Renato Senna e o ofício de escrever no sertão contemporâneo

A Revista Foro Literário Sertão da Ressaca dá continuidade ao seu Ciclo de Entrevistas com os novos membros da Academia Conquistense de Letras (ACLetras), projeto que se consolida como espaço de escuta qualificada, memória intelectual e reflexão crítica sobre a literatura produzida no Sudoeste da Bahia e suas conexões com o Brasil. Neste episódio, recebemos o acadêmico Renato Senna, ocupante da Cadeira nº 19, cujo patrono é Euclides Dantas.

Nascido em Itapetinga, no sudoeste do estado da Bahia, a 4 de setembro de 1950, Renato Senna radicou-se em Vitória da Conquista, cidade que constitui não apenas seu domicílio, mas também o solo fértil de sua inspiração literária. Sua formação acadêmica, realizada no Rio de Janeiro, compreende graduação em Jornalismo e Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Comunicação Hélio Alonso (FACHA), complementada por Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior pela Universidade Cândido Mendes e curso de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas.

Em sua trajetória profissional, destacam-se a atuação como professor substituto de Comunicação Jornalística na Universidade do Sudoeste da Bahia (UESB) e a docência em Língua Portuguesa no sertão baiano, paralelamente ao exercício do jornalismo freelancer em veículos de comunicação do Rio de Janeiro. Essa dupla experiência – pedagógica e jornalística – conferiu à sua escrita um caráter simultaneamente reflexivo e engajado, aliando rigor formal a sensibilidade social.

Autor de nove obras, com quatro títulos já publicados, Renato Senna estreou na cena literária com o romance “Reclusas Noites de Inverno”, laureado com o Prêmio Zélia Saldanha no 7º Concurso de Obras Artístico-Literárias da UESB (2006). A essa seguiram-se “O Pássaro Labareda e Loucura de Benjamin de León Antuñez”, “A Última Parada do Tropeiro Deocleciano Sabino Prado” (2019) e “Ardentes Trópicos, Uma Jornada Sem Volta” (2020). Aguardam publicação trabalhos como o volume didático “Talento versus Gaveta” e coletâneas de contos de temática regional, entre as quais “A Paixão de Calixto e a Ira da Mãe D’água” e “O Cemitério do Calazans”.

Ao longo da entrevista, Renato Senna reflete sobre o papel simbólico da Academia, o lugar do escritor em tempos de crise, a dimensão ética da escrita, a força da literatura regional e o delicado equilíbrio entre tradição e ruptura. Sua fala é atravessada por uma compreensão da literatura como gesto de responsabilidade, criação e permanência.

A filiação a uma Academia de Letras é um gesto simbólico de permanência. O que significa para você ocupar uma cadeira na ACLetras?

Ser aceito, entrar na ACLetras, é o coroamento de um trabalho, acredito que tanto para mim como para os novatos colegas imortais/escolhidos. O que, obviamente, muito me honra, mas também me traz responsabilidades, uma vez que a Academia representa culturalmente Vitória da Conquista, região sudoeste; portanto, vejo a Academia como uma incentivadora cultural. A ACLetras é um centro de valorização do autor conquistense, também do leitor. Eu e meus confrades/confreiras sentimos que podemos dar uma contribuição, aproximando e estimulando novos leitores a literatura regional/nacional. Enfim, a nossa responsabilidade, com empatia e inclusão, é criar novos leitores, incentivar o hábito da leitura e com isso divulgar culturalmente a região.

Fazer parte de uma Academia de Letras também é, em essência, zelar pela tradição, que é viva. Qual o papel da Academia perante as novas literaturas, aquelas que, em alguma medida, buscam romper com os modelos estabelecidos?

Toda manifestação cultural, literária, que rompa modelos ou não, é sempre bem vinda. Em absoluto discrimino, seleciono ou critico modelos criativo-culturais. Não há dúvida de que, quem escreve, cria artes, manifestavam-se segundo o seu talento; portanto, há nesse meio os geniais, os bons, os sofríveis, os ruins, o que, para esses, não existe espaço, não se sobressaem como autor, no meio artístico/literário; logo morrem. Enfim, existem obras, criações, mal pensadas, arbitrárias, até; mas nem por isso deixam de existir, afinal, toda criação é uma manifestação da alma, independente de ser vista como boa ou ruim, que busquem ou não romper com modelos estabelecidos, mesmo assim não deixam de ser uma concepção, um ato de criação.

Se toda escrita nasce de uma falta, qual ausência, ferida ou inquietação você acredita que move a sua literatura?

Tem uma frase do escritor goiano José J. Veiga – do qual gosto, respeito e admiro –, que se encaixa muito bem como resposta a esta pergunta: “Todo livro, como toda obra de arte, é o que resultou de um fracasso”; afinal, o que quis dizer o escritor acima mencionado? Segundo minha opinião, todo e qualquer motivação: ausência, ferida, inquietação, todos são motivos de nos mover, tanto pode ser de forma literária, como nas artes, no sentido amplo/abrangente; vemos que qualquer tipo de criação são vetores que nos levam a um ato criativo. No geral, todo, qualquer motivo, nos move, nos conduz a um ato criativo, a uma realização pessoal

Como a literatura pode reagir ou mesmo antecipar as crises e transformações profundas do nosso tempo? O escritor tem a obrigação ética de ser um cronista de sua época ou a ficção e a poesia devem buscar deliberadamente o atemporal?

O escritor é o reflexo de seu tempo. Toda manifestação literária, artística, é uma resultado do meio no qual viveu ou que vive o autor. A literatura/imprensa tem um papel importante em épocas de crises, de turbulências políticas, de mudanças em um país; tanto como veículo informativo ou como libelo libertário, como um veículo de denúncias contra atos arbitrários. Por mais que negue, não aceite e não assuma, o escritor, que vive “antenado” com a sua realidade, escreve sob esse meio, do ambiente que o cerca, porque, sendo filho duma vigente realidade, ele é uma consequência de seu tempo; portanto, respira ele sua época. Quanto à obrigação ética, sendo cronista, contista, ficcionista ou romancista, ao escrever não deixa de impor traços de sua personalidade, de seu estilo, transferindo à sua obra compromissos vivenciados com sua época, mas as vejo, também, como algo pessoal/subjetivo. O escritor, o artista, são sujeitos individuais, pessoais; uns comportam-se com obras atemporais, outros não, mas sem jamais deixar de escrever/narrar fatos do seu dia a dia, da sua época. São todos influenciados por fatos pelos ocorridos e pelos quais passam, ou passaram. Eu estava a reler “Os Intelectuais e o Poder”, livro de Norberto Bobbio, no qual ele trata, em reflexões, sobre as relações/ética entre os intelectuais e o poder, livro que traz teses básicas dos direitos do homem. O papel do intelectual na sociedade. Gostaria, portanto, de tematizar que o intelectual tem a responsabilidade, isto é de individuo para individuo, de forma pessoal e subjetiva, de seu engajamento social; livro, no qual, a tematizar Norberto Bobbio, independente o escritor de seu posicionamento ideológico. Para ele, o escritor tem compromisso com seu tempo. Uma obra escrita, sob essas circunstâncias, a atemporalidade passa a se tornar um fato, a fazer parte, até como registo histórico, duma época.

Sendo um membro da Academia Conquistense de Letras, de que maneira a geografia (o espaço físico e cultural de Vitória da Conquista e região) permeia sua escrita, mesmo que de forma metafórica ou sutil?

O escritor escreve o ambiente que viveu ou vive; o meio, e a geografia do espaço físico, cultural, da região em que habita/habitou, para o escritor, é determinante em sua obra, sobretudo em crônicas, sendo presenças constantes, eu diria, onipresente, até. A ficção, mesmo sendo uma realidade inventada, não deixa de impor o meio histórico, geográfico, físico e cultural.

A literatura local é frequentemente vista como periférica ou demasiadamente provinciana. Em que medida você concorda ou contesta essa ideia, especialmente escrevendo a partir de Vitória da Conquista e do Sertão baiano?

Literatura é literatura, mesmo sendo vista, por uns e outros, como periférica ou provinciana; boa ou ruim, literatura não deixa de ser literatura; portanto, não aceito, não comungo com tais rotulagens, pois as vejo como discricionárias. Qualquer parte e lugar em que viva um escritor, ele sempre romantizará, cantará, poetizará o seu torrão; Vitória da Conquista, o Sertão baiano, não serão, portanto, exceções. Acredito que jamais deixarão de serem citados. Quem leu Madame Bovary de Gustavo Flaubert, logo saberá do que estou falando. O mesmo digo dos poetas, contistas, romancistas russos; o mesmo digo de ingleses, alemães, espanhóis e nossos escritores portugueses; enfim, não apenas eles viveram, sentiram e cantaram suas províncias. O vigor e a força, a influência da vida campestre, bucólica, estarão sempre presente nas obras, na criação de um escritor; o que podemos, através dos tempos, ver e comprovar, pois nós temos infinitos exemplos.

A literatura contemporânea vive entre o ruído das redes e o silêncio do texto. Como você se posiciona entre a urgência da visibilidade e a densidade da criação literária?

Visibilidade se adquire em bienais, feiras de livros, Flip’s… etc, etc. A nossa literatura está numa boa fase, vigorosa, consistente, uma vez que tem muita gente escrevendo; acredito que a pandemia fez esse milagre, pois muitos passaram a ler mais, dedicaram-se mais, muitos também resolveram escrever, o que foi e é muito bom. Andei lendo comentários, livros também, de pessoas que escreveram em reclusões, a qualidade me surpreendeu, senti trabalhos mais emocionais, existencialistas, as subjetividades, angústias, ali estavam, as percebi mais afloradas.

Narrar, em verso ou em prosa, é um ato de poder: o poder de dar forma, de interpretar, de escolher, de ordenar, de destacar certas vozes e deixar outras à margem. Em que medida o seu trabalho reconhece e se responsabiliza por essa dimensão ética da escrita?

O escritor, no ato de criar, impõe o seu estilo, narra, através dos seus personagens, a forma de como vê o mundo, o seu universo. O escritor nem sempre expõe, não explicita seu posicionamento ético/ideológico, ou, quando o faz, maioria das vezes ele transfere para seus personagens; ora de forma clara, ora de forma subjetiva. São recursos usuais, muitos escritores lançam mãos, recorrem desse habilidoso artifício. O escritor/jornalista colunista, sobretudo, pode ele externar mais ou até se posicionar, dar voz a seus princípios éticos-ideológicos, o que nem sempre é possível, aceitável, num autor/prosista ou um poeta, isto é, individualizar, simplesmente.

Qual é o seu “grande projeto fracassado” ou “projeto idealizado não-realizado”? Aquele livro que nunca saiu como planejado, a ideia que se mostrou inesgotável ou o manuscrito rejeitado que, no entanto, foi fundamental para o/a escritor/a que você é hoje? O que o fracasso lhe ensinou sobre o ofício?

Acredito que toda obra nasce de um fracasso, literário ou não. Uma obra escrita pode ser excelente para você, mas para um critico literário pode ele discordar, até cair de pau, relegando-a a um segundo plano, a um total desprezo; no entanto, essa mesma obra, fracassada no passado pode ter sido o seu “empurrão” literário, e no presente/futuro pode vir a se tornar uma obra cult. Resumindo: não existem, propriamente, fracassos, no sentido lato da palavra, mas sim uma obra que não deu certo, não fez o devido sucesso. Obra que, no ponto de vista do crítico literário, era uma obra ruim. Os leitores, por sua vez, após lerem a uma crítica desfavorável, eles não se animaram a comprar/ler o seu livro

Por fim, a palavra “imortalidade” é sempre ambígua. Se a imortalidade simbólica de uma Academia é uma luta contra o esquecimento, o que você gostaria que sobrevivesse de sua obra daqui a cinquenta anos e de sua própria trajetória como escritor?

Realmente, uma pergunta, por si só, ambígua; tanto como a expressão “imortalidade”. Ser lembrado, lido, criticado, é prova de que seu trabalho não fora esquecido, será, pois, lembrado. Cronos, o tempo, pode ser amigo/inimigo do homem, do ser vivo. A dita “imortalidade” acadêmica é uma dessas palavras que, por si, não faz jus, o tempo não aprova, por ser ela devidamente ambígua, de caráter dúbio. Espero que, o que escrevi, sirva, no futuro, como prova de minha existência, da minha passagem por este meu torrão, que sirva às pessoas que amam a literatura, apenas isso.


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