Crônica de Cleber Teixeira sobre o encontro com Leonencio Nossa, biógrafo de João Guimarães Rosa, durante a Bienal do Livro Bahia 2026

A grandiloquência, ou melhor, esse falar difícil típico de pseudointelectuais costuma tentar mascarar uma erudição limitada e, não raro, falhas de caráter, invariavelmente fracassando.

O maior escritor brasileiro do século XX, embora tenha sido médico, diplomata e poliglota, foi imortalizado pela obra que registra frases como “sertão: é dentro da gente” ou “passarinho que debruça — o voo já está pronto” e, em suas entrevistas, costumava se despir da figura do intelectual para comentar a vida e a literatura em uma prosa amigável e sem pedantismo.

Da mesma forma, o premiado jornalista que agora publica a monumental biografia de João Guimarães Rosa, 70 anos após a primeira edição de sua obra-prima, o romance Grande Sertão: Veredas, também se dirige aos leitores com naturalidade e fluidez. Se não há economia de conteúdo, o livro de Leonencio Nossa (Topbooks/Nova Fronteira, 736 p.) dispensa os excessos de formalismo para se comunicar com clareza e elegância.

Para além da obra, o autor, que iniciou o circuito de lançamento dessa biografia na Bienal do Livro Bahia, no dia 20 de abril, mantém esse discurso despretensioso em suas falas ao público, entretendo a plateia com uma linguagem simples e anedotas deliciosas sobre seu biografado, provando que não foi o hermetismo que lhe garantiu o Prêmio Esso e tantos outros reconhecimentos.

Recebendo-me para um autógrafo, lá na Bienal, Leonencio Nossa, que me reconheceu de imediato de uma rede social, não teve pressa nem cerimônia para me atender. Bem-humorado, comentou a ausência de acentos em nossos nomes, leu com precisão os detalhes da minha tatuagem na panturrilha sobre o Grande Sertão, que ele insistiu que eu mostrasse, e falou-me dessa “quase seita” rosiana como um amigo que só quer compartilhar, jamais competir. Ainda pediu gentilmente que eu falasse de Kalline, para que pudesse dedicar melhor o outro livro que eu levava para autografar.

Apesar do ambiente da Bienal, que fatalmente induz alguns autores a usarem discursos solenes, sob a falsa impressão de falarem apenas para “iniciados”, Nossa manteve uma linguagem sóbria e uma postura modesta, que de maneira alguma diminuíram o valor de sua pesquisa ou de sua publicação.

Não houve um único arcaísmo. Tampouco há preciosismos anacrônicos nessa biografia, resultado de 20 anos de cuidadosa pesquisa e merecida empreitada. No entanto, a grandeza do texto vai além da extensão, narrando com ritmo, descrevendo com precisão e analisando com profundidade uma vida e uma obra como ninguém conseguira antes, ao menos nesse nível de detalhamento.

João e Leonencio, homens de seus tempos, falam com seus contemporâneos, mas falam (e falarão) também com a posteridade, pois reconhecem na língua viva a capacidade de comunicar plenamente, sem que seja necessário recorrer a discurso metido a besta. Porque sabem que a simplicidade é o cúmulo da sofisticação.

Cleber Teixeira é correspondente literário de Piemonte do Paraguaçu. Professor de língua portuguesa da rede estadual, especialista em Estudos linguísticos e literários, poeta premiado em concursos literários (2003, 2004), cordelista e editor-chefe da agência de notícias Cemanews.


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