Literatura para consolar os perturbados e perturbar os confortáveis

Resenha  feita por Ana Luz sobre o livro “O homem não foi feito para ser feliz”

Romance de estreia de Maurício Mendes, “O homem não foi feito para ser feliz” (Mondru, 2026) é uma primeira incursão muito exitosa. A trama traz à cena Germano, médico diligente, de gosto literário apurado. Filho de pai alcoólatra, o protagonista também tem forte tendência ao hedonismo e às acompanhantes de luxo, escondendo um profundo desalento existencial atrás da aparência de estabilidade financeira e social.

As benesses de ser médico no eterno país do futuro, como diria Darcy Ribeiro, não são tão vantajosas assim para Germano, eis que ele é pardo. Essa identidade de avesso – seja de sensibilidades ou da pele – enseja racismos (des)velados, que permeiam diversas situações do livro. Presente também está o bom e velho jeitinho brasileiro, muitíssimo aplicável também à área de saúde.

Das diversas questões cortantes do livro, certamente há uma lente aumentada para a morte. Alerta de spoiler!, o pai do protagonista morre no princípio da estória, levando Germano a diversas digressões, sonhos lúcidos e reminiscências . A inevitabilidade da finitude permeia toda a obra de maneira ácida. A corrosiva vida que logo está por acabar atormenta a sensibilidade introspectiva do protagonista. Apenas Camille parece capaz de superar o muro impassivo erigido por Germano.

O romance ainda dialoga com temas como religião, desigualdade social, misoginia, doenças terminais e intertextualidades literárias e musicais, sempre apoiadas por uma refinada ironia. Germano só se deixa de fato envolver por Camille, affair que foge completamente ao esperado para uma garota de programa. Ela é culta e combativa, um respiro quando o lugar comum na literatura e no cinema é o da quenga tola e ingênua.

Maurício Mendes / divulgação

Maurício não se acovarda diante da feiura dos personagens, ao contrário: faz questão de mostrar a dor e delícia de cada um deles. Há passagens até mesmo cínicas e discriminatórias, e é bom que assim seja. A boa arte não pode temer o cancelamento. Está aqui um romance que vai incomodar e colocar dedos em várias feridas. Os relacionamentos da Disney fizeram estragos definitivos no inconsciente coletivo, então é bom ver um personagem falho, audacioso e incoerente ganhar vida de maneira tão fluida e íntima.

Germano é um reflexo bem preciso do homem do século XXI, inseguro, desajustado, contumaz usuário de pílula azul para se garantir na hora H. Mas o livro não é um discurso de ecos, de Narciso que apenas se olha e não vê mais ninguém. Há confrontos do personagem e questionamentos acerca dessa natureza tão complicada. Um contrapeso que raramente vemos de maneira sincera na vida “real”, eis que o romance é tão verossímil quanto deve ser a boa ficção.

“O homem não foi feito para ser feliz” trata também do árido tema do suicídio. Diria Millôr Fernandes: “há colcha mais dura / que a lousa / da sepultura?”. Especialmente em se tratando de um grande amigo de juventude, Germano precisa lidar com mais essa vida ceifada, brutal apagamento de referencial, do outro que é guardião de memórias, um amigo que sempre foi muito mais brilhante do que feliz.

A impossibilidade de amor e felicidade também permeiam toda a obra, tiradas de sarcasmo e desilusão, como se estivéssemos todos fadados à eterna utopia da felicidade. De certo modo, é simples pensar assim, e é um prazer se entregar ao discurso ressentido de Germano, pois quem nunca se sentiu assim? A vida pode muito facilmente se tornar um poço sem fundo, sem corda nenhuma que possa nos salvar, e com várias Samaras para terminar o assunto de vez.

Por último e não menos importante, o livro está recheado de metalinguagem literária, de citações bonitas, de autores preferidos, e também de um ataque à poesia. Afinal, quem ainda lê poesia nesse mundo de hoje? Pior, quem ainda escreve poesia? Ainda mais para dar de presente ao objeto de afeição? São questões prementes que Mauricio Mendes não tem medo de enfrentar e referenciar, e por isso mesmo merece todo nosso elogio e recomendação. Afinal, um livro pode nos deslocar de várias maneiras, e tão somente essa possibilidade de mudança de estado significa tudo.

Ana Luz é conselheira editorial da revista Foro Literário, Poeta e diretora da Casa da Cultura de sua cidade. Autora de Poeta em Pânico (2020), Fragmentos (2021), Quadras (2023) e As abelhas sabem que horas são (2025). Pós-graduada em Psicanálise, também traduz inglês e italiano.


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