Ensaio de Cristian Sales analisa os caminhos que Mãe Stella e Ana Maria Gonçalves abriram ao inscrever o axé, a oralitura e o pretuguês nas instituições literárias
No ano em que celebramos o centenário de Maria Stella de Azevedo Santos — Mãe Stella de Oxóssi, uma das maiores lideranças religiosas do Brasil —, Ana Maria Gonçalves chega à Academia Brasileira de Letras e toma posse justamente na cadeira 33, a mesma que, na Bahia, foi ocupada pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Coincidência? Não creio. As coincidências são sussurros antigos — o modo como o tempo e o destino (Odu) se disfarçam para que a ancestralidade nos convoque sem alarde, tecendo andanças em transe, onde razão e acaso apenas fingem existir.
Mãe Stella de Oxóssi foi a primeira ialorixá de um terreiro de candomblé a integrar uma academia de letras no Brasil. Mesmo com nove livros e diversos artigos publicados, sua chegada, à época, foi vista como gesto simbólico — mas era muito mais do que isso. Representou uma longa travessia que começou antes de todas nós: a das mulheres guardiãs de saberes, rituais e segredos dos orixás, responsáveis por preservar e transmitir ensinamentos ancestrais que, finalmente, passaram a ocupar um papel relevante na historiografia cultural do país.
E eis que, cem anos após seu nascimento de Mãe Stella de Oxóssi, a escritora Ana Maria Gonçalves ocupa outra cadeira 33 — desta vez, na Academia Brasileira de Letras (1897), como a primeira mulher negra a integrar a instituição cuja origem remonta ao escritor negro Machado de Assis, seu primeiro presidente.

Ao sentar-se na cadeira 33, em 12 de setembro de 2013, Mãe Stella levou para a academia as epistemologias de terreiro ao território das letras — afirmando que o saber ancestral não se limita à oralidade. Em suas obras, como Meu Tempo é Agora (2010), reivindica o direito de narrar a partir do lugar do sagrado, trazendo para o espaço literário os valores civilizatórios afro-brasileiros e o pensamento de matriz africana.
Mãe Stella levou a “literatura-terreiro” (Freitas, 2016) para dentro de uma instituição que, historicamente, tem sido um espaço de legitimação e consagração de uma certa literatura, de uma certa forma de conhecimento. Seus escritos fundam uma linguagem com signos e códigos próprios, assentados na matriz de pensamento que sobreviveu ao que a filósofa Sueli Carneiro (2005) denominou “epistemicídio”. Nesse sentido, como guardiã das oralituras, a ialorixá-escritora fez ecoar, nesse território de poder-saber, as vozes do terreiro, promovendo o diálogo entre a tradição oral dos povos de santo e a tradição escrita dos acadêmicos.
Por outro lado, após 128 anos de história da Academia Brasileira de Letras, a escritora, roteirista e dramaturga Ana Maria Gonçalves abre novos rumos ao se tornar imortal da instituição e ocupar a cadeira 33. Com isso, Ana recoloca nesse espaço as vozes de uma tradição literária negra que, ao questionar a história oficial da literatura brasileira, propõe novas interpretações para repensar o cânone e faz reverberar, dentro da instituição, obras e autores(as) silenciados (os) por séculos.

Autora do romance monumental Um Defeito de Cor (2006), obra que se tornou referência na literatura brasileira contemporânea, Ana reescreve a história do país sob a ótica de uma mulher negra africana escravizada que reconstrói sua memória e identidade.
No discurso de posse, Mãe Stella disse, com a precisão de quem conhece o silêncio e a importância de registrar essa memória e saberes: “O que não se registra, o tempo leva. É por isso e para isso que escrevo. Compromisso continua sendo a palavra de ordem”. Para a ialorixá e literata, a escrita tem um fundamento importante porque contribui para preservar a sabedoria dos povos da diáspora.
A partir desse ensinamento de Mãe Stella, a escrita, nesse sentido, se faz grafia e desenho nossas experiências — aquilo que Conceição Evaristo (2020) conceitua como “escrevivência”, uma forma de estar e narrar o mundo a partir da perspectiva de mulheres negras para “incomodar os da casa-grande em seus sonos injustos”.
Foi com essa consciência que Ana Maria Gonçalves trouxe, em seu discurso de posse, no dia 7 de novembro de 2025, a seguinte afirmação: “Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, mas também a experiência de se comprometer a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades.”
No caso específico, escrever, afinal, sempre foi um ato revolucionário — um gesto que simbolizou luta pela liberdade, subversão da ordem e consciência de si. Por conta disso, muitas mulheres negras, escravizadas ou livres, aprenderam a ler e escrever, de forma clandestina ou não, como Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz e Esperança Garcia. Esse dado é fundamental para compreender por que a produção literária não é um acontecimento recente na vida de pessoas negras. Mesmo na condição de escravizados(os) e impedidos (as) de falar e acessar a educação formal, homens e mulheres não se mantinham passivos em relação a saber ler e escrever. É justamente desse legado, que revela a escrita como prática histórica de resistência e de conhecimento das populações negras, que nos permite vislumbrar o alcance do que se inscreve hoje nas academias de letras pelo país.
Cadeira 33: de tradição, axé e pretuguês
A cadeira 33, que tem como patrono Castro Alves (ALB) e o filólogo Evanildo Bechara na ABL, é agora atravessada por outro idioma: o do axé, o do pretuguês. Assim, ela carrega a força e a bênção — o axé que move a palavra de tantas continuidades. É pertencente à encruzilhada onde a ancestralidade e o literário se encontram, dando forma a narrativas que resistem e reinventam tradições.
É nessa dobra de ancestralidade e escrita que se destaca esse acontecimento que agora testemunhamos. Duas mulheres negras, duas cadeiras 33, duas escritas revolucionárias que, em tempos e espaços distintos, reencantam a linguagem e o mundo, reconfigurando as fronteiras do que se entende por literatura e intelectualidade. Pode-se, então, afirmar que Mãe Stella de Oxóssi e Ana Maria Gonçalves representam presenças inéditas e disruptivas nas academias de letras. Mas quem será a próxima?
Falando Pretuguês às Academias
No discurso de posse das pioneiras, Ana Maria Gonçalves pediu a bênção aos pais e declarou que escreve em pretuguês — termo cunhado por Lélia Gonzalez (1935-1994) para designar a influência das línguas africanas no português falado no Brasil e afirmar uma tradição cultural de resistência. Por sua vez, Mãe Stella se dizia formada em duas línguas: “o português e o iorubá”. Falar “iorubá” e “pretuguês” às academias é, antes de tudo, reclamar espaço para a voz negra dentro de um território que historicamente a excluiu. Reconhecer que o repertório recorre a outra gramática, que foge ao padrão normativo, é dar voz à linguagem do chão dos terreiros, às histórias contadas à beira do fogo e às cantadas nas rodas de xirê. É o caso de Mãe Stella e Ana Maria Gonçalves, intelectuais negras e acadêmicas imortais, que, com seus fios de contas, aprenderam a escrever e a pensar o mundo a partir de outras cosmologias, incorporando os sons, as pronúncias e os ritmos dos atabaques que renovam os repertórios das academias.
Ofá e Abébé: escritas do futuro
É possível dizer, portanto, que, desde a fundação da ABL, as mulheres foram excluídas — nesse caso, deliberadamente. Somente após a mudança na interpretação de seu estatuto, a ABL passou a admitir mulheres, permitindo que escritoras finalmente ocupassem — ainda que de forma esparsa — espaços antes restritos e inscrevessem suas vozes na história da instituição, marcando presença nas cadeiras que, por décadas, lhes foram negadas.
Durante a posse, Ana Maria Gonçalves lembrou esse fato e recordou que muitas mulheres foram impedidas de ingressar nesse espaço, constituído majoritariamente por homens brancos. Conforme os registros, escritoras como Amélia Beviláqua, Júlia Lopes de Almeida e Diná Silveira de Queiroz tiveram suas candidaturas recusadas. Ela destacou que ainda são poucas mulheres — no momento, apenas seis — “para tanto trabalho de reconstrução do imaginário sobre o que representamos”.
Ao fazer essa crítica, recordo que o episódio da rejeição ganha relevo, de modo especial, em 2018, quando a escritora negra Conceição Evaristo concorreu à ABL com amplo apoio da sociedade civil, mas, ainda assim, a cadeira 7 foi ocupada por Cacá Diegues. Posteriormente, em 2024, Evaristo se tornou a primeira mulher negra a integrar a Academia Mineira de Letras (AML), um marco que evidencia tanto os avanços quanto os persistentes limites das instituições literárias brasileiras.
Entre Mãe Stella de Oxóssi, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves há passos que vêm de longe. Por isso, quando uma mulher negra se senta na Academia Brasileira de Letras, muitas outras se sentam com ela: Esperança Garcia, Luiza Mahin, Maria Firmina dos Reis, Auta de Souza, Mãe Beata de Iemanjá, Carolina Maria de Jesus e tantas outras — todas ali, compondo a roda, firmando o ponto de partida e chegada, abrindo caminhos. E, nesse movimento, o ofá aponta a direção, a damatá finca o gesto e o abébé reflete a força e a beleza do que herdamos, ocupando espaços de consagração.
De outra forma, não se pode imaginar que o ingresso de Ana Maria Gonçalves na ABL seja apenas uma conquista individual. É o sinal de que nossas palavras — aquelas nascidas nos terreiros, nas cozinhas, nos quintais, nas cartas, nas rezas e nos corpos — começam a ocupar o espaço que sempre lhes pertenceu. Como lembra Conceição Evaristo: “O importante não é ser o primeiro ou a primeira. O importante é abrir caminhos.”
Cada vez que uma de nós escreve, o Brasil se reescreve — e, nele, se refaz a própria história.
É dessa encruzilhada de vozes e heranças que assento minha reflexão, um espaço onde se constroem futuros possíveis e se espera que outras escritoras e intelectuais negras venham a ser reconhecidas e premiadas, firmando presença nas artes literárias para interromper (im)possibilidades, (des)autorizações e (in)visibilizações.
De imediato, acende-se o provérbio de Mãe Stella, inscrito em Ewe (2007): “o que o destino disser que é, ninguém terá a força de dizer que não é”. Entre línguas e mundos — o visível e o invisível — seguimos falando iorubá e pretuguês às academias, para lembrar que nossas oralituras, sobreviventes do sequestro e da travessia forçada, nascem de outras águas, ativam outras cosmopercepções e fazem assentar saberes que merecem — e podem — ser legitimados.
Referências
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
FREITAS, Henrique. O arco e a arkhé: ensaios sobre literatura e cultura. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2016.
GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de Cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro‑latino‑americano: ensaios, intervenções e diálogos. Org. Flávia Rios; Márcia Lima. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da memória : o Reinado de Nossa Senhora do Rosário no Jatobá. São Paulo; Belo Horizonte: Perspectiva; Mazza Edições, 1997.
SALES, Cristian Souza de. Assentamentos de resistência: escritoras e intelectuais negras no Brasil e Caribe em insurgências epistêmicas [tese — Doutorado em Literatura e Cultura]. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2020.
SANTOS, Maria Stella de Azevedo Òwe. Salvador: Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, 2007. (Provérbios).
SANTOS, Maria Stella de Azevedo. Meu Tempo é Agora. 2.ª ed. Salvador: Assembleia Legislativa da Bahia, 2010.

Cristian Sales [Correspondente Literária – Metropolitano de Salvador] É crítica literária e pós-doutora em Crítica Cultural (UNEB), doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UNEB). Professora do Pós-Crítica/UNEB, pesquisa escritoras e intelectuais negras na América Latina e no Caribe, com foco em autoria, crítica e teoria literária.

