meu avô é uma pessoa que sempre tive uma imensa admiração, ele é uma grande referência para mim. Falo no presente porque é assim que me sinto ao pensar nele, que ele não se foi, que está aqui bem perto de mim. Quero escrever sobre ele porque a escrita nos faz perpétuos no tempo. Walter Benjamin, ensaísta alemão, dizia que a morte desperta a narrativa. Essa premissa faz total sentido pra mim. A morte desperta em mim narrativas, mas ao escrever sobre ela, escrevo sobre vida, sobre esperança, sobre memória e sobre amor. E esse próximo projeto tem por objetivo homenagear/rememorar o meu avô Zeca, a quem amo profundamente, no presente, pois a pessoa se vai, mas o amor fica”.

Ana Luz é conselheira editorial da revista Foro Literário, Poeta e diretora da Casa da Cultura de sua cidade. Autora de Poeta em Pânico (2020), Fragmentos (2021), Quadras (2023) e As abelhas sabem que horas são (2025). Pós-graduada em Psicanálise, também traduz inglês e italiano.


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