Crônica-ensaio de noi soul sobre o Café Literário do Leia Mulheres Vitória da Conquista e a escrita poética como gesto de encontro, resistência e florescimento coletivo.
Ainda me espanto com a maneira como certos encontros parecem preparados por uma espécie de brisa secreta que entende de gente. De gente! Assim foi o encontro do Leia Mulheres Vitória da Conquista (VCA) em homenagem às mulheres que escrevem poemas, ocorrido no dia 25 de outubro de 2025, no Morioka Café, Vitória da Conquista, Bahia. O encontro tem nome de batismo bem convidativo: Café Literário. Deguste, então, um pouco da delícia deste momento por meio das impressões que compartilharei com vocês nesta pequena crônica.
O Leia Mulheres VCA é um clube de leitura que desde 2018 respira histórias sob a coordenação cuidadosa de Raigil Correia Rosas. Leia Mulheres é um projeto nacional iniciado em São Paulo, nascido da urgência de ler mais mulheres, de ouvir suas perspectivas, de permitir que suas narrativas ocupem as mesas, os salões, os cafés, os cotidianos e que se expandiu pelo país neste movimento de ideias que já fervilhavam em outras mentes e corações ávidos por este espaço. Em Vitória da Conquista, seu florescer tem sido contínuo, um trabalho persistente de quem sabe que literatura é ferramenta de transformação social, é encontro e é também respiro em meio ao caos cotidiano.
Recebi, com surpresa e entusiasmo, um lindo convite para participar do Café Literário e também ser uma das poetas homenageadas. A expectativa era grande e não só foi preenchida, como foi transbordada em beleza, poesia e abraços.
Chegou o dia! Chegamos ao lindo espaço, Morioka Café, que já cativou corações de muitos escritores e escritoras da cidade, lugar onde ideias e projetos literários têm sido pensados e planejados. Ali, as mesas se ajeitaram para receber as mulheres poetas homenageadas, que escrevem mundos por meio da poesia:
Ana Luz
Cristina Leilane
Karla Lima
Fernanda de Moraes
Flavia Assunção
Geovanna Gabbardo
noi soul
Ybeane Moreira
Homenagear escritoras atuais e locais tem algo de gesto político, mas também de gesto íntimo. Remete-me à imagem de uma vela acesa dentro de casa anunciando ao mundo que ainda existe luz e calor. Reconhecer mulheres escritoras atuais da cidade e região é reconhecer que há força no “simples” ato de seguir escrevendo, mesmo quando o mundo nos apresenta tantas distrações e continua a tentar nos silenciar.
A forma como cada autora foi apresentada pelos membros do Leia Mulheres VCA (composto por mulheres e homens, vale dizer) foi um carinho que preciso destacar. A voz, o olhar, o respeito com que cada um apresentou as escritoras se derramava pelos cantos e pelas palavras. Não havia pressa… Havia cuidado nos detalhes. E um tipo de emoção que só nasce quando uma palavra encontra seu destino: o ouvido certo.
E os poemas lidos por suas próprias autoras? Ganharam uma textura, um corpo, uma dimensão outra que nos chegava como uma pequena revelação da verdade, a verdade anunciada por uma gama de vivências e experiências femininas. Alguns vinham com delicadezas que quase não tocavam o chão; outros, com a força de quem sabe que escrever é também confrontar o mundo com luzes inesperadas; todos, com a maestria da verve de mulheres potentes. Foi bonito ver e ouvir como os textos abriam caminhos, portais internos de possibilidades.
E havia livros!
Livros das autoras homenageadas disponíveis para venda, arrumados com zelo pela organização. A literatura, ali, parecia um ciclo natural, festejado: nascedouro, florescimento, circulação, viagem para casa no coração e nas mãos de alguém. Ainda assim, foi possível notar uma certa hesitação na aquisição das obras das autoras da cidade. Não se trata de falta de qualidade, mas de um hábito ainda presente em nosso contexto cultural: o de valorizar pouco a produção local. Registrar essa percepção não diminui o mérito do encontro, apenas reforça a importância de seguirmos incentivando o reconhecimento das escritoras da região.
… E, no final deste valioso encontro, cada pessoa saiu carregando um arranjo de flores feito por um dos membros do clube, o Paulo, uma representação material daquilo que nos permeou neste encontro. Era impossível não sorrir naquele instante! As flores, que nunca pedem licença para existir, agora eram símbolo do encontro, da conexão, do cuidado que atravessou aquele 25 de outubro como um sopro luminoso.
Entre tantas flores, também é preciso encarar o terreno onde elas tentam florescer. E é inevitável nos questionarmos: Por que, se já existem clubes de leitura diversos na cidade, ainda é tão raro vê-los mobilizados para valorizar escritoras locais? Por que tão poucos se arriscam a abrir espaço para essas vozes, em vez de repetir sempre os mesmos nomes consagrados de sempre? E as instituições culturais, aquelas que deveriam ser o primeiro braço de apoio, onde estão quando uma mulher daqui quer publicar, lançar seu livro, circular sua escrita? Onde estão os editais municipais que não chegam, os apoios que não aparecem, os incentivos que só existem no discurso? É bonito celebrar um encontro como este, mas é também imprescindível perguntar quantos outros poderiam existir se a cidade, suas entidades, seus clubes, suas universidades, suas secretarias realmente se comprometessem com a literatura feita por mulheres. Quantos livros teríamos se a porta não fosse tão pesada para quem escreve daqui? E, sobretudo: até quando teremos que depender quase exclusivamente do esforço coletivo e voluntário de iniciativas como o Leia Mulheres para manter viva aquilo que deveria ser política pública e compromisso cultural de todos?
Em meio a estes questionamentos, também é imprescindível que eu reconheça o esforço de quem tem a coragem do pioneirismo. Portanto, quero agradecer ao Leia Mulheres VCA. Agradecer pelo zelo da produção. Agradecer pela oportunidade de viver esse momento que ainda reverbera em mim como um poema que não se cansa de ser lido. Fiquei fermentando estes sentimentos por quase um mês para conseguir transpô-los em palavras. E quero agradecer também por ser uma das poetas conquistenses homenageadas, por ter meu nome dito em meio a tantas vozes que admiro, por sentir na pele o que significa estar entre mulheres que escrevem o mundo com coragem.
Foi um dia para guardar. Ou melhor, uma noite com chuviscos e ventos bons. Uma noite memorável para reviver na lembrança (e em mais encontros desta natureza) sempre que a palavra pedir companhia. Evoé!

noi soul é escritora e criadora do canal Celéstyan Pulsão Poética. Membro da ACLetras, é autora de Ventre de mãe (2021), Semente de Pai (2022), descompassos (2024) e A última gota (2025). Integra o Coletivo de Escritores Conquistenses e cofundou a Comunidade Palavrilhas.










