Resenha de Sidney Summers sobre a HQ publicada pelo roteirista baiano Weverton Souza Reis e ilustrado por Kaow
Há algo de estranhamente acolhedor em Gravedigger Vol. 1, primeira incursão no universo criado pelo roteirista baiano Weverton Souza Reis e ilustrado por Kaow. Em suas 98 páginas, o quadrinho nos apresenta Edgar, um coveiro solitário que divide seus dias entre o trabalho no cemitério e a companhia de seu corvo, Poe (nomes que não parecem mera coincidência). Mas engana-se quem espera uma rotina silenciosa. No cemitério, os mortos não descansam exatamente em paz.
Zumbis, crianças fantasmas que retornam anualmente para reviver, talvez inconscientemente, seus próprios lutos, e outras manifestações sobrenaturais fazem parte do cotidiano desse protagonista que carrega, sob a pá e a aparência rude, um passado que as poucos é revelado, além de muito carisma. Em sua juventude, Edgar foi um beberrão inveterado, evocando a imagem de uma espécie de Charles Bukowski transplantado para o interior baiano, uma referência que ajuda a construir sua personalidade desencantada, mas ainda profundamente humana.
A narrativa ganha peso emocional com a morte de Isaac, o único amigo humano do protagonista (há também o corvo). Esse evento funciona como ponto de virada no volume, ampliando o horizonte da história ao apresentar também seus antagonistas e insinuar planos mais sombrios que devem se desenvolver ao longo dos 70 volumes previstos.
Um dos maiores trunfos da obra está em seu humor por vezes, inesperado, mas sempre sutil. As referências são um deleite à parte: nomes de personagens como Estefanio Kim, Isaac e Roberto Filip funcionam como piscadelas diretas a Stephen King, Isaac Asimov e H. P. Lovecraft, surgindo quase como piadas internas que surpreendem o leitor (como a referência ao conto Os Filhos do Milho de Stephen King). Esse jogo se estende aos detalhes visuais e textuais: marcas fictícias como “Burguer Queen”, o anúncio no maço de cigarro (e sua própria marca), bem como a presença da cachaça ajudam a construir um universo que é, ao mesmo tempo, fantástico e profundamente brasileiro.

Weverton Souza Reis

Kaow

Lucas
Rodrigues Ferreira
No entanto, a obra não escapa de algumas limitações técnicas. A ausência de numeração nas páginas por vezes incomoda, do mesmo modo que certos problemas de legibilidade nas letras dos balões no início do quadrinho. O mesmo ocorre em alguns quadros, onde a clareza / sentido de algumas imagens comprometem a fluidez da leitura, são momentos pontuais em que precisamos parar e nos perguntar o que está representado ali. São questões que, embora não invalidem a experiência, indicam espaço para refinamento nos próximos volumes.
Ainda assim, Gravedigger Vol. 1 se sustenta como uma leitura envolvente e despretensiosa. É o tipo de quadrinho ideal para ser consumido em uma tarde, acompanhado de café e bolo, mas que carrega uma atmosfera suficiente para fazer qualquer um, vez ou outra, olhar de soslaio para a janela, desconfiado. Porque, se por um lado rimos, por outro, a sensação de inquietação nunca nos abandona completamente.
Em contato com o autor, ele salienta ainda a presença de Lucas Rodrigues Ferreira, responsável pelo design de Edgar, Ruffus e Asmodeus (sim, há demônios entre as folhas e o cemitério). Uma parceria mais antiga que se estende para outros projetos (sim, há ainda mais a conhecer sobre esse universo autoral).
Por fim, é impossível não destacar o valor da iniciativa. Em um cenário onde produzir quadrinhos no Brasil ainda é um desafio, o trabalho do roteirista, do ilustrador e da editora se mostra quase heroico. Mais do que colocar uma história no papel, há aqui um esforço evidente em materializar uma obra física cuidadosa, com acabamento que demonstra respeito tanto pelo leitor quanto pelo próprio meio.
Gravedigger começa, assim, com personalidade, humor e um pé firme na estranheza humana, ainda que disfarçada de sobrenatural. O coveira nos deixa uma mensagem clara, que ainda há muito a ser desenterrado.

Sidney Summers é correspondente literário Metropolitano de Salvador; professor em Salvador (BA), autor de Lodo, Escombro, Seriam os vermes em meu cérebro e Manual prático de geomancia. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais.

