Poesia, identidade e resistência: a trajetória do poeta miguelense Cláudio Santos

Em entrevista concedida a Jaciane Santana, o escritor Cláudio Santos reflete sobre a sua trajetória poética.

A trajetória literária de Cláudio Santos, poeta de São Miguel das Matas-BA, nasce ainda nos tempos escolares, quando o contato com a leitura despertou não apenas o interesse pelos livros, mas também a descoberta de uma habilidade até então desconhecida: a escrita poética. Inicialmente marcado por uma forte inclinação ao lirismo romântico, o autor construiu seus primeiros versos a partir de experiências afetivas, explorando temas como o amor, a paixão e a sensibilidade humana.

Durante esse percurso inicial, sua poesia circulava de maneira íntima e informal, sendo compartilhada entre amigos, que passaram a reconhecer e valorizar sua escrita, apropriando-se, inclusive, de seus versos para expressar sentimentos pessoais. Esse movimento, ainda que despretensioso, revelou o potencial comunicativo e emocional de sua obra, mesmo antes de qualquer projeto de publicação.

Com o passar do tempo, sua escrita foi se transformando. Sem abandonar o lirismo, Cláudio Santos passou a incorporar uma dimensão mais reflexiva e social à sua poesia, ampliando seus temas e aprofundando sua linguagem. Essa transição se consolidou especialmente com a produção de poemas voltados à consciência crítica, como “Sou Negro Sim”, texto que emergiu inicialmente como um desabafo pessoal, mas que rapidamente ganhou novos significados ao ser apropriado em contextos educativos, especialmente durante atividades relacionadas à Semana da Consciência Negra.

A repercussão de seus poemas em espaços escolares e coletâneas municipais marcou um ponto de inflexão em sua trajetória, evidenciando o alcance de sua escrita e abrindo possibilidades de expansão antes não consideradas. Ao lado dessa vertente mais engajada, o autor mantém uma produção significativa no campo do lirismo amoroso, destacando poemas como “Rosas da Vida”, “Aquarela do amor” e “Geografia do Amor”, nas quais a sensibilidade e a criatividade se articulam de maneira singular.

Assim, a obra de Cláudio Santos se configura como um espaço de encontro entre o íntimo e o coletivo, entre o sentimento e a consciência, revelando um poeta em constante construção, cuja escrita transita entre o afeto, a identidade e a reflexão social.

O poeta miguelense, Cláudio Santos, é autor de uma escrita marcada pela força da identidade negra, pela valorização da cultura nordestina e pela temática da afetividade. Seus poemas transitam entre denúncia, afirmação e lirismo, construindo uma voz potente e resistente. Acompanhe a seguir a entrevista que ele nos concedeu.

Cláudio, sua poesia é fortemente marcada pela temática da identidade. Como você define sua escrita?

Posso definir minha escrita como forma de incentivar outras pessoas a desenvolver suas habilidades e potencial, bem como despertar o senso crítico e a valorização da cultura negra na sociedade, despertando o desejo do conhecimento histórico de nossas ancestralidades.

Em poemas como “O que é ser negro?” e “Sou Negro Sim”, há uma forte afirmação identitária. O senhor redefine, com sensibilidade e firmeza, os sentidos de ser negro na sociedade contemporânea. Por que esse tema é tão central para você?

Esse tema para mim é muito forte, central d de grande relevância para ser abordado na sociedade atual. Pois diante de tantos estudos e em uma sociedade globalizada carregada de informações o preconceito com os negros ainda é latente. A sociedade é regida por um preconceito camuflado, onde muitos afirmam não ter preconceito e discriminação quando no seu íntimo são carregados desses sentimentos que as vezes tentam manipular nossa consciência como se de fato não existisse. É preciso ter alguém para dar vozão a sentimento de tantos discriminados com suas vozes caladas por um sistema opressor

Ainda falando sobre o poema “O que é ser negro?”, percebemos que há também um enfrentamento direto aos estereótipos raciais. O verso “Ser negro significa ser guerreiro / Libertos da escravidão” traz uma dimensão histórica. Qual a importância da memória na sua poesia?

O poema ‘O que é ser negro” nasceu da ideia de dar identidade a nossa cor/raça e mostrar para o leitor e a sociedade que ser negro é ser bom, ser honesto ser digno, pois mim sinto indignado quando somos usados apenas como objetos com determinadas finalidades objetivo de uma determinada classe social. O verso “Ser negro significa ser guerreiro libertos da escravidão” significa dizer que somos lutadores, estamos em constante reivindicação para nossa aceitação, nossa inserção no mercado de trabalho cheio de racismo estrutural e institucional. Libertos da escravidão é apenas da escravidão formal de troncos e chicotes porque na verdade essa tão sonhada “LIBERTAÇÃO” ainda não chegou, porque somos escravizados até mesmo quando tentam tirar nosso direito de falar etc. Talvez não escravizam nosso corpo, mas escravizam nossa mente.

No poema “Nordeste”, você valoriza muito sua região. Qual a importância do Nordeste na sua construção como poeta?

Sabemos que o Nordeste é uma região rica em cultura e eu me vejo inserido no meio desse mar de cultura, ao mesmo tempo o Nordeste também é uma região muito discriminada por algumas regiões do país assim como o negro tem seu jeito de ser o nordestino também. Sua cultura de manifestação folclórica, culinária, roda de samba e até mesmo o cordel, são coisas que não são valorizadas e eu senti a necessidade de valorizar essas tradições. Nosso oxente carregado de significados

Seus poemas também exploram o amor, como em “Aquarela do Amor” e “Rosas da Vida”. O que representa o amor na sua escrita?

Na minha escrita o ‘amor” representa o imaginário, a leveza o que nos leva a felicidade. Falar de amor nos faz bem, nos deixa leve desperta nosso lado sensível e sentimental ao pensar em alguém.

Para finalizar: o que é ser poeta para você?

Posso afirmar que ser POETA é um estado de espírito. Ser poeta é ser artista é ser representante da voz de tantas pessoas que não conseguem expressar seus sentimentos seja ele amoroso ou reflexivo. É despertar a criatividade em forma de arte. É contestar com um sistema escravista e opressor sem necessitar brigar ou ofender verbalmente. É representar o sentimento alheio sem sequer conhecer o sujeito.

Jaciane Santana é correspondente literária do Vale do Jiquiriçá. Pesquisadora e mestranda em Estudos Literários (UEFS) com bolsa Capes. Graduada em Letras, investiga racismo estrutural e literatura afro-brasileira. Autora do livro “Alteridade, violência e resistência” e colaboradora do volume 45 dos “Cadernos Negros”. Integra grupos de pesquisa literária na UEFS.


Uma resposta para “Poesia, identidade e resistência: a trajetória do poeta miguelense Cláudio Santos”

  1. Avatar de Rejane
    Rejane

    Excelente entrevista, parabéns aos envolvidos!

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