Resenha feita por Cleber Teixeira sobre o romance de estreia do escritor itaberabense Alisson de Souza.

Augustina (Nauta, 2025), romance de estreia de Alisson de Souza, propõe uma imersão densa e perturbadora na subjetividade de sua protagonista. Trata-se de uma obra que recusa a linearidade confortável e aposta na fragmentação como forma de traduzir o mal-estar existencial de uma geração atravessada por deslocamentos, heranças ideológicas ambíguas e um profundo sentimento de desenraizamento. Desde as epígrafes que abrem o livro uma reflexão sobre a perda do “caminho de volta” e outra sobre a identidade como soma de lugares vividos — o romance anuncia seus principais eixos temáticos: o tempo como agente de fratura, a memória como espaço instável e a identidade como construção precária. Essas ideias não aparecem apenas como temas, mas estruturam o próprio modo de narrar, revelando um projeto estético coerente e consciente.

A linguagem de Alisson de Souza é marcada por uma prosa introspectiva, sensorial e carregada de densidade emocional. O autor faz da palavra um instrumento de tradução do corpo e da mente em colapso: o calor excessivo, os odores, o cansaço físico e psíquico funcionam como extensões da angústia da protagonista. O tom melancólico e ansioso domina a narrativa, e o ritmo oscila entre períodos longos, que mimetizam o fluxo da consciência, e frases abruptas, que intensificam os momentos de crise. Não se trata de ornamentação estilística, mas de uma escrita funcional, que submete a forma ao estado psicológico da personagem.

A estrutura narrativa reforça esse mergulho interior. Ao abandonar a cronologia linear, o romance constrói um verdadeiro labirinto da memória, no qual passado e presente se interpenetram constantemente. O uso de flashbacks e monólogos interiores não apenas esclarece a trajetória de Augustina, mas evidencia a impossibilidade de separar aquilo que foi vivido daquilo que ainda a assombra. O espaço também se organiza simbolicamente: a oposição entre a cidade natal e a capital traduz o conflito entre tradição e desejo de autonomia, sem que nenhum desses polos ofereça, de fato, um lugar de pertencimento.

Augustina, enquanto personagem, é construída com notável complexidade psicológica. Suas aspirações intelectuais e seu desejo de liberdade contrastam com uma realidade marcada por precariedade material, solidão e incomunicabilidade familiar. O vasto repertório cultural que a atravessa não aparece como exibicionismo erudito, mas como linguagem identitária, um modo de tentar organizar o caos interior e atribuir sentido à própria experiência. A trajetória da personagem culmina em um colapso físico e emocional que funciona menos como clímax narrativo e mais como revelação do esgotamento de um modo de existir.

Entre os temas centrais do romance, destaca-se a solidão urbana como experiência radical. A cidade grande, longe de cumprir a promessa de liberdade, torna-se um espaço de anonimato e isolamento. O episódio natalino — com ruas vazias, diálogos truncados e ausência de afeto — sintetiza o sentimento de alienação que atravessa a obra. A isso se soma a tensão permanente entre memória, identidade e deslocamento, fazendo da subjetividade da protagonista um campo de batalha entre o que foi, o que se perdeu e o que jamais se consolidou.

O efeito de leitura pretendido é claramente imersivo. O leitor não observa a crise de Augustina à distância; ele é convocado a habitá-la. Esse procedimento, embora possa causar desconforto, constitui a maior força estética do romance. Ao fazer da leitura uma experiência de compartilhamento da angústia, Alisson de Souza transforma o ato literário em gesto ético: ler é aceitar o risco de ser afetado.

Como romance de estreia, Augustina revela maturidade formal, domínio técnico e clareza de projeto estético. Seu foco quase exclusivo na interioridade trata-se de uma escolha deliberada e coerente com a proposta de um romance de câmara, concentrado no drama psíquico. Em síntese, Alisson de Souza apresenta uma obra relevante e sensível, capaz de transformar o retrato de uma consciência em crise em diagnóstico preciso de uma época marcada pela solidão, pela herança de fracassos coletivos e pela incessante busca por sentido.

Sobre o autor: Alisson de Souza nasceu em 1976, na cidade de Itaberaba, Bahia. Estudou o ensino fundamental e o segundo grau na Escola Maria Bernarda. Morou em Itabuna, entre 1996 e 2000, onde cursou Direito na Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus). É advogado na área do Direito Público, e passou longos anos afastado da literatura. Reconectou-se com a ficção literária após os encontros do Círculo de Leitura em sua cidade natal. Daí, percorrendo estilos de diferentes escritores, despertou um sonho antigo de escrever histórias. Este romance de estreia, Augustina, é fruto disso tudo.

Cleber Teixeira é Correspondente Literário – Piemonte do Paraguaçu. Professor de língua portuguesa da rede estadual, especialista em Estudos linguísticos e literários, poeta premiado em concursos literários (2003, 2004), cordelista e editor-chefe da agência de notícias Cemanews.


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