Marilaine Guadalajara e a literatura como inquietação do ser humano

Entrevista concedida por Marilaine Guadalajara  a Nélio Silzantov, integrando o ciclo de conversas da Revista Foro Literário Sertão da Ressaca com os novos membros da ACLetras.

No âmbito do Ciclo de Entrevistas com os novos membros da Academia Conquistense de Letras, projeto que busca ir além das formalidades, mergulharemos hoje no universo particular de Marilaine Guadalajara, uma escritora cuja trajetória é marcada pela fusão de origens e pelo compromisso com a palavra como instrumento de reflexão e acolhimento.

Num gesto que é, antes de tudo, um ato de fé na permanência, a ACLetras abre suas portas para um diálogo íntimo com aqueles que dão voz e corpo à literatura da região. Ocupando a Cadeira n.º 17, que tem como patrono o poeta Sosígenes Costa, Marilaine Guadalajara não apenas integra essa instituição, mas assume com ela um pacto de honra e responsabilidade. Suas próprias respostas — francas, poéticas e profundamente humanas — expressam a narrativa de uma vida dedicada às letras, revelando os elos que unem a professora, a psicanalista e a poeta à sua função de ser uma guardiã atenta da língua.

Há algo de poético na ideia de permanência. Ficar através do tempo, “estar não estando mais”, eis um dos sentidos que Marilaine Guadalajara atribui ao ato de fazer parte de uma Academia de Letras. Para ela, a imortalidade não é uma conquista individual, mas um compromisso coletivo. “No entanto”, pondera, “apesar de todo o encantamento que essa palavra nos traz, é necessário entender que a filiação numa Academia de Letras não nos torna imortais, mas nos torna instrumento para a valorização e manutenção do idioma. Dessa forma, ocupar uma das cadeiras da ACLetras cria em mim um misto de honra e responsabilidade. Honra, por ser considerada capaz para ser um desses instrumentos. Responsabilidade, por saber que através do meu trabalho devo contribuir para a imortalidade da Língua Portuguesa”.

Nascida em Osasco, São Paulo, mas conquistense de coração — “a cidade que me acolheu adolescente e me viu crescer” —, Marilaine carrega consigo uma mistura identitária que define sua voz: “sou urbana de sangue indígena, sou paulista com raiz baiana”. Essa dualidade geográfica e cultural não é apenas um detalhe biográfico, mas a matéria-prima de sua escrita. Em suas obras, Qanta Munani (2013), Ele me tirou de lá (2021) e Máscaras (2023), o local e o universal se entrelaçam sem conflito. “A Literatura local é que dá cor à universal”, defende. “O próprio fazer literário surge assim, de um contexto local. É nessa soma de cores que surge o amplo, aquilo que, de fato, testifica do ser humano. A região de Vitória da Conquista é, comprovadamente, um celeiro de grandes escritores que dão cor local às verdades universais.

Marilaine Guadalajara / arquivo pessoal

Diante da pergunta sobre como a literatura deve lidar com o novo, aquelas formas que buscam romper com modelos estabelecidos, Marilaine recorre a Machado de Assis: “um dos maiores exemplos que temos de quebra de modelos”. Para ela, uma instituição como a ACLetras não deve fechar-se ao novo, mas observar “qualidade dessas ‘novas literaturas’, que não devem ser impostas, mas, fruto de uma tradição comprovada (…) sem perder o zelo pela sua eficácia linguística”.

Mas o que move sua escrita? A resposta vem em forma de prosa poética, um trecho de sua autoria que ela mesma invoca: Porque sempre que um sopro acaricia minha mente, escrevo… Escrevo e me liberto de todo o tédio que me aprisiona, de toda a dura lida que me escraviza, de tantos e tantos sonhos que teimam em povoar minhas noites e dias e dias e noites… Escrevo num refluxo de tudo aquilo que o tempo me levou a engolir num ato falho de uma digestão forçada… Escrevo! E, quando um sopro acaricia a minha mente, então escrevo e me liberto de todas as amarras, de todas as correntes, de todo o peso do limbo que anseia me envolver…Escrevo!”. E complementa, já em suas próprias palavras: “A minha literatura emerge da inquietação própria e profunda do ser humano, vem daquilo que a razão não explica, mas que se evidencia pela emoção.

Sobre como a literatura pode reagir — ou mesmo antecipar — as crises e transformações de nosso tempo, ou se caberia aos escritores a obrigação ética de ser cronista de sua época, ou se deveriam buscar deliberadamente o atemporal, ela responde: “Não consigo me enxergar como cronista de uma época, tampouco me vejo alheia ao que me cerca. Mais uma vez, estamos diante de uma bifurcação. Se sou cronista, assumo a responsabilidade de ser fiel a uma realidade. No entanto, que fidelidade resiste a um olhar pessoal? Por outro lado, se, deliberadamente, busco o atemporal, anulo a função da literatura como arte, como reflexo da realidade da qual sou resultado. Prefiro continuar falando de realidades atemporais: o ser humano e sua essência”.

No mundo contemporâneo, entre o ruído das redes e o silêncio do texto, Marilaine mantém o foco no diálogo íntimo com o leitor: “Quero ser lida, mas quero, antes de tudo, que cada pessoa se leia na minha obra.” E reconhece o poder ético da escrita, “O silêncio do texto ainda fala mais alto quando pensamos nessa interlocução profunda e subjetiva, nesse momento em que o leitor mergulha nas palavras e consegue senti-la como o seu próprio grito e consegue se encontrar ali”.

Ao ser indaga sobre a escrita enquanto um ato de poder: o poder de dar forma, de interpretar, de escolher, de ordenar, de destacar certas vozes e deixar outras à margem, ela enfatiza que o seu papel “enquanto escritora, sobretudo poeta, é falar do ser humano. Não dá para, de maneira deliberada, deixar de lado ou destacar vozes. É uma tarefa difícil, considerando que todos nós temos o nosso viés, a ótica por onde o mundo passa à nossa frente. É nessa hora que o escritor precisa ser muito empático, não renunciar a seus valores, mas calçar os sapatos do outro e caminhar alguns passos e, então, tentar ser o mais honesto e ético em sua escrita. É o quer procuro fazer”. E recorre dessa vez aos versos de “Personas”, do seu livro Máscaras (2023), para ilustrar sua resposta:

Eu me visto de princesa, / Sou do campo a camponesa, / Aro a terra, espero a chuva, / Sou por hora uma viúva. / Triste e desamparada. // Pulo corda, sou menina. / Sou também a bailarina, / Sou a jovem estudante, / Sou Ofélia ofegante, / Julieta na sacada. // No sertão, grandes veredas / Se emolduram para mim. / Entre espinhos vejo Rosa, / Eu mergulho em sua prosa, / Agora sou Diadorim.

Sobre projetos não realizados, Marilaine rejeita a palavra “fracasso”. “Sou professora e nós não acreditamos em fracassos”, diz, com um riso suave. “Um projeto que não se realiza não é um projeto fracassado. Fracasso é não formular projetos, não sonhar, não tentar. Tive algumas ideias que não vingaram e continuaram no plano das ideias, outras tomaram nova forma. Um exemplo disso, foi um projeto em que eu imaginei escrever sobre os mais diversos perfis femininos. Não era o momento para essa empreitada tão importante. Não consegui executar esse projeto, mas foi dessa semente que surgiu o Ele me tirou de lá (2021), em que compartilho um momento muito decisivo da minha vida. Não falei sobre os vários perfis femininos, falei sobre algo que atingiu muitas vidas. Aprendi que há muito propósito no que fazemos, nossa escrita vai direto à alma e é preciso ter um olhar muito cirúrgico na escolha dos nossos temas e fazer literário

Por fim, perguntada sobre o que gostaria que sobrevivesse de sua obra daqui a cinquenta anos, responde com a clareza de quem sabe o valor da palavra refletida: “Minha escrita é muito reflexiva, portanto, o que gostaria mesmo é deixar, por meio da escrita, uma contribuição importante nesse aspecto. Uma obra que, ao ser visitada, faça a diferença na vida dos leitores, que os torne mais críticos, mais empáticos.” E finaliza, com uma fala que é quase uma oração: “Quero que o leitor se sinta acolhido e se torne acolhedor. Que minha trajetória possa ser lembrada como a de quem honrou o ofício e foi um instrumento de Deus para tocar vidas”.


Descubra mais sobre Revista Foro Literário

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading