Em entrevista a Nélio Silzantov, Rossane Nascimento fala sobre tradição, silêncio criativo e o legado da palavra
O ciclo de entrevistas do Foro Literário Sertão da Ressaca, mediado por Nélio Silzantov, traz o perfil da acadêmica Rossane Nascimento, que recentemente assumiu a Cadeira nº 27 da Academia Conquistense de Letras (ACLetras), que tem como patrono o mestre João Guimarães Rosa.
Rossane é professora, jornalista, publicitária e gestora cultural. Graduada em Letras Vernáculas pela UESB (1985), com especializações em Literatura Brasileira (UESB, 1993) e Marketing (Fundação Visconde de Cairu, 2002), atualmente cursa mestrado em Educação e Cultura no Instituto Kyre’ý Sãso, em Assunção. Com 33 anos de atuação no mercado publicitário, é sócia-fundadora e líder executiva da Associação Cultural Casa dos Carneiros, instituição criada em 2007 para preservar a obra do compositor Elomar Figueira Mello. Desde 2004, gerencia exclusivamente sua carreira, coordenando a produção de óperas, concertos, publicações e festivais no Brasil e no exterior. É também responsável pelo Projeto “Arquivos Implacáveis da Casa dos Carneiros”, dedicado à guarda e organização do acervo do artista.

Na esfera editorial, coordenou obras como Sertanílias e A era dos grandes equívocos, de Elomar, e assinou a apresentação de A casa amarela, de Laurinda Viana Soares. É autora da biografia Um menino de asas com visão de águia, sobre o ex-deputado Carlos Alberto Simões (in memoriam), e atualmente prepara notas biográficas sobre Elomar. Seu trabalho converge comunicação, literatura e preservação cultural com ênfase no Sertão, especialmente o Sertão da Ressaca.
Para Rossane, ocupar uma cadeira na Academia Conquistense de Letras significa “assumir um destino” e compreender que a palavra, quando cultivada com responsabilidade, se torna patrimônio. A honraria é vista como “uma devolutiva ao Sertão que me moldou — ao sertão biográfico, ao sertão simbólico, ao sertão literário. É uma honra que carrega também o peso da continuidade: manter viva a tradição e somar minha voz a tantas que vieram antes. Muito mais do que um título, uma comenda, é responsabilidade, é compromisso com a minha cidadela, como a minha aldeia”.
Ao refletir sobre o papel da Academia diante das novas literaturas que rompem modelos, Rossane defende que a tradição é uma nascente, não uma âncora. “Uma Academia precisa proteger a memória, mas também reconhecer que a literatura é um corpo vivo, em constante movimento. O papel da instituição é dialogar com o novo, acolher as linguagens emergentes e compreender que a ruptura também é um modo de continuidade. A tradição só permanece quando é capaz de respirar”.
Quando questionada sobre qual ausência move sua literatura, Rossane Nascimento revela que sua escrita nasce da saudade: “Do sertão que me habita, da infância que o tempo não devolve, dos amores silentes, guardados atrás da porta e nos papéis escondidos no armário. Nasce das perdas, das brechas, do que não pude dizer. Das dores dos amores platônicos que carreguei em cadernos antigos. Minha escrita é uma tentativa de costurar esses vazios — e ao mesmo tempo de honrá-los. Mas, importante dizer, sou movida, antes de tudo, pela fé. A espiritualidade que me guia encontra fundamento nos livros da Bíblia, matriz de onde, creio profundamente, parte toda a literatura que nos formou como humanidade e como civilização. É nessa fonte primeira — espiritual, poética e ancestral — que encontro inspiração para minha caminhada no jornalismo, na cultura e na palavra escrita”.
Sobre a natureza da literatura, ou como ela pode reagir ou mesmo antecipar as crises e transformações profundas do nosso tempo — e se isso impõe aos escritores uma obrigação ética de ser um cronista de sua época ou a ficção e a poesia devem buscar deliberadamente o atemporal —, Rossane argumenta que ela deve ser sempre ambas: “Ela reage ao tempo porque nasce dele, mas busca o atemporal porque deseja sobreviver a ele”. Sua resposta desloca a discussão da ética pública para a ética interna da escrita. A ideia de que o texto “decide” evita posições rígidas, mas também deixa em aberto o papel social do autor. “Não creio que exista obrigação ética de ser cronista, mas existe responsabilidade com a verdade interior. Quem escreve precisa ser fiel à sua voz. Se essa voz narra o presente ou o eterno, é o texto que decide”.
A geografia de Vitória da Conquista e do Sertão permeia sua escrita de forma visceral. “O Sertão é o meu mundo, de onde vim. Meus pais são do interior de Pernambuco, da pequena cidade no Agreste de Pernambuco. Sou Nordestina de alma. Vitória da Conquista me moldou e ou é a minha moldura. Essa geografia, que não é apenas física, está no meu processo, no meu compromisso, na minha missão de me pertencer e de provocar e estimular esse pertencimento.” Sua resposta evoca uma territorialidade que é quase litúrgica — uma topografia emocional. Ainda que tal centralidade absoluta possa criar tensões com outras perspectivas. “Mesmo quando não falo explicitamente do Sertão, ele lateja por dentro: no vocabulário, na cadência, na emoção visceral de quem carrega uma terra inteira dentro do peito. Sou catingueira de pé rachado, sertaneja de corpo alma e espírito. Vivi e vi as telas coloridas das lavandeiras no Guarani, peguei água no chafariz e frequentei a Biblioteca Municipal no “Jardim das Borboletas”. Quem bebeu e bebe da água do Rio Verruga traz a poética de Vitória da Conquista dento de si.”
A escritora contesta a ideia de que a literatura local é periférica, afirmando que o Sertão não é periferia, mas sim “origem, raiz, eixo simbólico do Brasil profundo”. O Sertão é um “espaço onde se enraíza minha formação ética, estética, espiritual e intelectual, não é apenas o território geográfico que aprendi a nomear desde menina. É, sobretudo, um relicário ancestral. Guarda reminiscências profundas do sertão ibérico, do sertão medieval, das tradições que moldaram a sensibilidade do povo brasileiro. O sertão é um eco de velhas fundações: a memória de um mundo onde a vida se estruturava em torno da terra, da lavoura, dos animais, do compasso do tempo guiado pela luz do sol e pela cadência das estações.”
Seu posicionamento desafia com firmeza a hegemonia dos grandes centros e reposiciona o Sertão como núcleo, não margem. Ao reivindicar o sertão como origem, Rossane desloca a própria lógica da periferia. Há, em sua fala, uma crítica implícita aos filtros metropolitanos que definem valor literário — e sua resposta ressoa como manifesto contra a cegueira cultural que insiste em hierarquizar geografias. “Creio — pela fé que me sustém — que essa configuração é divina. Deus, o Grande Eu Sou, o Supremo Criador, nos entregou a terra como herança, propósito e caminho. Todos viemos da roça, do campo, do chão que nos firma. Nossa essência é campestre. Somos filhos e filhas desse labor primordial. E desse mesmo chão nasceram os grandes épicos do sertão — o sertão mítico, simbólico, espiritual — esse Éden que perdemos e buscamos reencontrar. O Sertão é geografia, transcendência e memória. Carrego dentro de mim essa paisagem espiritual e poética que recorda tanto Guimarães Rosa quanto Elomar — mestres que transformaram a aridez em canto, em poesia. Portanto, contesto essa ideia de que a literatura local é periférica. Periférica é a visão que não alcança a força da literatura produzida fora dos grandes centros. O Sertão não é periferia; é origem. É raiz. É eixo simbólico do Brasil profundo. Escrever daqui do Sertão e escrever sobre o Sertão é participar de uma tradição potente, que vai de Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, de Raquel de Queiroz a Elomar. Não há nada de pequeno nisso.”
Em um momento em que o ruído digital ameaça o silêncio necessário à criação, o entrevistador pergunta como a autora equilibra essas forças. Rossane reconhece viver na intersecção desses dois mundos – o da velocidade da informação e o da profundidade criativa –, mas estabelece uma hierarquia clara: a essência reside no silêncio sertanejo, enquanto a visibilidade serve apenas como instrumento. “Aprendi a não confundir uma com a outra. O texto só floresce quando respeito seu tempo interior. O mundo digital precisa voltar ao analógico. Há uma sede dessa ‘volta’. As pessoas estão cansadas dessa correria, de ter que acompanhar a velocidade das coisas. A alma, a essência da criação permanece na velocidade”. Sua observação sobre a “sede do analógico” revela não apenas uma preferência pessoal, mas uma crítica sutil à aceleração contemporânea, sugerindo que a verdadeira densidade literária resiste ao ritmo imposto pelas redes.
Ao abordar o poder inerente ao ato narrativo, Rossane refletir sobre a dimensão ética de seu ofício e responde com uma consciência aguda da responsabilidade envolvida, enfatizando a fidelidade à terra e às vozes que a antecedem e atravessam “o povo do Sertão, as tradições, a memória coletiva. Minha escrita busca não usurpar, mas servir. A ética do texto, para mim, é fidelidade — à verdade do outro, à minha, e à terra que me formou. Não me considero escritora, sou autora; autora de versos silentes, de poemas anônimos, escrevo narrativas romanceadas, frutos da minha paixão pelo gênero, especialmente no viés do surreal, do fantástico. Mas o meu trabalho, como autora, reconhece que a escrita é uma ferramenta com potencial criativo e destrutivo. Essa consciência me impele a assumir a responsabilidade pelo que produzo. Eu entendo que as minhas palavras, seja na publicidade, no jornalismo, no texto literário, podem, sim, materializar ideias, transmitir conhecimentos, inspirar e até transformar a realidade e a sociedade. O aspecto ético reside justamente no uso desse poder para promover a reflexão, o senso crítico e a empatia. Mas, uma ressalva, eu acredito que o fim precípuo do texto, enquanto arte, o texto literário, não é o social”. Sua firme distinção entre fruição estética e engajamento social evoca uma crítica arraigada em um debate crítico longevo, reafirmando uma visão da arte literária como um fim em si mesma. “Como toda e qualquer linguagem artística, a arte literária o fim precípuo da literatura é de fato, na minha opinião, levar à fruição estética; não se limitando apenas ao prazer superficial, mas sim a uma experiência complexa que envolve vários níveis de interação com o texto. Eu acredito que estão transformando a arte literária em “panfletagem”, uma pena”.
A pergunta sobre projetos inacabados ou “fracassados” toca em uma experiência comum a muitos criadores. Sua resposta refuta a noção negativa de fracasso, transfigurando o tempo de espera e os manuscritos engavetados em parte integrante do processo criativo. “Meu fracasso foi adiar por muitos anos meus próprios livros, guardando poemas e manuscritos como quem guarda feridas, como falei em gavetas e armários, e ainda mais nos escaninhos de minha alma. Mas esse adiamento me ensinou algo precioso: o texto amadurece no silêncio. As gavetas são também parte da obra. Nada se perdeu; tudo se tornou matéria de escrita. Hoje compreendo que o tempo do livro nem sempre coincide com o tempo da autora. E mesmo aqueles que se perderam ou saltaram das gavetas, ao longo do tempo, eles estão de fato, nos escaninhos de minha alma, vou lá recuperá-los, em visitação, quem sabe, reescrevê-los”. Essa perspectiva ressignifica a ideia de produtividade literária, valorizando o amadurecimento silencioso da obra e sugerindo que o “não escrito” ou o “adiado” constitui uma reserva fértil, um capital simbólico a ser revisitado.
Para o futuro, Rossane gostaria que sobrevivesse de sua obra, antes de tudo, o pertencimento. “Que, daqui a cinquenta anos, ou muito mais, alguém ao me ler, quiçá os poemas escondidos que lá frente estarão na estante, pudesse sentir o chamado do Sertão — o sertão geográfico, biográfico, o simbólico, o imaginado. Que reconhecessem em minha trajetória o esforço contínuo de preservar a arte, a memória e a palavra, e que, por meio da minha escrita, ainda ecoasse a verdade de que ‘o sertão está dentro de nós’. E, se um dia alguém se dispuser a escrever a minha biografia, que não deixe de mencionar minhas origens: meu berço simples; o chão agreste que me formou; o fato de que uma sertanejazinha, uma mulher nordestina de corpo e alma — uma catingueira de pé rachado do Sertão da Bahia — levantou-se do seu lugar, lutou, insistiu, brigou e não mediu esforços para honrar sua terra e suas raízes. Que também se diga que, desse pequeno arraiá, alguém ousou sonhar e alçar voos poéticos, confirmando o que ensinou Tolstói: ‘Se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia’”.

