Entrevista concedida por noi soul a Nélio Silzantov, integrando o ciclo de conversas da Revista Foro Literário Sertão da Ressaca com os novos membros da ACLetras.
Há escritoras cuja presença literária se inscreve antes mesmo de qualquer consagração formal. noi soul é uma delas. Poeta, escritora, artista independente desde 2018 e criadora de conteúdo literário, ela chega à Academia Conquistense de Letras (ACLetras) com a solidez de quem compreende os meandros do labor com as palavras e os deveres do ofício. Em suas palavras, acredita que “a arte é um caminho que leva luz e traz à tona assuntos adormecidos”, feito quem “escreve desde que conheceu as palavras e se apaixonou por este mundo encantado onde tudo é possível”.
Sua trajetória literária é marcada por uma produção poética intensa e materializada em obras como Ventre de mãe (Editora Versejar, 2021); Semente de Pai (Amélie Editorial, 2022); descompassos (Manufatura das Letras, 2024); A última gota (UICLAP, 2025). Integra o Coletivo de Escritores Conquistenses e é Cofundadora da Comunidade Palavrilhas.
Em conversa para o ciclo de entrevistas da FLSR com os novos membros da Academia, noi soul fala com a lucidez de quem reconhece a dimensão simbólica do gesto: “Para mim, mesclam-se sentimentos de diversas ordens”, afirma. Entre a gratidão e o senso de dever, ela se coloca como parte de uma cadeia histórica, consciente de que a literatura conquistense é uma tessitura em andamento, com raízes antigas e vozes insurgentes, ambas essenciais para compreender o que Conquista foi, é e pode ser.
“Gosto de imaginar que nós temos o papel de sermos elo (como Academia). É fundamental pensarmos a história da literatura, principalmente a brasileira e, aproximando mais um pouco, a literatura conquistense, saber quem e o que nos trouxe até aqui, valorizar o chão que foi pavimentado, plantado, regado e cuidado por outros e outras que nos antecederam e, ao mesmo tempo, indispensável olhar o brotamento das vozes que surgem buscando rupturas e renovação. Como instituição que se propõe baluarte da memória ao mesmo tempo que observa/acolhe/registra o que está acontecendo na atualidade, vejo que a Academia deve ter papel preponderante no incentivo às novas literaturas e vozes insurgentes, oferecendo, inclusive, espaço para sua atuação, de maneira a ser esta ponte/amálgama entre o tradicional e o contemporâneo”.
Esse compromisso ético aparece, inclusive, quando reflete sobre o papel da instituição como “elo”, palavra que ela mesma repete com ênfase. Essa consciência de ponte revela uma compreensão madura do fazer literário enquanto memória viva e simultaneamente aberta ao porvir.

Natural da própria cidade, ela identifica no território não apenas um lugar de origem, mas uma zona de elaboração estética. “Vitória da Conquista é meu laboratório-ateliê. Eu me sinto uma cientista-poeta-observadora da cidade. Vejo que minha escrita e inquietação nascem/florescem de maneira muito natural neste contato com os espaços que frequento na cidade”, diz. Nesse espaço, geográfico, afetivo e imaginário, surgiram seus primeiros escritos “Lembro-me de escrever em papéis soltos enquanto acompanhava minha mãe no posto de saúde do bairro Kadija. Escrevia sobre a saúde e nossas condições precárias de vida. E também falava de contrastes, sentimentos de encantamentos e outras sensações que perpassam por mim. Hoje, não tem sido muito diferente, embora eu tenha conduzido minha escrita por formas que soam mais sutis ao me referir aos cantos, encantos e desencantos da única cidade onde morei até então”.
Essa vocação precoce para observar e transformar inquietações em palavra encontra seu ponto culminante numa falta inaugural. Questionada sobre qual ausência, ferida ou inquietação acredita que move a sua literatura, ela enfatiza:
Queria responder sem muita acurácia: tudo! Parece que tudo me falta e isso é o que me mobiliza. Mas serei mais comedida ao dizer que a minha “falta maior” e que me mobilizou a pensar na arte e, por consequência, na literatura como ferramenta de estanque foi a falta/lacuna deixada por pessoas amadas. Perdi meu irmão recém-nascido quando eu estava com 3 anos de idade. Esta foi a primeira grande falta que senti na vida e era uma falta muito etérica, uma vez que a minha convivência com ele havia sido apenas do contato com a barriga da minha mãe. E, talvez, esta mobilização que se iniciou na primeira infância, tenha emanado na produção do meu primeiro livro, Ventre de Mãe, que nasce por ocasião desta falta que eu sentia da minha mãe, mas que foi fruto de elaborações anteriores com o tema que mais me mobiliza, no fim das contas. E qual é este tema? A morte. São dois temas que são como pústulas recobrindo meu corpo artístico, o tempo e a morte, e acredito que ambos se conversam num campo ontológico e também material. Mas e… toda escrita nasce de uma falta? É uma outra pergunta a ser feita.
Como a literatura pode reagir ou mesmo antecipar as crises e transformações profundas do nosso tempo? O/A escritor/a tem a obrigação ética de ser um cronista de sua época ou a ficção e a poesia devem buscar deliberadamente o atemporal?
Aqui, duas perguntas importantes em uma, hein? Como a literatura pode reagir ou antecipar as crises e transformações do nosso tempo: a segunda pergunta dentro desta quarta questão parece dar um norte para, se não responder plenamente, ao menos nos nortear dentro de possibilidades palpáveis. Quando leio distopias escritas no início do século XX, fico me perguntando se aquilo era uma distopia ou um quadro “enfeitado” da própria realidade de sua época; é como se tivéssemos mais notícias sobre as agruras e conflitos daquele momento histórico do que uma profecia sobre a realidade de tempos vindouros (os nossos, no caso). Acredito que nós, como escritores, temos uma ferramenta extraordinária, que é a palavra, que nos facilita muitos exercícios imaginativos e nos ajuda, de certa maneira, a antecipar/prever, quiçá profetizar, um futuro próximo. E, paradoxalmente, a mesma ferramenta pode ser um fator que embarga uma previsão mais próxima do real, pois há um movimento constante da própria língua que busca, ao contrário do que querem os preciosistas, se adequar ao próprio movimento das gentes. Parece uma antinomia insolúvel! E digo isto para contextualizar minha resposta da segunda pergunta nesta quarta questão: eu acredito que, mesmo sem querer, mesmo escrevendo um algo que se pareça completamente distante ou averso à realidade atual, o escritor não consegue se desvencilhar de seu próprio tempo, então, independentemente do que eu acredite ser obrigatório ou ético em relação ao compromisso com as questões em voga na atualidade, percebo que é inescapável aos autores e artistas de modo geral que retratem o mundo do seu próprio tempo. E, com sorte e talvez alguma habilidade de captação mais apurada sobre as mazelas internas e externas da humanidade, isso que espelhe nosso tempo também se torne atemporal, não necessariamente por causa do tema, sim pela conexão real e profunda com dores que parecem sempre as mesmas, mesmo que com intensidades, significações ou novos vocábulos para buscar entender aquilo que nos permeia como seres vivos pensantes sobre a Terra. Veja o tema do amor. Alguém já se cansou de falar sobre ele?
A literatura local é frequentemente vista como periférica ou demasiadamente provinciana. Em que medida você concorda ou contesta essa ideia, especialmente escrevendo a partir de Vitória da Conquista e do Sertão baiano?
Iniciei minha caminhada pela literatura local há menos de dois anos, o que percebi ser absurdo uma vez que eu estava aqui o tempo todo e tinha mal e mal lido poemas soltos de alguns poucos autores que já entraram para o rol dos consagrados. Foi a partir do contato com outros escritores e escritoras locais, meus contemporâneos, que comecei a enxergar a importância de conhecer meu território por meio da escrita daquelas e daqueles que me antecederam e de quem está no mesmo labor neste momento do tempo-espaço. Comecei a corrigir este erro a partir das leituras de livros e blogs de autores locais. Sou inquieta e já estive em contato com autores conquistenses diversos, dos que falam de outros mundos fantásticos em suas obras, dos que poetizam a natureza e a vida quase parnasianamente, dos que falam de locais da cidade de maneira nua e crua, dos que falam de realidades periféricas e das agruras do existir em campo hostil, dos que revelam o tempo e a graça onírica do fazer artístico-literário… Enfim, ainda não sei se temos uma identidade literária local propriamente dita, todavia temos uma diversidade de vozes que, se ainda não são conhecidas e reconhecidas como deveria nem mesmo pelos seus pares, é porque ainda estamos muito distanciados uns dos outros, num fazer lítero-cultural tímido ou, simplesmente, olhando mais para fora do que para nosso próprio território.
A literatura contemporânea vive entre o ruído das redes e o silêncio do texto. Como você se posiciona entre a urgência da visibilidade e a densidade da criação literária?
Creio que tenho vivido em estado de experimentação da minha escrita e isto influencia minha maneira de lidar com redes sociais e exposição, uma vez que estou sempre nesta busca por entender o que aquilo que escrevi causará no outro que me acompanha naqueles espaços onde me permito escrever mais neste modo “oficina aberta”. Apesar de ter a escrita como companhia e como companheira diária desde os meus 12 anos de idade (com registros de textos desta época, inclusive), não me sentia à vontade para me autodenominar escritora ou poeta até agosto do ano passado, 2024, por ocasião do lançamento do meu terceiro livro físico, Descompassos. Creio que isto ocorria por um fantasma que persegue grande parte dos escritores neófitos e também porque eu iniciei minha carreira literária publicando obras de cunho muito íntimos-pessoais, como uma forma de me vulnerabilizar para abrir meu próprio caminho nesta seara. A bem da verdade, comecei a publicar sem intenções de continuidade, mas fui encontrando terreno fértil para publicar um poema ou conto aqui e acolá em antologias coletivas e, a partir de algum incentivo de meus pares, acreditei ser possível permanecer nesta jornada. Voltando ao cerne da pergunta, não tenho muita pressa de mostrar a maioria dos textos que escrevo, tanto que estão guardados em arquivos sobrepostos que custo a encontrar depois, contudo alguns textos são tão avassaladores para mim que anseio por mostrá-los logo em meus espaços de compartilhamento. Tenho uma questão: sempre acho que meu texto é melhor quando o leio em voz alta e que o impacto dele sempre perpassa por esta interpretação, o que me faz ter dificuldade em encontrar um texto meu que realmente aprecio de maneira “crua”. Talvez seja a minha influência do teatro… Penso que sempre escrevo um poema para ser encenado no teatro. Ou cantado. Não sei se isso se torna uma característica da minha escrita e pesa a favor ou contra mim, porém sigo nas experiências artístico-literárias, a maior parte tendo apenas a mim mesma como testemunha e indo parar na lixeira do meu computador. Outras, divulgadas nas redes para que eu tenha alguma ideia do que outras testemunhas me contam. Compreendo que não é fácil resistir à tentação de se mostrar sempre, de provar que continua ali nas plataformas virtuais, mas acho que consegui driblar um pouco desta necessidade mostrando o trabalho de outras pessoas, lendo textos de autores e autoras que conheço de perto ou de longe, mas com quem mantenho um certo contato social. E, enquanto apresento textos de outras pessoas, tenho tranquilidade para seguir lapidando os meus próprios sem a urgência de precisar mostrar que ainda tenho presença virtual, que ainda existo.
Narrar, em verso ou em prosa, é um ato de poder: o poder de dar forma, de interpretar, de escolher, de ordenar, de destacar certas vozes e deixar outras à margem. Em que medida o seu trabalho reconhece e se responsabiliza por essa dimensão ética da escrita?
Reconheço que narrar, seja em verso ou em prosa, é um ato de poder. Desde muito cedo, quando comecei a escrever por volta dos 11 ou 12 anos, percebi intuitivamente esse gesto ético de dar forma aos sentimentos que eu não conseguia expressar em voz alta. Escrever foi, no início, uma forma de conversar com o caderno sobre as injustiças que eu enxergava, mesmo aquelas que só cabiam na sensibilidade de uma criança. Lembro-me, por exemplo, de ter escrito um texto sobre um peixe retirado de seu habitat e colocado num aquário… Eu nem sabia, na época, que muitos peixes nascem em cativeiro, o que até invalidaria meu poema, mas a cena me marcou porque despertou em mim esse impulso de falar por aquilo, ou por aqueles, que não conseguiam falar. Este gesto se repetiu em outros textos e poemas e, aos poucos, fui entendendo que minha escrita era uma expressão pessoal e também um espaço em que vozes silenciadas podiam ganhar existência. Com o tempo, com mais vivências e consciência, essa percepção se aprofundou e fui me dando conta de que escrever é assumir uma responsabilidade ética com o que escolho iluminar e com o que deixo nas sombras. E sempre haverá o que me escapa das vistas, fato que já me angustiou bastante, mas que compreendo ser inevitável. Meu primeiro livro, Ventre de Mãe, nasceu exatamente desse reconhecimento. A maternidade, tão romantizada, me mostrou uma realidade muito mais complexa, cheia de angústias, medos e contradições e percebi que muitas mulheres viviam isso em silêncio, presas a um pacto tácito de não revelar as partes árduas do maternar. Ao escrever, ofereci minha voz a essas experiências que tantas vezes são apagadas, e entendi que meu papel como escritora é, também, abrir espaço para aquilo que merece ser dito, mas raramente encontra palco. Hoje, busco escrever com ainda mais consciência desse compromisso. Minha obra, de modo geral, é movida pelo desejo de dar voz a sentimentos, situações e grupos que, por diferentes razões, permanecem à margem. Reconheço o poder que há no ato de narrar/poetizar: poder de revelar, de questionar, de desestabilizar, de humanizar; e me responsabilizo por ele ao escolher, com cuidado e intenção, aquilo que coloco na página. Escrever, para mim, é exercer esse poder com ética, com sensibilidade e com respeito pelo que precisa ser dito, especialmente quando não encontra, em outros lugares, a possibilidade de ser ouvido.
Qual é o seu “grande projeto fracassado” ou “projeto idealizado não-realizado”? Aquele livro que nunca saiu como planejado, a ideia que se mostrou inesgotável ou o manuscrito rejeitado que, no entanto, foi fundamental para o/a escritor/a que você é hoje? O que o fracasso lhe ensinou sobre o ofício?
Meu grande “projeto fracassado”, talvez melhor dizer, meu projeto idealizado que não se realizou como imaginado, foi um romance que escrevi ao longo de dois anos. Embora minha trajetória publicada seja marcada pela poesia, este livro (O conto de Faz) foi, para mim, o primeiro gesto de me reconhecer intimamente como escritora. Escrevi e pensei nele quase diariamente durante 2 anos; havia dias em que nenhuma linha nova surgia, mas eu relia o que já existia e deixava que aquilo fermentasse em mim. As personagens me acompanhavam enquanto eu dormia, enquanto eu caminhava, enquanto eu sonhava e me dava a sensação de viver uma segunda existência, paralela à minha. Era uma narrativa longa, apesar do cenário restrito e do pequeno número de personagens. E foi justamente essa convivência prolongada com o texto que me deu a sensação visceral de estar, de fato, praticando o ofício, pois eu estava ali oferecendo tempo, sensibilidade, pensamento e vida a uma história que, de algum modo, também me escrevia de volta. O manuscrito está finalizado em essência, embora ainda peça revisões, cortes e lapidações que talvez nunca aconteçam, porque tenho quase certeza de que esse livro jamais será publicado (ao menos não pretendo publicá-lo). Ainda assim, ele é fundamental para mim. É o meu “fracasso necessário”. Não porque eu o considere tão ruim ou inadequado, mas porque acredito que cumpriu seu papel antes mesmo de chegar a um leitor só por ter me desvendado um portal interno. Foi este romance que me fez atravessar o limiar do “me imaginar escritora” para o “me reconhecer (internamente) escritora”. Ele me ofereceu uma confiança íntima, silenciosa, que nenhuma publicação posterior poderia substituir. O fracasso, nesse sentido, me ensinou que o ofício não se mede apenas pelo que apresentamos ao mundo, mas também por aquilo que nos transforma no decorrer do processo e que há obras que servem menos para serem lidas e mais para nos revelar a nós mesmas. E que alguns projetos, mesmo sem nunca ganharem leitores, são pilares invisíveis (e indispensáveis) na formação de uma escritora.
Por fim, a palavra “imortalidade” é sempre ambígua. Se a imortalidade simbólica de uma Academia é uma luta contra o esquecimento, o que você gostaria que sobrevivesse de sua obra daqui a cinquenta anos e de sua própria trajetória como escritor/a?
Eu queria conseguir fazer uma prospecção dessa natureza, mas estou, de certo modo, ancorada no que faço hoje, sem muitas expectativas acerca do impacto daquilo que faço agora sobre o futuro, próximo ou distante. Mas, como é uma pergunta que evoca mais o desejo do que o planejamento, eu gostaria que a essência do que faço sobrevivesse: a vontade de que o ser humano alcance sua humanidade de maneira plena. É isso que trago na minha escrita toda vez que falo sobre o tempo, a maternidade, a criança faminta, o idoso abandonado, os ciclos, as árvores, os passarinhos, as injustiças, a precariedade, as violências, a imaginação… Esta última, como diria Audre Lorde, escritora e filósofa norte-americana por quem nutro muito apreço, é minha bandeira: “a imaginação é essencial para ter a coragem de se redefinir continuamente e construir uma narrativa própria, desafiando as imposições sociais e culturais”. Eu quero que sobreviva, na memória do futuro, para além da minha obra ou da minha trajetória, a minha vontade e a minha disposição de tornar a realidade em que vivo mais suportável por causa da poesia.

