Em entrevista concedida a Nélio Silzantov, Valmir Henrique de Araújo fala sobre os desafios da modernização e a visão de transformar a Academia Conquistense de Letras em uma “ágora da palavra” aberta ao público
Após um considerável período com a maioria de suas cadeiras vagas e uma presença quase imperceptível na cena cultural de Vitória da Conquista, a Academia Conquistense de Letras (ACLetras) vive um momento de renovação. Com o seu quadro de membros finalmente preenchido e um novo presidente à frente, a instituição busca virar a página e se reconectar com a cidade. Em entrevista exclusiva à Revista Foro Literário Sertão da Ressaca, o novo presidente da academia Valmir Henrique de Araújo, reflete sobre os desafios institucionais e indica caminhos possíveis para fortalecer a presença da ACLetras na cena literária local.
Baiano de Paulo Afonso, a trajetória de Valmir Henrique de Araújo é marcada por uma persistente busca pelo conhecimento, tendo deixado a 8ª série aos 20 anos e se graduado em Física aos 36. Posteriormente, ele se especializou e tornou-se mestre em Engenharia Nuclear pela UFPE , lecionou Física na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e conquistou prêmios científicos em feiras de engenharia, além de realizar dois pós-doutorados em Robótica Educacional na UFRN. É autor premiado de contos, romances e obras infantojuvenis como “A invenção do artista” (Conto), “A blusa estampada” (Romance), “Os trançados de Lia” (Infanto-juvenil), respectivamente galhardeados com o Prêmio Professora Zélia Saldanha em 2004, 2010 e 2014, “O menino das estrelas” (Conto), premiado no Concurso do Servidor Público da Bahia, 2014, e “Meu vô, canário-da-terra” (Romance), premiado em 2025 no Prêmio Professora Zélia Saldanha.
Hoje, à frente da Academia Conquistense de Letras (ACLetras), Valmir Henrique de Araújo se vê diante de outro tipo de equação: como conciliar tradição e renovação em uma instituição que ainda busca se reinventar?
A pergunta é direta, e sua resposta, como muitas das que viriam a seguir, tangencia a complexidade do problema em um tom politicamente prudente. “A Academia Conquistense de Letras está sempre inovando. Típico de uma instituição que abraça a literatura, a mais surpreendente das artes”, diz. A nova gestão que ele conduzirá, marcada para começar em janeiro de 2026, traz o que ele considera duas novidades: a primeira é a gestão colegiada, uma forma de dividir o poder e multiplicar o diálogo, e em vez de metas propositivas, Valmir oferece a imagem do “maestro-compositor”, onde seu papel se limita a orquestrar as diretorias: “O diálogo com as diretorias é como o de um maestro com seus músicos. Compomos juntos, afinamos juntos. A Academia precisa de harmonia, não de regência solitária.”
A segunda novidade é um projeto artístico-literário que visa recolocar a ACLetras no centro da vida cultural de Vitória da Conquista, com iniciativas como: “O Clube de Leitura, A publicação da Revista ACLetras, Oficinas de Literatura: Poesia, Contos, Crônicas e Romances, sob a direção de Esmeraldino Correia Santos”. A ideia é simples, mas promissora: transformar a Academia em um espaço vivo, participativo e mais próximo da comunidade que a cerca.
Ao ser questionado sobre as transformações do mundo, Valmir reconhece que o papel de uma academia de letras, hoje, precisa ultrapassar as paredes da sua sala de reuniões. “A Academia tem de estar em conexão com outras academias e em compartilhamento de suas criações com a sociedade. E não só: trazer as autoridades em diversas áreas para tratar de assuntos que sejam de interesse a toda comunidade. Em se tratando de outras academias com a ACLetras, eu e a confreira Mariângela Borba iniciamos essa jornada de vínculos, por estarmos, desde o início, com o Presidente da Academia de Letras da Bahia, Aleilton Fonseca, no Projeto da Rede de Integração Cooperativa das Academias de Letras da Bahia – RICA”.
A modernização, contudo, é o ponto mais sensível. Em uma era dominada pela comunicação digital, a ACLetras é uma das poucas academias de letras que ainda não possui um site ou perfis ativos em redes sociais — ou mesmo a comunicação por e-mail e sua constante falta de resposta a contatos. Em certa medida, esse problema herdado das gestões anteriores representa um isolamento da instituição em relação ao público, especialmente aos mais jovens. “Essa é uma questão já discutida com o Diretor de Cultura, Artes e Comunicação e as Assessorias, o advogado e mestre em memória, Natanael Oliveira do Carmo. Para tanto, vamos ter de contratar serviços especializados para se inserir com qualidade nas redes sociais, em acordo com as outras Diretorias”. Embora seja uma das respostas mais honestas, a ausência da ACLetras nas redes e a sua incomunicabilidade pode parecer apenas técnica, mas aponta para algo mais profundo. Talvez valha à Academia considerar que tais questões não se resolvem apenas com estrutura ou serviço técnico. Mais do que se atualizar neste ponto, é preciso repensar o modo de se comunicar, encontrar uma linguagem capaz de traduzir seu papel simbólico e sua sensibilidade literária para o tempo presente, encontrar um modo de dizer-se, sem deixar dúvidas sobre a sua identidade, seja ela qual for.
O desafio é grande: tornar visível uma instituição que, por tradição, se acostumou ao recolhimento. A mesma atenção deve valer para o patrimônio histórico da Academia, tanto no que diz respeito à sua preservação quanto à elaboração de uma estratégia eficiente para tornar seu acervo bibliográfico acessível a pesquisadores e ao público em geral. Afinal, preservar o passado é também uma forma de abrir caminho para o futuro. De acordo com Valmir Araújo, desde 2006, o acervo da Academia vem sendo preservado com mais rigor, guardado em espaço protegido. “A digitalização do acervo e outras demandas dependem de editais de fomento à cultura, e terá a expertise do confrade Pawlo Cidade”, explica.
Outra força principal da Academia, segundo Valmir, está em sua abertura para o novo. Perguntado sobre como a instituição pretende dialogar com a nova geração de escritoras e escritores conquistenses que tem gerado uma efervescência na cena local, ele ressalta que “A ACLetras vale-se das articulações de narrativas. E a nossa já iniciou o diálogo com as novas vozes e coletivos, haja vista que alguns confrades e confreiras participam de tais movimentos”. E vê ainda essa mesma efervescência, com seus saraus, feiras, encontros e publicações independentes, como um laboratório em fervura: “Quem entende de química e de cozinha sabe que o aquecimento faz emergir borbulhas que atraem outras tantas. Estamos nessa culinária.” A metáfora é espirituosa, mas também não esclarece. Todavia, seu sentido prático será testado na execução dos projetos.
Quem acompanha a produção cultural de Vitória da Conquista sabe que ela ainda não alcança de forma plena todas as camadas da população, sobretudo nos bairros periféricos. Ao ser questionado de que modo a ACLetras pretende atuar para tornar-se uma instituição mais próxima e participativa nesse contexto, o novo presidente reconhece os desafios, sublinha duas considerações e oferece uma resposta mais lúcida e ética: “1ª. a ACLetras deve conhecer as manifestações culturais de bairros periféricos para não incorrer no erro de catequizar, supondo que não há cultura; 2ª elaborar projetos (já em andamento) para começar o diálogo em escolas públicas e possíveis associações de bairros”, o que, caso se concretize em diálogo real com coletivos e grupos das zonas periféricas, poderá marcar um início promissor em sua gestão.
Ao ser indagado sobre o que seria uma “literatura conquistense”, Valmir Henrique prefere não fechar definições. A hesitação é compreensível: a literatura local, como a própria cidade, ainda negocia suas fronteiras entre sertão e modernidade. “A questão é dificílima de responder. Não entrarei nessa seara. Afinal, o que é identidade? Posso afirmar que a literatura conquistense tem um apego muito forte e positivo em relação à história da região. Até onde consegui alcançar, há obras nas categorias de contos, romances, poesias e, principalmente, ensaios sobre a história. Tal aspecto pode ser considerado um ‘indício’ de identidade: o amor à terra”.
Sua mensagem final aos escritores de Vitória da Conquista é de acolhimento e um retorno à metáfora que parece atravessar toda a sua visão de mundo: a da ágora: “A Academia Conquistense de Letras é uma ágora. E por ser do povo, ‘como o céu é do avião’, o sentimento de não-pertencimento é incabível. Ágora e abraço são compartilhamentos. Aguardamos a todos”. A imagem é bela, e também idealizada. A ágora de que o recém-eleito presidente da ACLetras fala talvez ainda não exista, mas é, sem dúvida, um horizonte possível. Se a literatura é uma forma de testemunhar o tempo, talvez sua gestão seja também uma tentativa de escrever a nova página na história da Academia.

