Líbia: Trajetória e invisibilidade da mulher sertaneja no século XIX.

Ensaio de Moisés Reis a partir da personagem Líbia, do romance Maria Preta.

O arquétipo da mulher sertaneja foi forjado em um contexto de violência endógena. O processo de colonização dessa região do Nordeste foi marcado por disputas territoriais e pela violência contra as populações indígenas. Os primeiros colonizadores enfrentaram e dizimaram milhares de vidas indígenas para, em suas terras, estabelecer fazendas voltadas à criação de gado.

Uma vez estabelecidas as primeiras propriedades rurais em meio à vegetação espinhosa da caatinga, a subsistência dos pioneiros não era facilitada. A convivência com a dureza do clima consistia em um dos principais desafios à sobrevivência. Nos poucos meses de inverno, a lama e o frio também impunham o seu preço; contudo, era na estação seca que a sobrevivência se mostrava ainda mais desafiadora.

Ao longo do imenso território dominado pela Casa da Torre no sertão, pequenas fazendas foram sendo instaladas. Casas de taipa e currais de madeira local eram erguidos como estruturas básicas utilizadas por pequenas famílias de criadores desafiadas a sobreviver e ocupar a terra.

Nesse contexto, as primeiras figuras femininas não indígenas passaram a chegar ao sertão. Com o avanço da população local, uma sociedade totalmente distinta da do litoral foi tomando forma. O modo de vida sertanejo pouco se parecia com o das populações do litoral: religiosidade, hábitos alimentares e códigos morais passaram a desenvolver dinâmica própria.

Homens dispostos ao derramamento de sangue para salvaguardar a própria honra, arma sempre à mão e cientes de que eram eles próprios os responsáveis pela segurança da família e da propriedade. O isolamento, decorrente das grandes distâncias e das precárias estradas, limitava a presença das forças de coerção estatais, reforçando a lógica da autodefesa e da autoridade patriarcal.

Inserida nesse contexto, a mulher sertaneja sobreviveu dentro da lógica do patriarcalismo, na qual o pai e o marido eram encarados como figuras centrais, eixos de poder em torno dos quais a figura feminina deveria orbitar.

Casamentos arranjados, geralmente entre os 12 e os 15 anos, constituíam formas comuns de união. Incumbidas de maneira quase automática dos afazeres domésticos, as mulheres ocupavam, via de regra, papéis secundários, atuando como auxiliares do protagonismo masculino.

As fazendas de gado do sertão eram propriedades envoltas no isolamento. Funcionavam quase de forma autônoma e recebiam poucas visitas. Esse cenário propiciava que tais propriedades se tornassem verdadeiros centros de poder local, enclaves em meio ao ambiente hostil do sertão.

As famílias eram compostas por mestiços livres — incluindo proprietários e agregados — e por escravizados negros. Aos homens reservava-se o trabalho no campo: a lida com o gado, a lavoura de subsistência e o trabalho braçal que, muitas vezes, pouco se diferenciava do próprio trabalho cativo. Às mulheres cabiam os serviços da casa. A esposa do proprietário atuava como uma espécie de governanta, dando ordens às escravas da casa, cuidando da dispensa de alimentos e zelando pela criação dos filhos.

É esse o cenário que o leitor encontra em meu romance Maria Preta, ambientado no século XIX, no atual semiárido baiano. Maria Preta retrata personagens reais que viveram naquela época, ainda que inseridos em situações ficcionais. Busca-se, na trama, representar o funcionamento de uma fazenda de gado de antigos pioneiros: como viviam, como se organizavam socialmente e de que maneira a escravidão assumia ali características próprias.

Trata-se da chamada escravidão sertaneja, na qual o cativo, em comparação com o escravizado do litoral, possuía certa mobilidade decorrente da própria natureza da atividade pastoril.

Em uma dessas fazendas, que dá nome ao romance, encontramos a figura de Líbia, cujo sobrenome se perdeu com a ação do tempo e com o esquecimento frequentemente relegado a muitas figuras femininas sem grande protagonismo nos registros históricos. Ainda assim, nas páginas de Maria Preta, Líbia foi representada como uma mulher de vontade e atitude.

Líbia nasceu em 1837 na fazenda Volta, hoje parte do território do município de Fátima, na Bahia. Viveu a vida simples de uma moça cuja existência foi encravada pelo acaso no árido sertão oitocentista. Em uma pequena fazenda, ao lado dos pais e de um numeroso grupo de irmãos, cresceu na simplicidade de uma vida pacata. Aos 12 anos, seu pai recebeu, no alpendre da pequena casa, Severo Correia de Sousa, membro da poderosa família Correia do Bom Conselho. Severo era um dos herdeiros de Francisco Correia de Sousa, segundo presidente da Câmara daquela vila à qual pertenciam as terras dos pais de Líbia.

A razão da visita era um pedido de casamento. Aquele homem, de fama rude, desejava casar-se com a jovem Líbia. O casamento foi arranjado ali mesmo, selando o destino da menina. Após a cerimônia, o casal partiu para a fazenda Maria Preta, propriedade de Severo.

No romance, a chegada de Líbia à Maria Preta é percebida pelos escravizados da fazenda como um possível fio de esperança. Esperava-se que a doçura e a inocência da jovem fossem capazes de abrandar o coração duro de Severo.

Aos 20 anos, Líbia foi mãe pela primeira vez. Joãozinho carregava as feições do pai, mas herdara o temperamento da mãe. Aos 25 anos nasceu Maria, sua segunda filha, e Líbia passou a compreender, com o tempo, que a vida na fazenda Maria Preta não seria como os romances contados por sua avó.

Os anos passaram e a educação dos filhos tornou-se sua principal prioridade e fonte de força vital. Angustiava-lhe a distância emocional de Severo, sempre absorvido pelo trabalho. Sonhava oferecer uma vida melhor à filha, que, contudo, faleceria ainda na infância.

Mesmo diante das dificuldades, jamais cogitou a possibilidade do divórcio, visto como desonra naquele contexto social. Não retornaria à casa de seus pais.

A vida mostrou-se dura para a jovem sertaneja. Sua vitalidade foi sendo consumida pelas agruras do cotidiano: doenças dos filhos, o temperamento rude do marido e os infindáveis afazeres domésticos.

A escravaria que via nela um possível abrigo de humanidade partiu sem olhar para trás no 13 de maio. A fazenda ficou sem mão de obra. Pouco tempo depois, o marido adoeceu e veio a falecer.

Sozinha, Líbia arrastou o corpo pesado de Severo até os fundos da casa, onde o enterrou em uma cova rasa.

A trajetória de Líbia sintetiza a experiência de inúmeras mulheres sertanejas cujos nomes raramente atravessaram as páginas dos registros oficiais. Em uma sociedade marcada pelo isolamento das fazendas, pela dureza do ambiente semiárido e pelo peso das estruturas patriarcais, a figura feminina ocupava posição aparentemente secundária, mas fundamental para a manutenção da vida cotidiana.

Enquanto os homens do sertão se projetavam como guardiões da honra, da terra e do gado, eram as mulheres que sustentavam silenciosamente a ordem doméstica, criavam os filhos, administravam a escassez e garantiam a continuidade das famílias.

Ao recuperar, ainda que pela via da ficção histórica, a trajetória de uma personagem como Líbia, busca-se lançar luz sobre essas vidas silenciosas que ajudaram a sustentar o sertão. Líbia, portanto, não é apenas uma personagem do romance Maria Preta: ela representa um arquétipo — o da mulher sertaneja que, em meio à aridez da terra e à dureza das relações sociais, encontrou forças para sobreviver, resistir e manter viva a continuidade da vida no sertão.

Moisés Reis é correspondente Literária do Litoral Norte e Agreste Baiano. Professor da rede municipal de Fátima (BA), historiador e pesquisador do sertão nordestino. Mestre em Ensino de História (UFS), investiga escravidão sertaneja, sociedade do couro, memória e cangaço. Autor de 8 livros, mantém o blog História do Sertão e integra a Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço.


One response to “Líbia: Trajetória e invisibilidade da mulher sertaneja no século XIX.”

  1. Avatar de PAULO HENRIQUE ALMEIDA DA SILVA
    PAULO HENRIQUE ALMEIDA DA SILVA

    Parabéns Moisés, belo texto!

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Revista Foro Literário

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading