Crítica de Lucas Novaes originalmente publicado na Edição nº 2 da Revista Foro Literário, em setembro de 2026
Causa estranheza escrever sobre um texto de tom memorialístico, quase confessional, escrito em uma forma heterogênea, talvez fruto de fusão impensada de gêneros, em uma revista cujo volume foi pensado para descrever e pensar (e fazer pensar) sobre o que se entende por “sertão”, palavra que soa tão vasta e complexa mesmo a ouvidos brasileiros. Mas é o que se propõe com a resenha que ora se desdobra, cujo objeto é, ao fim e ao cabo, de autoria de alma tão sertaneja quanto o chão que a fez surgir.
Em Diário da sua vida (2026, Editora da autora/Danado de Bom, 116p.)1, Marla Moreira dispõe no papel “anotações […] extraídas de um diário, quase sempre espontâneas: pensamentos soltos, às vezes urgentes, outras vezes delicados” (p. 11). O título aponta um diário; a ficha catalográfica menciona “Conto” e “Crônica”. Talvez esse amálgama seja o que é preciso para costurar a “colcha de retalhos” (p. 15) de que fala o capítulo inicial, que construirá, ainda, a metáfora da vida, da escrita e da narrativa enquanto “tessitura”: “mesmo que algumas costureiras considerem certos critérios na hora de escolher os pedaços de tecido, não há uma regra única: as combinações são livres e podem surgir de infinitas formas” (p. 15).
Esse conjunto memorialístico, sempre subjetivo e pessoal, funciona como um exercício para encontrar na linguagem o equivalente ao que se passa e ao que se vivencia no íntimo, afinal “somos linguagem”: “palavras, gestos, atitudes. Somos o dito, o não dito e o interdito” (p. 25). Esse “diário-conto-crônica”, livro especulativo e, como já se disse, íntimo, serve, portanto, a uma missão de afirmação interior, voltada para si, para um “eu” que vive, também, de memória e lembrança:
[…] lá fora as estrelas ainda brilham e o ar puro existe. Quero a família sentada na varanda de casa, cantando causos, dando beijo de boa noite e o chamego de bom dia. Sentar à mesa para as refeições e sentir os sabores da vida. O desafio é descobrir como ‘bordar à mão’ – ser livre e lento – enquanto o mundo exige a velocidade da ‘máquina industrial’. […] Continuo buscando as chaves, e a escrita é uma delas” (p. 100).
A afirmação da escrita como intérprete do mundo ao redor (ou do mundo que já se foi) ou a definição de si enquanto linguagem não parecem ser muito “sertanejas”. Mas é precisamente a esse adjetivo que convergem as percepções do Diário. Em citações famosas, sempre lembradas, do Grande Sertão, Guimarães Rosa assevera que “O sertão é do tamanho do mundo”, “Sertão é o sozinho. […] Sertão: é dentro da gente.”, “O sertão é sem lugar.”2, o que desloca, imediatamente, o componente físico-geográfico para um ambiente “interior”, quase psíquico-espiritual. Em um livro de memórias pessoais, quase nada descritivas, talvez até mesmo destituídas de “cor local”, não poderíamos, então, enxergar o “sertão”?

É curioso como essa busca pela afirmação de si pela linguagem é, em verdade, essencialmente sertaneja. No famoso soneto Língua portuguesa, Olavo Bilac chama a expressão linguística, especialmente do português brasileiro, como se dotada fosse de certo “viço agreste”3, expressão que passa quase despercebida se repararmos que o poema faz uma apologia de uma língua dita “europeia”. Em Vidas secas, Fabiano é comparado ao papagaio, porque “não sabia falar”, tem filhos que não têm nome e, ao murmurar de si para si, iguala-se aos bichos4 – é quase um “anti-Adão”, que, em lugar de nomear tudo, para nada tem nomes (palavras, vocábulos). É, pois, um exercício de dar nomes o que se propõe no Diário, porque, para dar nomes é preciso perguntar-se e “Perguntas são agulhas que espetam” paras as quais encontramos “as respostas que já residem dentro de nós” (p. 45), eu diria: em “nosso sertão”.
“Há inúmeras respostas dentro de nós esperando para serem descobertas” (p. 68), continua Marla. A “tessitura” (do texto e da vida) é permanente bem como a metáfora do tecido, presente em todo o Diário:
“O tecido desgastado traz as marcas do tempo, das nossas histórias e das tessituras com o outro. Das memórias da infância, lembro-me das calças remendadas do meu avô. Havia momentos em que o pano estava tão puído que não bastava apenas a agulha e a linha para consertar.” (p. 71)
Se “Temos um jeito singular de ser, sentir e estar no mundo” (p. 21), no Diário a constante busca pela expressão linguística é permeada, de forma simultânea, por uma relutância do próprio desejo de expressar-se: “Falar ou não falar sobre nossos sentimentos? Soltar os nossos fios para que se entrelacem a outras vidas – ou guardá-los” (p. 21), pergunta-se a narrativa do Diário. Está presente, portanto, uma rememoração do que se vive, ainda que composta por dores, angústias e medos, afinal “Somos feitos de retalhos imperfeitos” (p. 31). Em outras palavras, “A verdade [de si e do outro] nem sempre é bonita” (p. 59) e é isso o que notamos quando, por exemplo, enxergamos “o avesso do bordado [,] que fica escondido, mas revela a estrutura do desenho, [pois] o que é verdadeiro clareia situações obscuras” (p. 59).
Gênero esquecido este do Diário. Destinado à solidão, afinal, em um diário, nós colocamos o que não deve ser visto, o que deve ser reservado a si e preservado ao olhar e à curiosidade alheia, um diário impresso e publicado se coloca em uma posição diversa: há uma solidão originária, gênese do texto escrito no diário, e, concomitantemente, há uma solidão compartilhada pelo leitor, que, por sua vez, também se “isola” no texto, porque lê solitariamente. O leitor deste Diário da sua vida (título ambíguo que sugere se tratar de um diário “meu” – da autora – e “seu” – do leitor individual e, coletivamente, de todos os leitores) é aquele que “escolheu, mesmo que por alguns instantes, desligar a máquina do mundo e pegar na agulha com as próprias mãos” (p. 116), afinal desejou, com isto, com o ato de ler, “Resgatar o humano em nós”, “voltar ao ritmo artesanal”. (p. 116).
Referências:
1. MOREIRA, Marla. Diário de sua vida. Vitória da Conquista, BA: Editora da Autora, 2026.
2. ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
3. BANDEIRA, Manuel (org.) Antologia dos poetas brasileiros: Poesia da fase parnasiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 230.
4. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Editora Record, 2020.
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Lucas Novaes é correspondente literário do Sudoeste Baiano. Professor de Língua Portuguesa formado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Tem contos e crônicas publicados em coletâneas. Seu primeiro livro, “O hoje não existe: crônicas sobre o ontem e o amanhã” (2024), foi publicado pela Caravana Grupo Editorial. Em 2025, a mesma editora publicou seu primeiro romance, “O diálogo dos sussurros“.

