Em entrevista concedida a Cristian Sales, o escritor negro reflete sobre memória quilombola, os imaginários da infância negra e os dez anos de trajetória da personagem Bucala.
Poeta quilombola, contista e roteirista soteropolitano, Davi Nunes consolidou uma trajetória literária radicada na experimentação da linguagem e no compromisso rigoroso com as dinâmicas da memória negra. Nesse sentido, sua produção configura-se como uma resposta crítica ao epistemicídio das matrizes africanas e negro-brasileiras, fenômeno este historicamente operado nos currículos escolares, nas políticas culturais e no mercado editorial.
Em sua escrita, tecida entre o “banzo” e a “zanga”, a poesia transcende o gênero para se tornar a matriz de uma “afrofabulação”. Nesse movimento, articulam-se, de forma indissociável, ancestralidade e memória, história e resistência, bem como a insurgência dos quilombos e a realidade das infâncias negras, em um diálogo permanente entre a imaginação crítica e o arquivo.
Conforme postula Nunes (2018), o banzo ultrapassa a noção ordinária de “melancolia” para se constituir como um estado de desassossego ontológico — a síntese de uma existência cindida por traumas históricos e forjada sob uma estrutura social e política que opera pelo silenciamento do “arquivo colonial”. Não obstante, essa mesma condição é permanentemente tensionada pela insurgência da estética negra. É, contudo, a partir desse solo de interdições que deriva a “zanga” como uma força reativa, transmutando a dor em potência de criação.
Nesse horizonte, a escrita-banzo de DN engendra um sujeito em “zanga”: um corpo-voz que experimenta o terror de uma existência inscrita em um “chão suspenso”, mas que, precisamente nas frestas dessa gramática de violência, mobiliza a “afrofabulação” como tecnologia de reexistência para inscrever novas histórias destinadas às infâncias negras.
Tal trajetória articula, desde cedo, formação cultural e experimentação estética. Prova disso é que, em 2003, ainda ao concluir o ensino médio, o autor publicou seu primeiro livro de poesia, “Fragmentos da Minha”. Nos anos seguintes, acumulou reconhecimentos importantes, tais como a vitória no concurso de poesia do CRIA (2006) e a premiação do cordel “O Negro Beiru” na XI Bienal do Livro de Salvador (2007). Essa relação entre memória, ancestralidade, arquivo e território já se anunciava em sua escrita inaugural, como evidencia o trecho de “O Negro Beiru’:
Cabula era um ritual / De origem Banto-angolense / Pra abater o inimigo / Escravistas, cujo ente / Se esbaldava no suar / Do negro, cujo pesar / Rangia a dor da corrente (Nunes, 2015).
Paralelamente, sua atuação expandiu-se para o campo editorial e audiovisual. Exemplos desse movimento são a edição da revista Cinzas no Café (2011) e a premiação internacional Sede Poética (2013). Ainda nesse período, o conto Cinzas foi adaptado para o cinema pela cineasta Larissa Fulana de Tal (2015), momento que coincidiu com a publicação de “Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula” e a criação do blog Duque dos Banzos, espaço dedicado à reflexão crítica sobre a literatura e cultura negro-brasileira.

Entre a escrita-banzo e a tecnologia da afrofabulação
Para além da investigação artística, Davi exerce uma práxis intelectual comprometida com o território, negritude e militância. Frente a isso, sua atuação como um dos fundadores da Biblioteca Zeferina Beiru revela-se um projeto político comprometido com mediação de leitura e fortalecimento da identidade negra. É, portanto, a partir desse lugar de escuta que ele desenvolve a “afrofabulação” como tecnologia, mirando especialmente as infâncias quilombolas e periféricas. Dessa maneira, a “afrofabulação” transcende a criação estética para se configurar como um método de intervenção e reescrita da história negra. Ao mobilizar a ficção para preencher os vazios do arquivo colonial — onde a vida negra comparece apenas como número ou mercadoria —, Nunes opera em consonância com o que Saidiya Hartman (2020a; 2020b) conceitua como ‘fabulação crítica’. Essa práxis fabulativa encontra “assentamento” no histórico Quilombo do Cabula, território que, no período colonial, consolidou-se como um epicentro de resistência e preservação de gnose africana em Salvador. (Sales, 2020). É nesse solo que se inscreve a figura de Gbeiru (ou Beiru), liderança de origem banto e matriz do bairro que hoje leva seu nome.
É precisamente dessa articulação que se materializa a personagem Bucala. A obra afirmou-se como uma referência incontornável ao oferecer imagens de dignidade e potência para crianças historicamente submetidas à invisibilização. Como afirma o próprio autor, “Bucala é o projeto de uma vida que visa, inclusive, a produção de uma série de animação”. Inspirada na memória do Quilombo do Cabula, a narrativa habita a encruzilhada entre o vestígio histórico e a reescrita do arquivo, fabulando mundos possíveis a partir das heranças da diáspora.
Agora, uma década após seu lançamento, Bucala retorna em uma nova etapa, expandindo seu universo ficcional. Neste novo movimento, a personagem reafirma a vitalidade de um projeto literário que recusa o apagamento e investe na imaginação como ferramenta de reescrita da memória negra. Na presente entrevista, Davi Nunes compartilha reflexões sobre a incorporação da boneca Abayomi, explorando sua dimensão simbólica de resistência. Dessa maneira, a afrofabulação de Nunes potencializa a reescrita do arquivo para atuar diretamente na invenção de futuros, onde as infâncias negras se convertem em sementes plantadas no chão da memória para germinar o tempo que ainda não houve.
Por fim, consolidado por uma carreira acadêmica — mestre pela UNEB e doutor pela PUC-Rio —, Davi Nunes reafirma, em obras como Zanga (2018) e Banzo (2020), que a literatura é um território de disputa epistemológica que Dionne Brand (2025) define como o inventário de presenças/ausências. Ao revisitar sua recepção, o autor celebra o fato de que as novas gerações possuem hoje o que lhe foi negado: “um livro que tratou com dignidade, poesia e beleza as suas infâncias”. Em 2025, esse percurso ganha novo fôlego com o lançamento pela editora Malê de Bucala e a boneca Abayomi, narrativa na qual a personagem defende o Quilombo do Buraco do Tatu.
A partir dessa inflexão, Nunes reitera a imaginação como o espaço definitivo de memória, ancestralidade e resistência, convertendo-a em matriz de criação no tempo-que-há-de-vir. Se na memória histórica do Cabula ainda ecoa o ranger da dor da corrente — atualizado hoje pela bala que insiste em matar corpos negros —, na afrofabulação de Nunes esse som é confrontado e desestabilizado pela gramática do reencantamento.
Depois de uma década do lançamento de Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula, como foi revisitar essa personagem para criar Bucala e a boneca Abayomi? O que mudou em você e no seu olhar sobre a história ao longo desses anos?

Esta ótima pergunta me ajuda a revisitar, quase em flashback, esses dez anos trabalhando com a personagem Bucala. Eu publiquei a primeira edição de Bucala em 2015, o livro logo se tornou um sucesso entre as crianças, professoras e pedagogas. Por incrível que pareça, um livro sobre infância negra e quilombola representando a potência dessas existências – sem os demarcadores de estereótipos – não era tão comum à época. Por isso, a obra, tanto em sua primeira edição com a Editora Uirapuru quanto a segunda edição, em 2019, com a Editora Malê, se tornou um produto cultural importante quando se pensa a literatura de recepção infantil. Nestes dez anos, trabalhei mais densamente a personagem Bucala através da escrita do roteiro do conga-metragem de animação Bucala e a boneca Abayomi, que em breve será lançado. Como também na escrita de 26 roteiros de uma série de animação, com 13 minutos cada episódio, que é baseada na personagem. Bucala é um projeto de uma vida que tem como finalidade, para além dos livros, a realização da série de animação.
A boneca Abayomi mobiliza uma densidade simbólica importante na cultura afro-brasileira. Como se deu a escolha de incorporá-la à narrativa e que camadas de sentido você buscou tensionar a partir dessa presença?
A decisão de eleger a boneca Abayomi como elemento importante dessa nova narrativa nasce do reconhecimento de sua potência simbólica, histórica e afetiva dentro da cultura afro-brasileira. Além de tentar explorar as multiplicidades e diversidades de origens e percursos simbólicos desta boneca.
Quais foram os principais desafios implicados na escrita desta nova narrativa — seja no plano da linguagem, da fabulação histórica ou da elaboração afetiva da infância negra?
Escrever literatura de recepção infantil envolve ter sempre muitos cuidados: estéticos, narrativos, afetivos. Mas como Bucala já era/é um exercício insinuante de linguagem, este novo livro Bucala e a boneca abayomi aparece como um contínuo de uma escrita maior que venho exercitando com os roteiros. Os desafios de ordem literária estão em modelar uma forma de escrita para recepção infantil que tem como centro a infância negra e quilombola. Do ponto de vista histórico, se encontrava em fabular na lacuna da história oficial, uma narrativa de uma heroína quilombola que se passa no século XIX, na mesma época em que o Quilombo do Cabula foi destruído, segundo o documento policial da época – a carta do Conde ao Visconde de Anadia, 1807.
Muitas crianças, professores e famílias negras criaram vínculos fortes com a primeira obra. Como você percebe esse retorno do público ao reencontro com a personagem?
Não sei direito como vai ser esse encontro. É um outro momento. Agora mesmo há uma diversidade magnífica de livros para infância negra, espero que o livro componha bem a cena e divirta leitores, principalmente as crianças.
Que temas e valores você acredita que estão mais presentes ou mais aprofundados neste novo livro?
O livro tenta recompor positivamente a história da luta negra e quilombola no Brasil ao mesmo tempo em que é um exercício de imaginação – um pequeno dispositivo poético para se construir outros mundos possíveis – passados e futuros.
Poderia comentar o seu processo de escrita neste projeto, especialmente no que diz respeito às pesquisas, às referências mobilizadas e às memórias que atravessam a construção da narrativa?
A pesquisa venho fazendo há anos, e nas lacunas, fabulo. Uso muitos resíduos do quimbundo no português popular brasileiro para construir a escrita. As memórias vêm da minha infância em Narandiba e no Beiru. Nesses lugares vivi entre a mata, resíduo do Quilombo do Cabula perdido, e a favela.
Como foi, para você, o movimento de se enveredar pela literatura infantojuvenil depois de uma trajetória já consolidada como poeta?
Foi um experimento. Ao escrever, consultei muitas amigas pedagogas e com o que ouvia, fui adequando a linguagem para a faixa etária infanto-juvenil. Mas o mais importante foi escutar as crianças, a sua dicção poética.
De que maneira a sua experiência com a poesia informa a escrita para o público infantojuvenil? Que procedimentos — como ritmo, imagem ou musicalidade — são deliberadamente transpostos para essa prosa?
Há poesia é minha base. Está em tudo em que escrevo: do ensaio ao texto de recepção infantil. Porém, busco a utilizar na medida certa, sem exageros. Quero dizer que a minha habilidade com a escrita de poesia, qualificou a construção da literatura infantil. A poesia como um portal para adentrar o universo ficcional da infância.
Em sentido inverso, a escrita para crianças e jovens produziu inflexões na sua prática poética? Que transformações você identifica nesse trânsito?
Com certeza. Construir cenários fictícios infantis, sair da coisa adultocêntrica modelou mais formas de minha escrita.
Na sua percepção, que papel a literatura infantojuvenil ocupa hoje na formação de crianças negras e na construção de propostas pedagógicas antirracistas?
A literatura infantojuvenil ocupa hoje um papel central na formação de crianças negras ao oferecer espelhos positivos de identidade, pertencimento e autoestima. Ela contribui para romper silêncios históricos e disputar imaginários marcados por um regime de representação antinegro. No campo pedagógico, torna-se ferramenta fundamental para construir novos imaginários, ao valorizar narrativas, estéticas e saberes afro-diaspóricos e indígenas.
A Bucala se tornou um marco na literatura para crianças negras na Bahia. Como você enxerga a responsabilidade — e também a alegria — de dar continuidade à sua jornada?
A alegria é grande. Nestes dez anos do lançamento do primeiro livro aconteceram várias coisas. Veja bem: em 2015 fui em várias escolas que tinham crianças de 5 a 13 anos, observo que já existe, hoje, adolescente e adultos que leram Bucala na infância. Fico curioso para saber que tipo de jovens essas crianças de 2015 se tornaram. Mas sei que tiveram algo que na minha infância eu não tive, um livro que tratou com dignidade, poesia e beleza as suas infâncias, ou melhor, as suas vidas como crianças negras.

Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.

