Ensaio de Moisés Reis sobre as transformações de uma região e o sertão como espaço de opressão e sofrimento
Em 1949, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF) iniciava as obras da barragem da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso, construída no local da antiga cachoeira que décadas antes impressionara o imperador Dom Pedro II por sua grandiosidade e beleza.
A obra exigia uma logística de grandes proporções. Além da enorme quantidade de mão de obra empregada, o canteiro necessitava de abastecimento contínuo de materiais de construção, transportados pelas precárias estradas sertanejas da época.
Quando os engenheiros passaram a planejar o transporte do maquinário pesado que comporia a usina — turbinas, geradores e outros equipamentos — tornou-se evidente a dimensão do desafio. Ainda durante o governo de Eurico Gaspar Dutra surgiu a proposta de construção de uma ferrovia que cortaria o semiárido de Sergipe e da Bahia, ligando o litoral ao canteiro de obras da CHESF.

Começava ali uma história marcada pelo sofrimento do sertanejo e de inúmeros migrantes vindos de diversas partes do Nordeste em busca de trabalho nas obras da ferrovia conduzidas pela empresa Great Western Railway, conhecida popularmente na região apenas como “Leste”.
As obras partiram inicialmente de Sergipe. A proposta consistia em ligar o litoral sergipano ao canteiro de obras de Paulo Afonso, atravessando o sertão. Gradualmente, frentes de trabalho foram sendo estabelecidas em pontos estratégicos do interior. Nos territórios onde atualmente se localizam os municípios de Paripiranga, Fátima e Adustina, grandes contingentes de trabalhadores passaram a chegar continuamente, enquanto barracões, alojamentos e depósitos de suprimentos eram erguidos para atender às demandas da obra.
O trabalho era extremamente desgastante. Sob o sol intenso do sertão, os operários abriam cortes de até oito metros de profundidade para permitir a passagem dos trilhos entre os acidentes geográficos da região. As ferramentas eram rudimentares: picaretas, pás e enxadas. Não havia máquinas pesadas; todo o trabalho era realizado manualmente. Naqueles anos, a dureza histórica do sertão parecia intensificar-se ainda mais.
As mortes de trabalhadores não tardaram a ocorrer. Alguns sucumbiam ao esgotamento físico provocado pelo trabalho excessivo sob altas temperaturas; outros eram vitimados por doenças mal tratadas; havia ainda os que morriam em conflitos interpessoais, atingidos pela violência cotidiana presente nos alojamentos e frentes de serviço.
Muitas dessas mortes permaneceram registradas apenas na memória local. Entretanto, o vestígio mais contundente desses acontecimentos eram as sepulturas improvisadas que pontilhavam o percurso das obras.
Como grande parte dos trabalhadores falecidos era composta por migrantes oriundos de outros estados nordestinos — frequentemente sem documentação ou informações precisas sobre familiares — cabia aos próprios companheiros de trabalho realizar os sepultamentos na terra dura que diariamente escavavam. A liturgia era mínima: um pequeno monte de pedras, uma cruz simples de madeira e, talvez, uma breve oração.
As obras foram encerradas prematuramente em 1955. Ainda assim, durante muitos anos, os montículos de pedras permaneceram ao longo do antigo traçado ferroviário como testemunhos silenciosos daquele período e da dureza imposta pelo sertão aos homens que ali trabalharam.
Essa realidade aproxima-se da interpretação formulada por Estácio de Lima em O Mundo Estranho dos Cangaceiros. Segundo o autor, o sertão funcionava como uma verdadeira “máquina de moer gente”, submetendo o ser humano a condições extremas de sobrevivência física e psicológica.
De acordo com essa perspectiva, aqueles capazes de sobreviver às adversidades do sertão emergiam profundamente transformados: endurecidos pela convivência cotidiana com a fome, o sofrimento e a morte. Formavam-se indivíduos marcados por uma percepção brutal da existência e por relações sociais nas quais a violência e a vingança frequentemente apareciam como formas legítimas de resolução de conflitos. Nas palavras de Estácio de Lima, esse mecanismo social e ambiental ajudaria a explicar, em grande medida, o fenômeno histórico do cangaço no Nordeste brasileiro.
A experiência da “Leste” também guarda profundas aproximações com o sertão retratado por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. Embora inseridos em contextos distintos — de um lado a ficção literária; de outro, a experiência histórica da construção ferroviária no semiárido nordestino — ambos apresentam o sertão como um ambiente profundamente hostil à sobrevivência humana.
No romance rosiano, o sertão ultrapassa a condição de simples espaço geográfico e transforma-se em uma força capaz de moldar homens, consciências e destinos. A seca, a violência constante, as longas travessias e a insegurança cotidiana produzem indivíduos endurecidos pelas circunstâncias da vida sertaneja. De maneira semelhante, a experiência da “Leste” submeteu trabalhadores sertanejos e migrantes nordestinos a condições extremas de trabalho, sofrimento e precariedade, em um ambiente igualmente marcado pelo calor, pela exaustão física, pela violência e pela proximidade constante da morte.
Guimarães Rosa utiliza as travessias por regiões inóspitas, a arma permanentemente ao alcance da mão e a desconfiança entre os personagens para demonstrar como o sertão condiciona comportamentos e relações sociais. No universo da ferrovia, embora em contexto diverso, observa-se dinâmica semelhante: homens submetidos a jornadas brutais, convivendo diariamente com conflitos, doenças e mortes, em uma realidade na qual a dureza do ambiente impunha formas próprias de sobrevivência.
Outra aproximação significativa encontra-se na centralidade da oralidade. Em Grande Sertão: Veredas, a narrativa de Riobaldo constitui o eixo fundamental da obra, reconstruindo acontecimentos passados por meio da memória e da fala. No caso da “Leste”, a quase completa ausência de documentação oficial acerca das mortes e das experiências vividas pelos trabalhadores fez com que essa história sobrevivesse sobretudo através da oralidade sertaneja. São as lembranças fragmentadas de antigos moradores, trabalhadores e descendentes que ainda preservam a memória das sepulturas improvisadas, do sofrimento cotidiano e das marcas deixadas pela ferrovia no sertão.
Assim, tanto no romance de Guimarães Rosa quanto na experiência histórica da “Leste”, o sertão emerge não apenas como cenário, mas como agente ativo da experiência humana — um espaço capaz de transformar profundamente aqueles que nele vivem, trabalham, atravessam e morrem.

Moisés Reis é correspondente Literária do Litoral Norte e Agreste Baiano. Professor da rede municipal de Fátima (BA), historiador e pesquisador do sertão nordestino. Mestre em Ensino de História (UFS), investiga escravidão sertaneja, sociedade do couro, memória e cangaço. Autor de 8 livros, mantém o blog História do Sertão e integra a Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço.

