O corpo, o chão e o cosmos: conversas com Danilo de Athayde

Há tempos devo a Danilo algumas palavras sobre Estar na Grama. Conhecendo o autor e sua produção anterior, penso inevitavelmente em Folhas de Relva, de Whitman, “nosso mestre comum”, como você disse certa vez, embora saiba que essa associação talvez não lhe agrade ao comentar este livro.

Ainda assim, Estar na Grama me faz pensar na escuridão da terra que permite o verdor da grama rente ao chão; um gesto de escuta que nasce do interior, dessa sombra do eu que se abre à luz em forma de poema. Sua poesia, aliás, me parece esse gesto de ouvir o rumor do mundo por dentro.

Danilo de Athayde é poeta e pesquisador baiano, autor de Estar na Grama, Poema é isto, Zumbi e Sonhos e outros Sonos. Doutorando em Literatura entre a Universidade do Porto e a UFMG, investiga o imaginário científico e filosófico da “Máquina do Mundo”, articulando literatura comparada, história da ciência e epistemologia, com foco no encontro entre racionalidade, poesia e os limites do conhecimento.  Sua obra poética, já descrita como “uma mística ancorada no corpo”, percorre o intervalo entre a contemplação sensível do cotidiano e a cosmologia contemporânea. Em paralelo à tese, desenvolve Noemáfagos, projeto que prolonga, em forma poética, conceitos originais de sua pesquisa, como o “horizonte assintótico” e a “singularidade epistêmica”.

Nesta entrevista, mais do que conhecer o autor, busco aproximar aquele que lê daquilo que vibra entre o corpo e a linguagem. Danilo fala em “estar” na grama, não em habitar ou em ser o chão, a memória ou o instante. E talvez aqui encontremos uma chave para sua a compreensão da sua poesia: a busca por esse lugar sutil, o lugar entre o visível e o pressentido.

Danilo de Athayde – arquivo pessoal

Danilo, quando você escreveu Estar na Grama, você sentiu que foi o corpo que tocou o chão ou foi o chão que começou a tocar o corpo? 

Sua pergunta me faz pensar na própria escolha do título. Foi uma decisão muito consciente não chamar o livro de “Deitar na Grama”, por exemplo, o que sugeriria um gesto, uma ação do corpo sobre o chão, mas sim “Estar na Grama”, que descreve um estado. Há, claro, um primeiro impulso, o corpo que se inclina, que busca o chão. Mas, para mim, a poesia só começa quando esse gesto inicial deixa de importar e o corpo esquece que foi ele quem iniciou o contato. Nesse estado de “estar” os toques são simultâneos, porque é impossível decidir, o contato não tem uma direção privilegiada. O chão e o corpo se alcançam ao mesmo tempo, um definindo o outro. Não sei dizer se é o meu peso que pressiona a grama ou se é a grama que devolve o meu contorno.

Há algo do seu lugar de origem (Nordeste, Bahia, Salvador) que insiste em nascer, em se manifestar no verso, mesmo quando você não o chama? 

A casa da minha infância e seu gramado e jardins. Essa é a imagem que teimou em reaparecer. É um espaço particular. Por isso a imagem é a grama, não é a relva, não é o mato. É esse jardim como um “íntimo retiro”, híbrido de natureza e espaço doméstico. O livro se estrutura a partir daí. A primeira seção, que dá nome ao conjunto, é esse espaço. Nela, eu me propus uma tarefa, talvez impossível, de imaginar o que seria um “Whitman dentro de casa”. O que aconteceria com aquele fôlego expansivo, sensual, cósmico, quando ela não está na multidão ou na paisagem aberta, mas restrito aos limites de um quintal? Foi uma tarefa mal começada e certamente inacabada, mas que precisou ser fechada senão ficaria me assombrando indefinitivamente. 

A segunda seção, “Estar na Chuva” substitui o gramado pela chuva; o jardim pela “casa dos outros”. É um trânsito entre duas formas de intimidade, onde a chuva dissolve aquele primeiro cenário, mas que permanece no âmbito do interno. Depois, eu pulo direto da casa para o cosmo, o universo em expansão, para o buraco negro no centro de nossa galáxia. A cidade, o espaço público que ficaria entre esses dois polos, foi algo que quase não me interessou. O trânsito neste livro é do jardim para o vácuo intergaláctico.

Imagens que atravessam os poemas, pensamento ou paisagem?

As imagens centrais são muito táteis: a grama, a chuva. Mas elas funcionam como um fundo contra o qual o corpo se destaca e ganha contorno. É a sensação do corpo na grama, sentindo suas lanças; contra a chuva, sendo decalcado por cada gota e pelo frio; ou contra a música, ou contra o corpo dos outros, esses momentos que nos fazem sentir, tatilmente, a nossa própria existência.

E esse mesmo mecanismo se estende às imagens do pensamento ou às imagens “impossíveis”.  Os arroubos amorosos e sexuais, a paternidade, o envelhecimento e, também, a tentativa de tatear o buraco negro ou o infinito, são também fundos imensos contra os quais me debato para sentir meu próprio limite. E acho que é dessa tensão que nasce uma certa angústia que atravessa o livro, algo que eu talvez chamasse de misticismo cético ou uma espiritualidade ateia. São essas as imagens que voltam, essas que servem para medir o corpo e o pensamento diante daquilo que excede a ambos.

Sua poesia me faz sentir à beira de uma revelação. Você escreve para compreender o mundo ou para permitir que ele o atravesse?

É uma escolha difícil. Mas pensando agora, se eu tiver que escolher, diria que escrevo para descompreender o mundo. Há uma passagem no livro que diz: “tentar entender faz sentido e tem sua beleza reservada / mas estar aqui não tem nenhuma explicação / que me emocione mais do que levitar e não entender”. É por aí. Escrevo para criar imagens onde eu possa contemplar esse assombro de existir sem me desesperar. A física, por exemplo, me assombra, não só pela beleza, mas pelas incongruências, pelas regiões onde ela mesmo admite que a razão falha. A matemática, então… talvez seja a coisa mais linda que a mente humana já conseguiu conceber. Mas, se a levamos a sério até o fim, enlouquecemos. Precisamos traduzi-la em imagem, em alguma forma sensível, porque receber o mundo em estado bruto seria como ser atravessado por um raio.

Penso muito naquela cena do Paraíso, em que Beatriz explica a Dante que o que ele vê, o coro lunar, por exemplo, não é exatamente aquilo, são apenas uma tradução sensível para que ele possa contemplar sem ser aniquilado. A compreensão, ali, não é inteligir, mas ver. E o ver, para nós, só se sustenta porque temos a poesia, essa capacidade de inventar um meio-termo entre o indizível e o que conseguimos suportar pensar.

O problema é que a explicação do mundo, essa que já podemos acessar pelas técnicas e linguagens que criamos, ultrapassa, irremediavelmente, nossa compreensão humana. Eu olho para o que a física contemporânea nos diz e me abismo. Há sempre um problema infinito e contraditório dentro de qualquer coisa em particular. É o abismo da compreensão. Se não conseguirmos visualizar esse abismo com nossa invenção, com a poesia, com a poiesis, a arte de criar algo onde nada havia, então ele nos engolirá. Em Estar na Grama eu apenas tateio isso. Essas questões surgem como consequência do gesto banal de deitar-se na grama e olhar para o céu. Mas essa investigação, de como a poesia pode ser uma forma de devorar o incompreensível, um dispositivo de sobrevivência, é algo que pretendo explorar mais a fundo em Noemáfagos, um próximo livro, se ele vier realmente a existir

Estar na Grama também me faz pensar o corpo como território. Quais fronteiras se buscam e quais se dissolvem com sua escrita? 

Eu não consigo responder a isso partindo de um conceito. Minha reflexão sobre o corpo começa no meu espanto com ele. Como digo em um poema do livro, acho meu corpo uma coisa engraçada, “nem vi de onde veio”. É outro daqueles problemas infinitos: onde exatamente está essa fronteira? Quando sinto a quentura da areia em minha mão, a sinto na minha mão ou na minha cabeça? Essa duplicidade me intriga. Em “Nuvem, onda”, eu tento lidar com isso, no poema me vejo como um limiar entre dois infinitos, uma interface. Como a espuma que aparece na superfície da água, resultado de movimentos profundos e, ao mesmo tempo, reflexo desse buraco sem fundo que é o céu acima.

E isso me leva a uma confissão que pode soar estranha: eu adoro o eu. Sou fascinado por mim mesmo. Isso também é um problema, claro, mas para mim é a matéria-prima de toda invenção poética. E estou em paz com esse fascínio, com essa atenção voltada para meu próprio limite. Não tenho essas pretensões espiritualistas de dissolver a fronteira de mim mesmo. Exercitar algo disso é gostoso, é belo até, seja pela meditação ou por induções externas, como o cogumelo, mas é gostoso porque eu existo. Mantendo minha natureza do contra, eu percebo que escrevo mesmo para firmar, afirmar essa fronteira, entre mim e o mundo. Para experimentá-la, não para dissolvê-la. 

Unir tudo, em uma dissolução, é também uma espécie de morte, não é? Aliás, essa é a grande crítica que Lawrence fez a Whitman. Whitman queria se unir a todas as coisas, dissolver essa fronteira do eu, como você disse. Via-se como alguém capaz de abarcar “o bombeiro com o esterno esmagado”, “a prostituta com sífilis” ou “a adolescente prestes a parir”, e acreditava que essa unidade viria da empatia, do sentir junto. Isso é uma armadilha. Para ter empatia real pela prostituta doente, Whitman precisaria se manter ele mesmo e, assim, odiar a sífilis junto com ela, não amar tudo indiscriminadamente a ponto de se fundir. Nós todos já nos encontraremos nesse país desconhecido, que é a morte, e, lá, nos dissolveremos um no outro. Não vejo por que ter pressa.

Fora do poema, tudo já conspira para o desaparecimento do eu. É praticamente impossível conciliar o eu estável com o que a física quântica sugere. Nem o “Penso, logo existo” se sustenta, com aquele salto lógico que Descartes escondeu em plena vista e que introduz um eu do nada. Talvez o pensamento simplesmente se pense, talvez a sensação se sinta, sem que haja um sujeito segurando as rédeas desse processo. Mas isso é matéria para a crise existencial. No poema, busco remar na contramão disso aí, que ele seja uma pancárpia que eu próprio colhi e cingi e que, ao vestir, me dê corpo e textura, mesmo que provisoriamente.

Quais vozes te ensinaram a ouvir (poetas, músicos e fantasmas)?

A resposta honesta é que ainda estou aprendendo a ouvir, porque na maior parte do tempo ainda me encontro com o ouvido colado em mim mesmo. Ler é essencial, mas não necessariamente para escrever. A leitura e a contemplação da arte não funcionam, para mim, como um manual da escrita. São mais essenciais do que isso. Não as busco para aprender a escrever, e sim para aprender a viver. Toda beleza é substância de vida, o próprio movimento do espírito. O que não sei explicar é porque alguns desses movimentos eu cristalizo em poema e outros não. Talvez seja a memória que trace essa diferença, já que posso revisitar meus poemas como revisito os de outros.

Mas voltando à pergunta, há vozes que se tornaram presenças constantes, quase como os fantasmas que você mencionou. Existem aqueles a quem sempre retorno, embora meu gosto pela melancolia e pelo tenebroso me obrigue a fazer pausas nesses “preferidos”, de tempos em tempos, para não ser consumido por eles. A exceção solar é Whitman, claro, embora até ele tenha seus eclipses, como em “The Sleepers”. Os solares são poucos: Miyazaki (diretor), Adélia, Montaigne. Shakespeare, com seu gigantismo ambivalente. Mas eu volto sempre a Kafka, Emily, Drummond, Goya, Caravaggio, Dante, Blake, Tarkovsky, Pärt e Rachmaninov. Há muitos outros, certamente, mas hoje serão esses.

Se o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria, oposição é verdadeira amizade? 

Não vejo uma dedução necessária entre as duas máximas. Ambas são provocações típicas de Blake e se constroem sobre antíteses, mas não chegam a formar um paradoxo real. E, das duas, a segunda sempre me pareceu mais diretamente inteligível, lembrando que Blake era superlativo por natureza. A amizade verdadeira exige oposição, porque depende da fricção entre duas integridades. Ela pressupõe uma aproximação tão extrema e uma sinceridade tão brutal que algum conflito se torna inevitável. Voltando ao meu problema com a dissolução das fronteiras, a amizade precisa dessa centelha de resistência, desse ponto em que o outro preserva o próprio contorno e, exatamente por isso, é capaz de dizer a verdade.

Quanto à primeira máxima, “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, eu tendo a concordar menos com o passar do tempo. Há algo de verdadeiro aí, mas verdadeiro como imagem, não como método de vida. Minha intuição hoje diz o contrário: é na constrição que se sente mais. A sabedoria pode nascer de um limite bem traçado, não apenas de um transbordamento que dilui a experiência. O excesso também nos embota, anestesia, faz perder o contorno. Ainda assim, é compreensível que essa máxima tenha sido celebrada por tantos poetas. Rimbaud, com certeza, assentiria, e toda uma linhagem de poetas videntes também. Mas talvez ela funcione melhor como dispositivo para a poesia do que para os poetas. Pelo menos, para aqueles que querem passar dos 30. A imagem do excesso como via de sabedoria é poderosa porque gera forma no poema, cria tensões. Mas o poeta quase sempre cria a partir do que falta, do que o impede, do que o contém. 

Há serenidade em Estar na Grama. Há também a inquietação das raízes subterrâneas. Que forças contrárias habitam sua escrita?

A “inquietação subterrânea” é o meu fascínio pela ciência, pela física, pela matemática. É o meu desejo de “entender” o mundo. É uma força que quer dissecar a realidade, que olha para a física contemporânea e se depara com os abismos que já mencionei, com os infinitos buracos negros. É uma vontade que, se fosse deixada sozinha, teria me levado para um caminho muito diferente. Há, porém, o movimento contrário, que não quer explicar nada, quer apenas ver. Não busca uma solução, mas uma forma. É o impulso que aceita que, no fundo, nada se deixa traduzir por completo em uma demonstração sem perder algo essencial. É entre essas duas forças que eu escrevo

Às vezes penso que a poesia me salvou de me perder na matemática ou na física teórica, e digo isso com certo humor, mas é verdade. Se não tivesse a poesia, eu teria ido de cabeça para esse mundo do “entender” e, com minha tendência à obsessão, provavelmente teria enlouquecido. Mas poesia não é uma fuga da ciência, é uma forma de traduzir sensivelmente os abismos que a ciência me revela. É a minha forma de “ver” o buraco negro sem ser engolido por ele. 

E, por fim, sem adentrar a boa noite apenas com ternura, se te perguntassem o que significa Estar na Grama, o que você responderia em silêncio?

Provavelmente, apontaria para o livro. Link para o livro CLIQUE AQUI

Sidney Summers [Correspondente Literário – Metropolitano de Salvador] É professor em Salvador (BA), autor de LodoEscombroSeriam os vermes em meu cérebro e Manual prático de geomancia. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais.


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