Entrevista concedida por Marielson Carvalho  a Cristian Sales sobre os bastidores da curadoria literária.

A afirmação de Marielson Carvalho — “curadoria é uma prática efetivamente política” — funciona como linha de força desta entrevista e como chave para compreender por que pensar feiras e festas literárias vai muito além da simples escolha de convidados ou da disposição das mesas. Curar exige decisões importantes: quem terá voz, quem mediará os debates, quem ocupa os espaços, e, principalmente, quais narrativas circulam. É neste panorama de escolhas que se desenvolve a conversa que aqui compartilhamos.

Ao longo da entrevista, Marielson reflete sobre os bastidores da curadoria literária e os desafios de pensar a cena cultural a partir dos territórios baianos, chamando atenção para a centralidade da diversidade, da representatividade e da circulação de vozes negras, indígenas e dissidentes.

Em 2025, a Bahia estabeleceu um marco histórico, com mais de 100 feiras, festas e festivais literários realizados ao longo do ano. Este número recorde de eventos dedicados à literatura esteve distribuído de forma abrangente, alcançando os 27 territórios de identidade do estado. As feiras literárias aparecem como espaços de encontro entre autores, artistas, pesquisadores e formação leitora, mas também como políticas culturais que exigem continuidade. Nesse ponto, a calendarização surge como elemento fundamental: quando uma feira se torna parte do calendário cultural de uma cidade, ela cria expectativa no público, fortalece vínculos comunitários e consolida processos formativos de curto e longo prazo.

Já os editais de fomento, embora igualmente necessários para a sustentação dessas iniciativas, aparecem na conversa como um campo de debate mais tenso. Marielson chama atenção para o fato de que, muitas vezes, os critérios estabelecidos pelos editais acabam por influenciar — e até direcionar — os rumos do fazer literário, da curadoria e da própria produção cultural. O risco, aponta ele, é transformar a criação em resposta burocrática a exigências externas, quando o desafio deveria ser pensar políticas públicas que sustentem a diversidade sem engessá-la.

Com uma trajetória intelectual extensa, Marielson Carvalho é professor, pesquisador, curador literário e fotógrafo. Doutor em Literatura e Cultura pela UFBA, mestre pela UFPB, é autor de Acontece que eu sou baiano: identidade e memória cultural no cancioneiro de Dorival Caymmi (EDUNEB, 2009) e Caymmianos: personagens das canções de Dorival Caymmi (EDUNEB, 2015). Defendeu a tese O Atlântico negro de Angélique Kidjo: memória e ancestralidade em uma trilogia musical afro-diaspórica, dedicada à obra da cantora e compositora beninense Angélique Kidjo. 

Como fotógrafo, Marielson direciona seu olhar para temas que também perpassam suas investigações artísticas e acadêmicas: festas populares, patrimônio histórico e cultural, religiosidade afro-baiana e as dinâmicas das vidas urbanas. Tem participado como curador, mediador e convidado de eventos como a Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), a Festa Literária Internacional da Praia do Forte, a Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), a Bienal do Livro, o Instituto Goethe, o Festival Literário Nacional, a Feira Literária de Andaraí e a Feira Literária Internacional de Canudos, entre outros. Foi jurado internacional do Prêmio Oceanos (2021 e 2023), avaliador de projetos da Fundação Cultural do Estado da Bahia em diferentes comissões de literatura, sendo o primeiro escritor baiano residente por edital da FUNCEB (2014). Atuou como curador artístico do livro Bahia, 2 de Julho: uma guerra pela independência do Brasil (EDUNEB, 2023) e como curador da Feira Literária do Poeta, em Castro Alves (2024 e março de 2025), da Festa Literária da Caramurê – Ano III, em Salvador (2024), além da 1ª Festa Literária Estudantil dos Povos Indígenas do Território de Itaparica – FLEPITI.

Como no verso de Caymmi — “o mar, quando quebra na praia, é bonito” — a conversa se fecha no ponto mais delicado do trabalho curatorial: “cuidar da expectativa do outro”, deixando que a palavra crie interesse, produza bons encontros e abra caminhos para a leitura e a literatura.

Como você definiria o papel de um curador literário hoje, especialmente no contexto baiano?

Primeiramente, temos que pensar o tipo de projeto literário no qual a presença de uma curadoria é requisitada. Quando é um evento presencial ou remoto, como feira, festa ou festival literário, o curador precisa saber a proposta do projeto para começar a delinear as atividades e ações para públicos específicos e geral, pensando em temas alinhados com as expectativas de uma recepção, ou seja, sempre a partir de uma pesquisa sobre a cena literária local/regional, nacional e internacional, a depender da dimensão do evento. Neste sentido, o papel de um curador é ser o mediador de várias experiências de criação, produção e recepção literárias com o objetivo de apresentar uma programação integrada em diferentes composições de mesas, performances, saraus, rodas de conversas etc., e especialmente atuando na Bahia, o curador precisa articular vozes literárias que verbalizam a arte da palavra nos territórios baianos para difundir, expandir e circular esses autores.

Quais critérios orientam suas escolhas de autoras, autores e mesas nas feiras que você coordena?

Os critérios sempre são ajustáveis a depender da proposta do projeto, porque, embora eu tenha referências principais de seleção como experiência, produção, representatividade e diversidade, a coordenação do projeto tem suas indicações e sugestões de temas e autores que se ajustam ao meu perfil de curadoria. Geralmente, quando me convidam já conhecem meu trabalho acadêmico, intelectual e artístico, portanto, ao aceitar fazer parte de um projeto é porque temos alinhamentos estéticos e críticos, além da liberdade curatorial a partir dessas ideias em comum.

O que uma feira literária verdadeiramente baiana precisa ter para não reproduzir modelos de outros territórios?

Como falei anteriormente, é preciso que a curadoria não seja bairrista nem universalizante, ou seja, que faça uma programação para uma expectativa de público diversa por faixa etária, gênero, sexualidades, raça, formação etc., ou seja, quanto mais dimensionarmos esses públicos melhor, porque o objetivo é tornar a literatura, o livro e a leitura como estratégia de troca de saberes entre várias experiências culturais e sociais da Bahia e de fora. Sendo assim, o mapeamento que o curador tem de fazer é bem largo e complexo para atender a essas demandas de visibilização da produção literária baiana para além da centralidade da Capital ou dialogando com esse repertório de modo a mostrar autores e coletivos em um contexto diferente de produção literária.

Na sua experiência, quais tensões mais aparecem quando se pensa em diversidade e representatividade nas programações literárias?

Nunca houve tensões. Tive liberdade para formatar uma programação de acordo com a proposta de evento literário definido. Isso corresponde também a definir quantas mesas e quais temas, assuntos, títulos, ou quem pode mediar ou convidar. Uma curadoria é uma prática efetivamente política ao selecionar quem pode interagir e contribuir com a proposta a partir de sua experiência artística e intelectual, correlacionado a suas identidades e subjetividades. Nunca houve censura do ponto de vista de impedir que um/a autor/a participasse.

Há algum “vazio” ou lacuna que você ainda identifica na cena literária da Bahia e que te orienta enquanto curador?

A profissionalização dos autores tem sido muito boa em termos de cuidado com a própria carreira e imagem, ou seja, tanto na qualidade e produtividade de suas obras quanto na construção de uma marca através de redes sociais, sites, blogs, plataformas digitais. Porém, o mercado editorial baiano é ainda pequeno e muito concentrado em Salvador, não acompanhando o intenso e crescente movimento de autores de outros territórios, e mesmo daqueles da capital com suas zonas de invisibilização criativa. Quando não publica com recursos próprios, o faz por editais públicos, que por sua vez pontua melhor ou exige projetos de editoras baianas. Exceto alguns/algumas escritores/as baianos contemporâneos, ou de outras gerações, publica-se por editoras nacionais. Vê-se, portanto, que as feiras e festas literárias passam a ser uma forma muito importante de divulgação, porque dinamiza o mercado dentro e fora da internet.

Como você percebe o impacto das feiras literárias na formação de novos leitores e escritoras/es no estado?

Muito importante. A calendarização dessas festas é uma estratégia que deve ser incentivada pelos poderes municipais e estadual a partir de financiamento anual como política pública de educação e cultura. As mais antigas, como a FLICA, são referência para outras que vêm surgindo nos últimos anos, porém com suas características próprias de realização. Infelizmente, muitas não terão continuidade porque faltará apoio institucional continuado, já que a iniciativa privada só o faz por leis de incentivo a depender do histórico da feira. Então, é o poder público que deve investir como política estruturante de formação e letramento literário.

Quais iniciativas ou gestos precisariam se tornar permanentes para fortalecer o circuito literário baiano?

Quanto mais editais de publicação melhor, porém não pode ser a única plataforma de oportunidades para o escritor estreante, já que viram dependentes do Estado ou dos municípios. A distribuição desses livros em escolas, universidades e bibliotecas públicas, além de uma proposta de circulação por meio de oficinas, debates, rodas de conversas desses autores é uma estratégia de fortalecimento.

O que mudou nos últimos anos na relação do público com as feiras literárias?

Penso que se criou uma nova prática de interação, pois com o aumento desses eventos fez com que o público participasse mais, criando expectativas e interesses que reforçam a sua continuidade como calendário efetivo de ações culturais daquela comunidade ou cidade. O contato com autores locais ou de fora, apresentando sua obra, revelando suas técnicas e referências, memórias e histórias, desperta ou inspira outros/as escritores. Isso diminui a distância autor-leitor até então mediada pelo livro.

Como você equilibra demandas institucionais, expectativas do público e a ousadia estética necessária para inovar?

Sempre parto de uma proposta a ser executada. Então, quando sou convidado e analiso o projeto curatorial, sugiro aqui e ali alguns ajustes conceituais e de logística de modo a ser mais fluido para mim na fase de mapeamento/pesquisa dos convidados e montagem das mesas. É um trabalho complexo porque, mesmo que já tenha uma prévia, depende da agenda dos autores, das limitações orçamentárias, das indicações etc. A minha, digamos assinatura, é resultado dessas variantes que se adequam ao objetivo da feira.

Qual foi a curadoria mais desafiadora da sua carreira — e o que ela te ensinou?

Fui convidado para ser curador da I Festa Literária dos Povos Indígenas do Território de Itaparica – FLEPITI, em Paulo Afonso, Bahia. Ajudei na elaboração estrutural do projeto, mas não me senti “autorizado” a fazer o trabalho curatorial sozinho e sugeri que um curador indígena local ou ancestralmente ligado a essas comunidades fosse o protagonista da programação. Como homem negro, não queria ser identificado como curador de uma feira indígena por entender que esse espaço não me pertencia como sujeito de pertencimento social e cultural, embora como pesquisador e professor de literatura e cultura afro-brasileiras e africanas dialogue teoricamente com textos e autores indígenas numa perspectiva decolonial do saber ocidental e racista. Então, convidamos o escritor e artista visual Ezequiel Vitor Tuxá, que assumiu a curadoria, tendo eu como co-curador. Aprendi que não posso me arvorar competente como curador se não respeitar a representatividade do outro na elaboração ou execução do projeto, na medida em que se eu penso uma festa literária a partir dessa diversidade ela tem que ter também agentes e atores em sua equipe.

Quais presenças você considera inegociáveis em uma feira literária?

Autores negros, indígenas, LGBTQIA+, +, PCDs etc. Uma curadoria precisa o máximo possível integrar e interagir mais as expressões escritas e orais. Para tanto, um mapeamento articulado com outras redes de produção literária tanto na Universidade, quanto em coletivos, ajuda a programar mesas com convidados e temas mais diversos.

Em sua visão, como as feiras literárias podem contribuir para ampliar a visibilidade do pensamento crítico de mulheres negras e de vozes dissidentes?

Lembro que em 2022 eu orientei uma pesquisa de iniciação científica sobre a presença negra em três feiras literárias baianas (FLICA, FLIGÊ e FLIPELÔ) e minha bolsista identificou em 10 anos o aumento considerável de autores negros nas mesas e mediações, além das curadorias. Isso foi potencializado especialmente pelo crescente número de publicações no curso do incentivo a editoras e autores por meio de editais ou com investimento próprio de editores e autores. Hoje essa presença aumentou tanto porque mais feiras literárias surgiram quanto porque o mercado editorial para autorias negras faz parte de uma estratégia de ocupação epistêmica necessária para o letramento racial e literário de crianças, jovens e adultos. Estamos consumindo o que é nosso feito por nós mesmos, então o curador de uma de uma festa literária tem de estar atento a essas vozes dissonantes em suas mais variadas expressões de escrita.

O que ainda te emociona ou surpreende nesse trabalho?

O retorno do público e dos convidados antes, durante e depois do evento, porque entre o primeiro contato com os autores/artistas para compor as mesas, depois a divulgação da programação, a interação leitor-autor no dia das atividades e o movimento positivo que isso resulta em termos de formação é muito gratificante para o curador, pois é reflexo de uma construção de meses de escuta, pesquisa e convencimento. É o cuidado com a expectativa do outro de algo que lhe interessa ou que vá criar interesse a partir dessa troca, isso me deixa realizado.

Que novos nomes da literatura baiana você acredita que o público precisa conhecer agora?

É muita responsabilidade responder essa pergunta, porque é tanta gente que escreve bem na Bahia que pelo espaço aqui limitado não caberiam todos, entre novos nomes e outros de longo curso… Evanilton Gonçalves, Vitória Maria Matos, Marcelo Ricardo, Jorge Augusto, Anderson Shon, Lucas de Mattos, Calila das Mercês, Jordan, Hildália Fernandes, Sandro Sussuarana, Ezequiel Vitor Tuxá, Maria Clara Aquino, Breno Fernandes, Wesley Correia, Alex Simões, Daniela Galdino, Lima Trindade, Kátia Borges, Rita Santana, Marcus Bórgon, Sandro Ornellas, Tiago D. Oliveira, Marcus Vinicius Rodrigues, Lívia Natália…

O que você imagina para o futuro das feiras literárias na Bahia?

Eu penso que algumas vão se calendarizar, ou seja, vão continuar acontecendo independentemente da existência de editais, embora mesmo que haja editais não lhes garante continuidade porque depende das novas propostas curatoriais e exigências. Aquelas já consagradas, vão continuar porque tem aporte financeiro por leis de incentivo.

Cristian Sales é correspondente Literária – Metropolitano de Salvador. Crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.


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